Livro 2 [encontro 2]: Orgulho e preconceito

Agora, o segundo encontro, que aconteceu dia 1º de agosto com a participação de Cássia, Laís e Marina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: Vamos falar do livro? Senão a gente desgarra conversar, hehehe.

Marina: Vamos vamos vamos.

Laís: Vamos. Marina, antes de você chegar eu estava dizendo para a Cássia que sofri para ler esse livro. Desculpem, mas vou dizendo que achei chaaaaaaaato!

Marina: Ah, eu também sofri,  eu me forçava a ler.

Laís: Até para a viagem eu levei.

Marina: O Razão e sensibilidade é mais gostoso de ler.

Cássia: Também achei.

Laís: Razão e sensibilidade eu li sem problema nenhum.

Cássia: E qual será o foco da nossa discussão?

Laís: Vocês mandam, afinal de contas eu não estava no encontro anterior, não vamos começar repetindo assuntos, né?

Marina: Laís, você leu a outra discussão? De repente você pode falar o que você achou do que a gente conversou lá.

Laís: Não deu tempo; fiquei tentando terminar de ler o livro.

Marina: Hehehe.

Cássia: O nosso foco da semana retrasada foi sobre o casamento, o orgulho de ambos, o preconceito da Lizzy, o comportamento do Collins.

Marina: Isso.

Laís: Gente, tem uma coisa no Darcy que eu gostei muito.

Marina: Acho que a gente pode falar sobre o julgamento que as pessoas fazem dos outros, tipo a primeira vista, isso tem muito no livro.

Laís: Ele foi sincero do começo ao fim. Pelo menos até onde pude ler, por mais antipático que ele pudesse ser em alguns momentos, ele nunca fingiu nada, como a maioria dos personagens do livro.

Cássia: Hmmmm… tem razão!

Marina: Também acho, concordo com você, muita gente não gosta dele, mas eu gosto e muito e não só no final, gostei dele do começo ao fim.

Cássia: Muitas pessoas não gostam porque amam bajulação.

Laís: Comecei a gostar dele lá pela metade, confesso.

Cássia: Eu nunca desgostei dele. Sério mesmo, acho só que ele não fazia questão de ser simpático.

Laís: É claro que, se um homem me dissesse que me ama, mas não gostaria disso porque me julga inferior a ele, eu ficaria bem brava.

Cássia: Mas não é melhor ele falar a verdade do que casar com você e te esconder dos outros?

Marina: Acho que eu gostava dele porque me reconhecia um pouco, muita gente já falou assim para mim: “Nossa, quando eu te vi achei que você era meio arrogante, mas você é legal”. Tipo assim, só porque eu ficava na minha e era um pouco tímida já me rotulavam de arrogante, hehehe.

Marina: Verdade.

Laís: Sim, Cássia, sem dúvida.

Cássia: Marina, mas você é uma fofa! Hehehe. Acho que a gente gosta é de mentira, sabe.

Marina: Brigadaaaaaa, hehehe.

Cássia: Tente falar a verdade… Nem sempre dá certo, as pessoas não acreditam.

Laís: Mas aí me vem outra questão.

Marina: Não é que não acreditam, é que preferem ouvir o que querem, mesmo sendo mentira, do que ouvir o que não querem, mesmo sendo verdade.

Cássia: Tem razão.

Laís: Na vida real, assim: vocês acham que amor vence mesmo essas coisas? Por exemplo, você ama alguém, mas por alguma razão tem vergonha ou receio de assumir isso. Será que dá para conviver com isso o tempo inteiro ou chega uma hora em que você não aguenta?

Cássia: Acho que certas coisas são lindas na ficção. No mundo das ideias, todo amor dá certo, todo relacionamento é feito de rosas e suspiros. Na hora do vamos ver, a questão prática anda de outra maneira; e será que é só vergonha ou outra questão?

Marina: Eu acho que depende do motivo pelo qual você tem vergonha.

Laís: Nesse caso era vergonha, principalmente do que os outros diriam.

Cássia: Mas não sei se era só isso, é que hoje em dia não temos essa questão social tão forte. Acho que eu teria vergonha de homem que fala mais do que devia.

