Entre a razão e o sentimento

Por ocasião da descoberta do noivado de Edward, seu grande amor, com Lucy, uma senhorita de seu convívio, Elinor e Marianne travaram o seguinte diálogo:

– Quatro meses! Já sabia disso há quatro meses?
Elinor confirmou.
– Como?! Enquanto cuidava de mim em toda a minha desgraça, você trazia isso no coração? E eu que a censurei por ser feliz!
– Não era bom que soubesse na época o quanto eu era o contrário daquilo!
– Quatro meses! Exclamou Marianne de novo. – Tão calma! Tão alegre! Como aguentou?
– Sentindo que estava fazendo o meu dever. Minha promessa a Lucy obrigava-me a guardar segredo. Eu devia a ela, portanto, evitar sugerir a verdade de qualquer jeito; e pela minha família e amigos eu tinha a obrigação de não criar motivos de preocupação por mim, algo que não estaria em meu poder satisfazer.
Marianne parecia impressionada.

[…]

– Entretanto, não amava só a ele; o bem-estar dos outros é importante para mim, e por esse motivo queria poupá-los de saber como me sentia. Agora já consigo pensar e falar sobre isso com pouca emoção. Não queria que sofressem por minha culpa, pois lhe garanto que não estou mais sofrendo muito. Que eu saiba, não provoquei decepção em ninguém por nenhuma imprudência, suportei tudo ao máximo que pude, sem contar nada a ninguém.

(Razão e sensibilidade. Jane Austen. p. 201)

Quando você coloca os outros em primeiro lugar na sua vida, mesmo sendo uma pessoa racional, como o era Elinor, não há como evitar as decepções, pois elas invadirão seu espaço e apenas você sofrerá. Será que vale a pena? E ainda por cima sofrer calada? As convenções sociais daquela época impediam as moças de demonstrarem abertamente seus sentimentos. Era tudo muito contido. No entanto, sofrer calada para poupar sofrimento aos outros é atitude que deve ser medida e aplicada a cada contexto. Tenho aprendido que devo ter por estima, em primeiro lugar, a mim mesma. E depois, as outras pessoas. Mas isso também depende da situação. O equilíbrio é o caminho. E tem dado muito certo.

Texto publicado originalmente aqui.

Livro 1: Razão e sensibilidade

O primeiro encontro virtual aconteceu no dia 9 de maio, uma bela noite de domingo, com a participação de Cássia, Carol, Marina e Nina. A nossa longa discussão, editada, vem a seguir.

Carol: Vamos ao razão e sensibilidade? Então… acabei o livro me identificando imensamente com a Marianne. Mas acho que tenho um pouco de Elinor. Bem pouco…

Cássia: Eu sou mais Marianne, mas percebi que estou virando Elinor.

Nina: Eu também… era TOTALMENTE Marianne, mas acho que o tempo me fez virar um pouco Elinor.

Marina: Eu acho que eu deveria ser mais Elinor, mas com certeza fui muito Marianne no passado.

Cássia: Vocês notaram que, no fim das contas, foi só a Elinor que ficou com o cara que gostava? E a Marianne acabou se entendendo com um cara que gostava dela, mas por quem ela não era apaixonada?

Nina: Sim, sim… acho que a Marianne, por ser tããããão intensa, ainda tinha muito o que aprender com a vida. Sei lá, a maneira como ela via as coisas…

Carol: Costuma-se dizer que o estilo de Jane é irônico e tal. Depois de terminar o livro, vocês concordam com isso? Eu fiquei meio discordante dessa afirmação, dessa leitura.

Marina: Eu concordo com a Cássia, que no final só a Elinor acabou como queria, e eu fiquei pensando sobre isso, talvez seja porque ela tinha muita confiança nela mesma; mesmo quando soube do noivado dele, não perdeu toda a confiança.

Cássia: Marina, eu discordo. Concordo quando a Carol disse que a Jane não foi irônica, mas achei o final a grande ironia. Não acho que uma pessoa racional seja mais madura que uma emocional, mas logo aquela que abafava o que sentia foi a “feliz” no fim das contas. Ou seja, a realização do sentimento só veio para quem o ocultava.

Carol: Acredito que algumas personagens são irônicas. A autora foi muito realista ao mostrá-las como são. Apesar de toda riqueza, havia a falta de modos e de educação. No que diz respeito às irmãs Dashwood, a autora quis mostrar os dois lados dos relacionamentos. Especialmente naquela época, gente como Marianne era extremamente rara. Ela era uma “ovelha negra” entre as moças daquele tempo. Vejo as meninas de hoje muito parecidas com Marianne.

Marina: O final foi uma grande ironia para a Marianne, mas não acho que foi para Elinor. No começo eu também achava que ela escondia demais os sentimentos, mas depois comecei a pensar se não era também um sentimento de segurança.

Cássia: Marina, segurança ou insegurança? Eu acho que está mais para o segundo.

Carol: Cássia, também concordo. É insegurança e paixão que geram os comportamentos apresentados por Marianne. A inexperiência e a personalidade, né?

Marina: Cássia, segurança (da Elinor).

Nina: Não acho que Elinor era segura, acho que ela não demonstrava os sentimentos porque acreditava que aquela era a maneira certa de agir. Ela sempre foi mais coerente em ações do que a Marianne e isso era o mais importante para ela.

Carol: Elinor se comportava como a maioria das pessoas da época. Naquela época, era terminantemente proibido demonstrar sentimentos. Não era de bom tom. Nesse ponto que Jane demonstra a hipocrisia. As pessoas podiam estar infelizes ao lado das outras, podiam estar enojadas e com raiva, mas não podiam sequer levantar a voz!

Marina: Nina, é pode ser.

Nina: Então, por isso que vejo a Jane Austen como uma autora irônica sim. Os livros tratam basicamente da sociedade hipócrita da época. A Elinor é um exemplo forte disso. Não era uma hipócrita, mas tinha que agir de acordo com o que era aceito e não como queria o seu coração. Não sei vocês, mas eu tive vontade de estrangular a tal Srta. Steel.

Carol: Eu também.

Cássia: Meninas, eu disse outra coisa. Uma pessoa que guarda o que sente não é segura, ela tem medo. A Elinor era medrosa sim. Pode ser pela sociedade, pode ser pelo que for, mas ela não externava os sentimentos. A Marianne sim era corajosa para chegar falando o que sente, para se envolver com um cara e todo mundo acabar descobrindo, ainda mais naquela época…

Nina: Cássia, concordo!

Marina: Cássia, nesse ponto você tem razão.

Carol: Concordo, Cássia.

Marina: Cássia, mas acho que a Marianne fazia isso não só porque era corajosa, mas também porque não pensava antes de fazer ou falar.

Carol: Mas o povo não deixava de ser hipócrita! Marianne não era hipócrita e também concordo que é uma questão de personalidade.

Nina: Claro que não era! Ela dizia e fazia o que queria e pagou um preço alto por isso, né?  Vamos falar do Willoughby? Não é nada diferente de uns que eu já conheci.

Marina: Nina, verdade.

Carol: Ela pagou um preço alto porque acreditou no cara! Não por falar o que pensa, mas ela fantasiou. E isso é um dos aspectos do livro que me lembra o Romantismo, enquanto escola literária. A Elinor é o lado do Realismo.

Cássia: Carol, discordo. Especialmente naquela época, era facinho acreditar. Aliás, até hoje a gente acredita, acha que o cara realmente quer alguma coisa. Ele alimentou sim as expectativas da Marianne. Eu teria acreditado fácil! Ainda mais que, naquela época, andar no bosque era quase noivado.

Carol: Cássia, sim. Até hoje a gente acredita. A gente fantasia. E concordo, ele alimentou e por isso foi um canalha! Acredito que haja responsabilidade dos dois lados. E naquela época mais ainda. Mas que isso é romântico é, não é?

Marina: Cássia, concordo. Depois ele mesmo admite que pensou na possibilidade de ficar com ela. Depois a Elinor também fantasiou, ela tinha certeza que ia casar, só porque ela não chorava como a Marianne não quer dizer que ela não tenha fantasiado.

Cássia: Carol, naquela época existia a questão do casamento para a vida toda, dos interesses, e de toda aquela coisa. Hoje em dia não funciona assim. A Marianne, por ser idealista, queria o casamento com amor. Marina, concordo plenamente! A Elinor só não falava nada, mas sofria horrores.