Marina: Também.

Cássia: Não tem modos e tal.

Laís: Sem dúvida.

Marina: Nossa, acho que eu também.

Cássia: Acho que o Darcy tinha mais vergonha da mãe da Lizzy.

Marina: Também acho. E das irmãs dela.

Cássia: Isso. Pareciam umas gralhas. Elas riam de tudo, que coisa infernal.

Marina: Gralha é pouco, pareciam que estavam no cio, isso sim.

Cássia: Hehehehehe.

Laís: Hoje a gente não tem tanto essa questão social, mas há outras: para muita gente, ainda existe a questão racial, por exemplo. Não apresentar o cara para a família porque ele é negro.

Marina: Isso é verdade.

Laís: Ou a menina.

Cássia: Acho que tem a questão religiosa também.

Marina: Eu tive uma amiga japonesa, que arrumou um namorado branco, ela ficou mó ansiosa para apresentar ele para os pais e a mãe dela não gostava dele só por isso.

Cássia: Eu já ouvi histórias assim.

Marina: É muito triste.

Laís: Vocês acham que isso pode mesmo separar duas pessoas?

Marina: Por isso que eu acho que essa coisa de “não tenho preconceito” é muito fachada. Eu acho que pode, viu, se a pressão é muito grande. Se você se ver na situação de ter que escolher entre a família ou o namorado, é meio complicado.

Cássia: Pode. Família judia nem sempre aceita cristão, evangélico nem sempre aceita espírita.

Laís: Preconceito é um assunto muito amplo. Você pode não ter preconceito racial, mas pode ter outros. Por isso que tem de se tomar cuidado.

Marina: Verdade. Como classe social ou religião, como falou a Cássia.

Cássia: No fundo, todo mundo tem seu preconceito, aquilo que dificilmente toleraria. É que a gente finge que não tem, para posar de legal.

Laís: Infelizmente sim.

Cássia: Todo mundo tem sua parcela de orgulho.

Marina: Verdade.

Cássia: Vamos combinar, o Darcy disse que não dançaria com a Lizzy porque havia outras mais bonitas. Isso não doeria? Claro que sim.

Laís: Ou finge que não tem para diminuir a própria culpa por saber que não é um sentimento bacana.

Marina: Isso sim.

Cássia: É, até o momento em que o preconceito bate na porta dando oi.

Laís: Claro que doeria. Nem me fale, Cássia!!!

Marina: Mas eu acho que já naquele momento ele estava oprimindo os desejos dele e falou aquilo para se justificar.

Laís: Exatamente!

Cássia: Será? Fez um “não quero saber”?

Marina: Sim, tipo assim.

Laís: Devia ser uma coisa do tipo “não acredito no que eu tô sentindo, não pode ser”.

Marina: Darcy pensando: “Que moça bonita! Mas não posso dançar com ela, olha a família dela!”.

Cássia: Hehehehe.

Laís: Ignorou o que estava nascendo nele.

Marina: É.

Cássia: Marina lendo os pensamentos do Darcy.

Marina: Hahaha.

Cássia: Mas será que homem tem dessas? Estou meio cansada dessa história.

Marina: Naquela época tinha, né?

Cássia: De homem se fazendo de “ai, não sei, tô em dúvida, oh, o que eu sinto!”.

Laís: Homem tem dessas.

Marina: Acho que até hoje, tem muito menino que não fica com menina gordinha porque tem medo do que os amigos vão falar, mesmo que ele goste da menina gordinha, hehehe.

Cássia: Laís, estou sem paciência com isso, hehehe!

Laís: Já vivi algumas situações parecidas na minha vida.

Cássia: Meu irmão contou uma história uma vez, de um colega de escola que namorava uma menina feia, mas feeeeeeia, e todo mundo zoava. Um dia, na frente de todo mundo, ele disse: “A namorada é minha, eu gosto dela e não quero saber de encherem a minha paciência!”. Nunca mais.

Marina: Nossa, palmas para ele, hehehe. É difícil achar gente assim no mundo.

Cássia: Especialmente homem.

Marina: Sim.

Cássia: Porque mulher não esquenta muito com isso, do cara ser feio e tal. Agora homem…

Marina: Verdade.