Carol: É pior sofrer calada. Eu acho!

Nina: O complicado é que a gente acaba se colocando no lugar, né? Talvez porque as questões vividas por elas são universais e mesmo cem anos depois continuam atuais.

Cássia: Para mim, é a mesma dor.

Marina: Carol, concordo, quando ela cuidava da Marianne eu pensava, mas gente, ela tá sofrendo tanto quanto e ninguém dá colo para ela.

Nina: Mas eu confesso que não entendi o noivado do Edward com a Steel lá. Me deu um ódio tão grande… Dói demais, gente. E aí a gente conhece a personagem, né? A Marianne no lugar da Elinor… ai,ai.

Carol: Juro que achei essa parte do livro meio… Sei lá, não gostei não, achei muito forçada!

Marina: Nina, eu também não tinha entendido direito, tipo ele ficou noivo, depois não queria mais, mas já era noivo e não podia fazer nada.

Cássia: Foi o momento Manoel Carlos da Jane Austen. Precisava dar emoção, né? Senão nosso foco nunca mudaria, ficaria só na Marianne, na sua paixão, na sua dor e nada de Elinor na história. A gente tinha de pensar que ela ficaria sozinha.

Nina: E foi ali que a gente viu realmente como era ser a Elinor, people.

Marina: Eu também pensei no que a Nina falou, se fosse a Marianne no lugar da Elinor, nooooossaaaaa, o mundo ia cair.

Carol: Vamos falar sobre os homens da história? O que vocês acham deles? E o irmão das Dashwood?

Cássia: Irmão bundão.

Marina: Carol, o irmão delas não é digno de comentários.

Nina: Um idiota completo!

Carol: E o coronel Brandon?

Marina: Figura paterna.

Nina: Não sei se figura paterna.

Cássia: Acho que mostra mais como era ser homem naquela época. No caso do irmão, ele ficou com uma grana, com a casa, e a mulherada que se danasse. Querendo ou não, naquela época ou você tinha um homem, fosse pai, irmão, marido, ou não tinha nada.

Nina: Pois é. E o preconceito com quem vai ficando mais velho e não casa, né? Tadinho, o coronel nem era velhinho.

Marina: E o coronel queria uma mulher, mas teve problemas.

Carol: E o Willoughby? E o Sir John?

Cássia: Marina, naquela época, a base de tudo era o casamento. Pode ver que tudo girava em torno disso.

Carol: Tudo girava em torno do casamento porque era um negócio mesmo, nada mais que isso. As moças já sabiam, os rapazes já sabiam. E as famílias se concentravam muito nos sobrenomes porque era através deles que se sabia da riqueza das famílias e se queriam um contrato entre elas.

Marina: Cássia, sim, mas ele também era romântico nesse sentido, ele tinha grana, não devia ser tão difícil achar uma mulher para casar, mas ele não queria casar por casar.

Nina: Gente, vocês podem me matar, mas eu confesso que achei o Edward até muito mais cruel do que o tal Willoughby (pensando no que acontece hoje, tá?). Tipo, ele sumiu e desistiu mesmo da Marianne. Ela até confessou que ele não prometeu nada. Tudo bem que andar juntos no bosque era considerado noivado, mas ele não prometeu nada a ela. Agora o Edward não desgrudava da Elinor.

Carol: Acredito que o livro traz um retrato do que ainda somos até hoje. Apesar de toda tecnologia e de todo desenvolvimento, ainda temos muitas dificuldades nos relacionamentos. Talvez hoje seja até pior… não sei. Não sei por que as pessoas ainda se casam hoje em dia. Por que as pessoas se casam? Por que ainda constituem família? Isso tudo vem de séculos de tradições…

Nina: Até a Steel disse à Elinor que sabia que eles eram amigos muito próximos e tals. Aí ele me aparece na casa da Elinor usando um anel com o cabelo da outra e finge que está tudo tranquilo? Ele nem contou para ela nada! Doeu!

Cássia: Nina, tem razão. Ele gerou mais expectativas que o Will.

Carol: Muito mais!

Marina: Nina, eu concordo com você, ele foi muito pior.

Nina: Will? hahaha.

Carol: Vamos queimar Will!