Laís: A Cássia sabe, mas a Marina não: eu sou deficiente visual. Não enxergo nadinha desde que nasci. E embora eu seja igual às outras pessoas, vocês têm dúvida de que tem gente que não pensa assim?

Cássia: É mesmo, a Marina não sabia!

Marina: É verdade, eu não sabia, hehehe.

Cássia: Muita gente deve achar e outras se preocupam com o que os outros vão achar. A questão é que gente firme, que banca o que quer, são poucas. A maioria vive muito aquém do que gostaria.

Laís: Demais. Hoje eu lido com isso mais tranquilamente, mas na adolescência era pior.

Marina: A maioria vive como os outros querem que ela viva.

Cássia: Exatamente! E em relação a tudo.

Marina: Sim. Trabalho, casamento, como leva a vida.

Laís: Isso é para evitar conflito.

Marina: Mas você pode evitar conflito e fazer o que você quer. Eu sempre fiz isso, até com meus pais quando era adolescente, hehehehehe.

Laís: Isso quando o medo não é maior que a vontade, rs.

Marina: Eles falavam uma coisa, eu ouvia, não discutia, mas depois fazia o que eu achava melhor para mim.

Cássia: Eu ouvi de uma cartomante no começo do ano algo ex-ce-len-te: “Os seus medos prendem os seus pés”. O medo trava a vida de qualquer pessoa.

Marina: Nooooooossaaaaa. Isso é muito verdade. Verdade absoluta, hehehe.

Cássia: Não é?

Laís: Sem dúvida.

Cássia: Mas maturidade é isso, Marina, a gente seguir o que quer. Porque, no fim das contas, somos nós e nós.

Marina: Claro, é a nossa vida.

Cássia: À noite, antes de dormir, nós que temos de lidar com nossas escolhas.

Marina: Sim.

Cássia: Não são nossos pais, nossos amigos, nossos irmãos.

Laís: Eu acho que isso de perder o medo só acontece quando você vê que já perdeu coisa demais.

Cássia: Eu já acho o contrário. Quanto mais a gente perde, mais medo a gente tem.

Marina: Eu não acho nem que é questão de perder o medo, mas sim de enfrentar e mesmo sentindo medo ir em frente.

Cássia: Exatamente. Porque a ausência de medo também é meio perigoso, a gente corre o risco de fazer bobagem.

Laís: É, você está certa, Marina.

Marina: Eu tive um amigo na faculdade que era gay, e quando ele assumiu para os pais foi muito duro. Eu não acho que ele assumiu porque perdeu o medo, acho que ele assumiu porque não aguentava mais e precisou enfrentar a realidade.

Cássia: É mesmo, viver com isso deve ser horrível. Porque ele não estava fazendo nada errado, só queria ser quem é.

Marina: Nossa, imagina. Não é, eu morri de dó dele. Ele teve que sair de casa, depois de umas semanas o pai dele telefonou para ele e mandou ele voltar, mas a mãe dele ainda não queria aceitar. Sabe que eu achei isso interessante, eu sempre achei que o pai tinha mais problema de aceitar essas coisas do que a mãe, mas no caso dele foi o contrário.

Laís: Pensei nisso agora.

Cássia: Mas acho que tem também a questão do que os pais sonharam para os filhos, ela imaginar que não teria nora, nem netos, nem filho entrando na igreja e sorrindo para todos.

Marina: É, né, os pais colocam muita expectativa em cima dos filhos, acho isso meio errado também.

Laís: Mas será que é certo sonhar tanto assim com uma vida que não é sua?

Marina: É isso que eu também me pergunto.

Cássia: Não é, mas acho que só vamos entender isso quando formos mães.

Laís: Talvez.

Cássia: A minha bisavó já dizia: “Você só entenderá a sua mãe o dia que for uma”. Talvez não, flor, é sim.

Marina: É, pode ser.

Cássia: Porque os pais têm um sonho para os filhos. E outra, ser gay ainda é muito duro. Parece que está tudo bem, mas não é assim.

Marina: É verdade.

Cássia: Agora imagina os pais saberem que o filho será humilhado, que pode passar perigo e eles não podem fazer nada.

Marina: Isso deve ser duro, porque os pais sempre querem proteger.

Cássia: Exatamente.

Marina: Vocês já viram algum episódio da série Glee? Lá tem um menino gay, o pai dele fala para ele algo parecido com isso. É bem legal.

Laís: Tem essa parte, mas no fundo eu não acho que seja o mais importante, sinceramente. Nessas horas, eu acho que o que conta mesmo são as expectativas frustradas e ponto.

Cássia: Eu não acho não.

Marina: Eu acho que tem um pouco de tudo, a pessoa deve sentir mil coisas ao mesmo tempo.

Cássia: Acho que os pais sempre se sentirão responsáveis pelos seus filhos, sempre. Não vi não, Marina.

Marina: Tanto é assim que muitos pais falam, “onde foi que eu errei” quando o filho fala que é gay, tipo, como se fosse culpa deles.

Cássia: Mas qualquer coisa considerada “desvio” os pais acham isso, sempre é culpa deles, e não é verdade. Os filhos não são extensão de seus pais.

Laís: Por isso que eu falo da questão da expectativa. Poxa, não dá para você projetar uma coisa para o seu filho; ele é seu filho, não sua extensão. Por exemplo: se minha mãe não casou na igreja, mas tem o sonho de que eu case e eu não quero, não posso ser obrigada a isso.

Marina: Mas acho que o pior é que o preconceito às vezes começa em casa, até no livro tem isso, a mãe das meninas tinha a sua preferida, que para ela era a melhor e a mais bonita e tal. Concordo com a Laís.

Cássia: Claro que não pode ser obrigada, mas acho que temos de entender o lado de nossos pais, pois não somos pais, a gente não alcança o que eles sentem. E sobre o sonho das filhas se casarem, tem um motivo. Meus pais têm uma grande preocupação em não ter quem esteja ao meu lado.

Laís: Quando existe preconceito em casa, como a Marina falou, haja autoconfiança.

Cássia: De que eu fique sozinha na vida. Porque um dia eles vão morrer.

Laís: Minha mãe também tem essa preocupação, Cássia.

Cássia: Se a vida seguir seu curso natural, os pais vão primeiro.

Marina: Isso é verdade.

Cássia: E tem outra coisa, às vezes, a gente quer tanto ir contra o que os pais querem para a gente que acabamos abafando o que a gente mesmo quer.

Marina: Minha mãe ficou tão mais tranquila depois que eu comecei a namorar o Francesco lá na Itália e ela percebeu que ele cuida de mim, nossa mudou a vida dela, juro.

Cássia: Quando o que queremos concorda com o desejo dos pais. Aí, porque você não estava mais sozinha.

Marina: Sim.

Laís: Aí você precisa ter discernimento. E deixar o bendito orgulho de lado.

Cássia: É, mas a gente só aprende depois de dar cabeçada.

Laís: Impressionante como esse orgulho está no meio de tudo.

Cássia: Ô! O orgulho acaba com a gente.

Marina: O orgulho é que nem uma criança mimada que vive dentro da gente.

Cássia: Exatamente, disse tudo, Marina. Orgulho tem muito a ver com mimo, “é do meu jeito e pronto!”.

Marina: Exato.

Cássia: E as pessoas mais orgulhosas são as mais intratáveis. Nossa, existe essa palavra? Hehehe.

Marina: Não sei, mas eu entendi, e concordo.

Laís: Acho que existe sim.

Cássia: O que vocês mais gostaram do livro? (o tio Houaiss me disse que a palavra existe)

Marina: Hehehehe. Eu gostei do Darcy.

Cássia: Eu também.

Marina: Era o que eu mais gostava, hehehe, sério. Ele sempre surpreendia.

Cássia: E o mais legal foi ele ter peito.

Marina: Sim.

Cássia: Chegar na Lizzy e dizer: “Casa comigo!”.

Laís: Gostei dele quando percebi que ele foi sincero sempre. Talvez tenha sido isso mesmo que eu mais gostei.

Marina: Eu também gostei muito da Jane, às vezes acho que podia ser mais como ela.