Cássia: Carol, sobre o casamento, eu penso o seguinte: falem o que for, mas a base da sociedade é a família. Se começar com essa de ninguém mais se juntar, ninguém mais se envolver, ninguém mais ter filho, esqueçam… A humanidade acaba. A Europa está envelhecendo e aí? Não nasce mais gente.

Nina: Concordo!

Cássia: Então, eu penso o seguinte: as pessoas casam não só por sentimento, mas porque querem construir uma história, seja como for.

Carol: Cássia, sim. Não estou questionando isso. Estou questionando o que leva as pessoas ainda hoje a se casarem porque hoje é tudo muito bagunçado. Tudo mundo fica com tudo mundo e é tudo muito liberal, bem diferente daquela época. Hoje se pode escolher. É isso.

Cássia: Acho que há uma falsa liberalidade, essa coisa do “vamos ser modernos”. Aí todo mundo volta ao que existia porque vê que isso não constrói nada.

Marina: E é uma ilusão pensar que hoje em dia as pessoas não casam por comodidade financeira. Às vezes se casaram não só pelo dinheiro, mas que influenciou muito, influenciou.

Nina: A começar pelos caras que dizem que gostam dessa liberdade total, mas cadê que casam com essas mulheres liberais? Na hora H só querem apresentar para a mãe uma menina de família.

Cássia: Está cheio de homem que quer casar, mas não acha mulher pra isso.

Carol: Se as pessoas não precisam mais se casar por dinheiro, vivemos época de muita loucura. As pessoas ficam perdidas até mesmo porque não sabem o porquê de estarem fazendo tal coisa (que a maioria lê como prisão!). Concorda?

Nina: Eu tenho uma pergunta…

Carol: Cássia, aí eu discordo. Quem quer casar, casa. Gente, isso de não haver pessoa para isso… sei não. Isso é uma desculpa. Voltando ao livro, eu vejo que a história toda se constrói com base nas relações humanas. Especialmente os pares. Vocês concordam?

Cássia: Ué, você vai casar com um palerma? Não. Tem muita mulher periguete no mundo, gente… Hello!

Carol: Tem mesmo, Cássia, mas eles bem que gostam!

Cássia: Para casar? Vai nessa!

Nina: Todas nós passamos por situações parecidas, mas… vocês pensaram em como seria a reação de vocês diante do que Elinor e Marianne passaram?

Cássia: Já reagi igual às duas, na verdade. Mas não sei se me casaria, tanto num caso quanto no outro.

Marina: Com certeza eu ia fazer como a Marianne, sair chorando desesperada.

Carol: Jane apresenta muito mais a fortaleza das mulheres do que dos homens. Aquela Ms. Steel é uma periguete da época, Cássia, não era?

Marina: Uma coisa que eu nunca iria conseguir fazer era conversar com a noiva do meu “namorado”, que nem a Elinor fez, como se nada tivesse acontecido.

Carol: Também não conseguiria fazer um terço do que elas fizeram. Nem me casar com Edward como Elinor fez. Nem conversar com a Ms. Steel e com o Will como Elinor fez. Nem ser tão impassível diante do que Will fez, como Marianne se comportou… mas acho que são mulheres fortes, gente. Vocês não acham?

Nina: Eu já fui por MUITAS vezes igual à Marianne. Por isso, sei bem como agir daquele jeito. Hoje, eu aguentaria feito a Elinor, mas não ia tolerar a Steel não.

Cássia: Também não toleraria não. E se tivesse num dia de TPM, coitada… mesmo!

Nina: E dando uma de boazinha.

Cássia: Toda fofa… Aaaaaaaaaaah, menos!

Marina: Chamando de amiga.

Cássia: Amiga meu nariz! Vou te mostrar a amizade, fulana. Está brincando no meu parquinho de diversão?

Carol: Vocês acharam o livro chato em algum momento? A leitura enfadonha?

Nina: Eu não achei não. Eu adoro aquela história, senti igual às personagens.

Cássia: Eu acho que flui bem o texto. Jane escreve MUITO bem.

Marina: Eu também tive uns momentos de “vamos parar de decorar e contar a estória, moça”, hehehe, mas nem me lembro quais, e talvez seja porque li em inglês e em alguns momentos a coisa pegava.

Nina: Gente… e aquela hora que a Marianne encontra o Will no baile com a outra e passa mal? Eu senti uma facada!

Cássia: Aaaaaai, DOR! Eu teria vomitado.

Carol: Vocês perceberam que o foco da Jane são as personagens da classe alta? Viram que ela faz um retrato de como aquelas pessoas mais ricas da Londres daquela época lidavam com as pessoas com menos dinheiro, mas que transitavam pelos mesmos meios? Lembram da cena do baile? Como a cunhada “caçoava” das roupas delas? E nunca se fala de nomes de criados até o final do livro, quando aparece o Thomas.

Cássia: Nada que não aconteça hoje em dia, né? As pessoas ricas continuam iguais.

Carol: Eu detestei a cunhada delas, gente! Que mulherzinha podre! E dominava totalmente o marido! Aff! Cara fraco, bundão!

Marina: Verdade, e aquela cunhada delas era de fazer nojo.

Nina: Personagem tosca aquela.

Carol: Outro motivo para eu não ter me casado com Edward, irmão dela.

Nina: Nem merece ser trazida à tona, vai.

Marina: Carol, se isso se passasse hoje eu poderia dizer, não me casaria, mas naquela época, acho que era difícil recusar.

Nina: Gente, vocês repararam quanto tempo durou a “visita” das moças na casa da sra. fofoqueira lá?

Carol: SIM. rs

Cássia: Marina, duas! Naquela época, eu também casava. E, quer saber… Hoje, se eu amasse o cara, sei lá se não casava, viu?

Nina: É difícil falar que não casa, né? Eu fico quieta e analiso a situação.

Carol: Mas o amor pode nascer, ser construído. Não viram o que aconteceu entre Marianne e coronel? Eu torcia para isso desde o início.

Marina: Cássia, você é quem sabe, o perdão tudo pode, hehehe.

Cássia: Ah, mais ou menos, Carol! Ela não o amava não, casou porque ele era legal.

Nina: Eu torci pelo coronel porque sabia do amor dele por ela, mas não sei se eu no lugar da Marianne ficaria com ele. Às vezes a gente não enxerga, né?

Carol: Até acho que esse tipo de relação é muito mais saudável e tranquila. Claro, mas o cara tem de ter algum atrativo, gente. Não estou dizendo que devemos fazer um bingo no meio da rua e casar com o primeiro que aparece!

Cássia: Ah, me perdoem, mas daí é mais amizade do que ficar junto. Acho que tem de ter amor e amizade, senão vira só amigo e tudo certo? Eu torcia pelo coronel porque estava cansada de ver a Marianne sofrendo, por achar que ela merecia aquele homem. Não sou a favor da paixão, mas também não sou a favor de ficar com alguém só porque é legal.

Carol: Eu torci o tempo todo para ela ficar com ele, para ela dar uma chance a ele e a ela mesma.

Marina: Eu também sentia que eles iam se casar, mas sei lá… Casar assim, essa coisa xoxa.

Cássia: Isso, xoxa.

Carol: É que quando a gente está envolvido demasiadamente como Marianne, fica cega! Aí não dá chance para outras pessoas, a gente simplesmente não enxerga outros homens. Aí é difícil se desligar do ruim, não é?

Cássia: Carol, não estou falando isso. Acabei de falar que paixão não é legal, cega mesmo. Mas ficar com alguém só porque ele é “bom moço”, daria certo? E se fosse o contrário? “Vou casar com a Cássia porque na minha lista de prós e contras, ela está bem em 99%”.

Carol: Olha, às vezes isso dá certo.

Marina: Concordo com a Cássia, não é um bom motivo para casar, melhor ficar amigo que com certeza vai durar mais e os dois vão ser mais felizes.

Nina: Vocês imaginaram a sra. fofoqueira igual à atriz gorducha que faz o filme do porquinho Babie?

Carol: Aquele povo é hilário, não é? E como ainda existe gente daquele naipe, não é?

Nina: É a prova de que certas coisas não mudam, hehehe. Falando sério agora… Sabe qual foi o personagem que mais me irritou? O Edward. Ele é sem graça e fez a Elinor sofrer de graça.

Marina: Nina, ele também me irritava, dava vontade de sacudir o moço pra ver se saía alguma coisa.

Nina: Isso. Sim, mas pelo que a Jane conta, o Edward não falava muito e era meio sério, né? O Edward da série da BBC (por sinal MARAVILHOSA), não tem nada de Hugh Grant simpático. O personagem é serio demais, a gente nunca sabe o que ele quer.

Marina: Nina, mas é justo que seja assim, porque no livro ele é bem assim mesmo.

Nina: Então, por isso que disse que o Edward me irritou. Ele fez a Elinor sofrer porque era um fraco. Pensa, ele nem sabia o que queria ser da vida. Vivia para lá e para cá. Eu adorei aquela parte em que o Will foi até a casa quando soube que Marianne estava doente. Ok, ele era um cafa, odeio ele, mas eu gostei!

Carol: O personagem de que mais gostei foi Marianne e o q mais detestei foi o Will. Não o perdoaria e não teria o coração mole da Elinor. Ele não mereceu a consideração que a família dela teve com ele, foi muito muito fdp!

Marina: Nina, eu gostei e não gostei. Gostei porque queria ver que ele estava sofrendo, hehehe, mas fiquei com medo que ela piorasse se visse ele, o que não aconteceu, então no final tudo bem, hehehe.

Nina: Exatamente, Marina, ele tinha que sofrer um pouco.

Cássia: Ah, eu perdoaria. Deixa ele lá vivendo a vidinha dele.

Nina: Ele era humano.

Cássia: Ah, gente, eu perdoaria o coiso lá, o Edward… a gente nunca ficou sem saber o que fazer quando ama? Ainda mais homem!

Marina: Não sei se perdoaria, acho que talvez sim, mas não gostaria de conviver com a pessoa, de jeito nenhum.

Cássia: Ai, meninas, que coração durinho! Edward, eu te perdoo, fofo. Vamos ser felizes juntos, bem.

Marina: O Edward é diferente, mas é difícil saber, porque quando a gente ama tudo é diferente.

Nina: É fácil falar que não perdoa quando não está na situação, né?

Carol: Mas o que a Elinor tinha a ver com o Will? Nada! Aliás, ele trouxe foi muito problema para ela! Ela passou a vida cuidando da irmã! aff!

Marina: Carol, mas ela ficou com dó dele quando viu que ele também estava sofrendo.

Nina: É verdade, ela se comoveu com o sofrimento dele. Ele era um giga.

Cássia: A Elinor tinha um bom coração.

Marina: Ele era o Don Juan da Jane.

Carol: Para mim, Elinor é uma lady! Isso sim. E ela é muito solidária! Pensava em todo mundo, na família. Se eu me descabelar, se eu sofrer, vai afetar todo mundo! Minha mãe, Marianne e etc.

Nina: Concordo.

Marina: Carol, verdade.

Carol: Eu gostei muito dela também, mas não é minha preferida. Acho que a passionalidade é ainda muito forte em mim…

Marina: Não consigo ter uma preferida, em alguns momentos gostava mais de uma e em outras mais da outra, hehehe.

Carol: A parte que achei mais linda foi quando ela disse para a Marianne que se preocupava com elas e que não podia demonstrar seus sentimentos para não sofrerem também. Nossa! Achei isso extremamente racional e maduro!

Cássia: Mas aí é um pouco “pensar sempre nos outros” e não nela, né? Porque aí a pessoa passa a vida toda só pensando no outro. O OUTRO sente, o OUTRO quer, o OUTRO vai sofrer, o OUTRO precisa disso. E quem cuidava da Elinor? Quem limpava as suas lágrimas? NINGUÉM!

Marina: Cássia, também acho, tudo tem limite.

Nina: Concordo. Marianne era a egoísta e Elinor a que SÓ pensava no outro. Até segredo da Steel ela guardou.

Carol: Sim, Cássia, mas aí a Elinor deu uma lição para a irmã quando disse isso e Marianne ficou tocada. Parece ter aprendido um pouco a pensar mais no outro. Concordo com você que tem de haver um equilíbrio. Só pensar nos outros… mas isso é privilégio de primogênitos.

Cássia: Só acho importante a gente perceber que a Jane quis mostrar que não dá para ser tanto sense nem tanto sensibility.

Carol: Cássia, disse tudo! A gente pode ler isso mesmo!

Marina: Cássia, concordo, no final das contas o melhor é sempre o caminho do meio.

Carol: Temos de chegar a um equilíbrio. E isso é bem difícil, não é, meninas?!

Nina: Posso falar? Elinor se deixava por último o tempo todo! Aaaaaah, eu sabendo um segredo da noiva do homem da minha vida, saio espalhando para deus e mundo… Não sou baú para guardar segredo! hehehe.

Cássia: Eu chamava a galera na praça e contava.

Carol: Nina, e hoje temos muito mais chance de TODO mundo saber, né? Orkut, MSN, Twitter, Facebook, etc.

Nina: Não é verdade? Não sou tão boazinha assim não.

Carol: Nina, eu também contaria!

Cássia: E ainda criava um blog e mandava para lista toda de email.

Carol: Cássia, tira esse ódio do coração! rs rs rs

Cássia: Eu?

Nina: Mané trança de cabelo no anel dele o quê!

Cássia: Mas eu fui a única que perdoou o Will e o Ed, agora vou perdoar vadia louca? Oi?

Carol: Mas aquela Lucy era uma periguete, né não!?

Marina: É mais fácil perdoar os homens que a mulher.

Cássia: Não, não, é mais fácil perdoar quando a gente ama.

Carol: Trair o próprio noivo com o irmão só porque o outro ficou rico! Eu acho que ela armou tudo só para a Elinor não ser feliz!

Nina: Eu acho que não seria fácil para mim perdoar não.

Carol: Porque aí ela soube que a mãe dele ia deserdá-lo, aí ele ia atrás de Elinor, que ia ser pobre lascada e ela ia ser rica com o outro Ferrars! Foi tudo armação, meninas!

Marina: Carol, não acho que ela pensava tanto na Elinor, hehehe. Acho que só pensava nela mesma e, infelizmente, a Elinor fez parte da confusão.

Cássia: Se fosse novela, ela seria desmascarada num encontro de família.

Nina: Acho que porque já li todos os livros da Jane, para mim, o “mocinho” mais tosco é o Edward. Ele nunca disse a que veio. Homem para mim tem que mostrar serviço, entendem? Mesmo que tenha os motivos dele, o cara tem que fazer e acontecer e não esperar… Reparem no coronel, ele fez TUDO para merecer o amor da Marianne. Ele a amou e demonstrou de várias formas. É isso que mais adoro nos livros dela.

Carol: Também gostei muito da parte em que a Fanny quebra a cara com a Lucy porque preferiu abrigar as duas Steels a abrigar as Dashwood!

Nina: Fanny merecia uma surra.

Cássia: Nina, é mesmo, isso foi lindo do coronel!

Marina: Meninas, vou indo que aqui está tardão.

Nina: Beijos.

Cássia: Vai lá, flor

Carol: Marina, bom dia!

Marina: Beijos e boas noites.

Cássia: Então, meninas, vamos concluir?

Nina: Vamos sim.

Carol: Vamos. Foi ótimo discutir a leitura com vocês.

Cássia: Foi mesmo!

Nina: Também achei!

Primeiro livro: Razão e sensibilidade

Fonte: Penguin Books

Publicado em 1811, o livro baseia-se na história das irmãs Elinor e Marianne Dashwood.

Elinor não conseguiu suportar mais. Quase correu da sala, e, assim que a porta se fechou, rompeu em lágrimas de alegria, que ela a princípio julgou não fossem parar mais. […] Marianne encontrava a sua própria felicidade promovendo a dele, coisa de que tinham certeza seus amigos e que deleitava os mais observadores. Marianne não sabia amar pela metade […]

Jane Austen, trechos de Razão e sentimento*, Editora Nova Fronteira, p. 378 e 396.

* Há traduções cujo título é “Razão e sentimento”, como a realizada por Ivo Barroso.

Lista dos livros de Jane Austen

  • Razão e sensibilidade
  •  Orgulho e preconceito
  •  Mansfield Park
  •  Emma
  •  A Abadia de Northanger
  •  Persuasão

Os livros serão lidos na medida que foram escritos. Como não há certeza se essa ordem corresponde à realidade, pelo menos mantivemos as datas em que foram publicados. A nossa ideia é “entender” as mudanças literárias de Jane Austen pela sequência de seus livros.