Cássia: Outra coisa que eu gostei dele foi a não ostentação. Ele fazia tudo na moita.

Marina: Nossa, eu também.

Cássia: Ó, não é bom não. Sempre fui Jane, menina, e tomei tanto na cabeça, hehehe.

Marina: Hehehe, mas não todooooo o tempo, mas de vez em quando sim.

Laís: Sinceramente, eu achei a Jane tão apagadinha.

Cássia: Mas ela é, no filme ela é mais fofa.

Laís: E acho que a Mary, a irmã do meio, deveria ter tido mais destaque no livro.

Marina: Eu achava interessante o fato dela sempre tentar ver o lado positivo das pessoas e nunca pensar mal.

Laís: Polianna.

Cássia: Ao contrário da Lizzy, que sempre via o lado negro da força.

Marina: As pessoas pensam mal logo de cara hoje em dia. Exatamente.

Cássia: O ideal seria Lizzy e Jane, sacar como as pessoas são sem enfeitar as coisas.

Marina: Sim, igual ao Razão e sensibilidade.

Cássia: Exatamente.

Marina: O ideal é ser um pouco das duas.

Cássia: A Jane Austen era muito maniqueísta, hehehe.

Marina: Huahaahuuhauahuaha.

Laís: Acho que ela fazia de propósito.

Cássia: Não tem ninguém meio termo.

Laís: Justamente para ver de que lado o leitor ficaria.

Marina: É, né, todo mundo é meio exagerado, 8 ou 80.

Cássia: É, no fim das contas, tem a identificação com quem a gente parece mais, para quem pendemos mais.

Laís: Sempre haverá isso, eu acho.

Marina: Mas sabe que eu não consigo me identificar com nenhuma das duas, tem horas que me identifico com uma, depois com outra.

Cássia: Ah, então você é ponderada! Hehehe.

Marina: E também tem o Darcy, hehehe, com que eu me identifico, hahaha.

Cássia: Eu era tão Jane que uma vez meu pai me disse: “Cássia, você sempre sabe como é uma pessoa, mas finge que não…”.

Laís: Também não consegui me identificar mais com uma do que com outra.

Cássia: Eu queria o Darcy para mim.

Marina: Meu namorado que não me escute, mas eu também, principalmente aquele do filme, hehehe.

Cássia: Nossa senhora, eu virava dona de caaaaaaaaaasa, hehehe.

Marina: Hahaha.

Cássia: Não é? Além do cara ser bacana, não ostentar as coisas, ser sincero e ainda ter peito para falar “amo você, casa comigo”. Mas falava sim sem pensar!

Laís: Quando resolveu ser decidido, foi de uma vez.

Marina: Eu também.

Cássia: Isso que é homem!

Laís: Geeeeeeeeeeeeeente, como um homem decidido faz diferença na vida!

Cássia: Falou tudo, Laís! Hoje em dia os homens tão muito frouxos. Sei lá se é a oferta de mercado, mas pelamor. Mal dos nossos tempos

Laís: Nem me fale, eu também passo nervoso com isso.

Cássia: Parece que antes os homens tinham mais pulso, sei lá. Hoje em dia o cara tem 40 anos e ainda é adolescente. Vocês assistiram ao filme Sex and the City?

Laís: Não.

Marina: O primeiro?

Cássia: Isso.

Marina: O primeiro eu vi.

Cássia: O Mr. Big deixou a Carrie no altar.

Marina: Sim.

Cássia: Porque estava em dúvida. Meu, o cara tinha 50 anos! CINQUENTA!

Marina: Foi uó aquilo, não é?

Cássia: Enrolou a mulher por 10 anos e está em dúvida? Se o cara não sabe o que quer nessa idade, meu, desiste.

Marina: Hehehehe.

Laís: Aí já é demais.

Marina: Quem sabe com 80 anos ele não se decide.

Laís: Chegar ao ponto de deixar no altar.

Marina: No leito de morte, hehehe.

Laís: Sabem o que eu acho? Um homem que age desse jeito tem mais chances de ser infeliz do que a própria mulher. As chances de olhar para trás e pensar “que besteiras eu fiz!” são bem maiores.

Cássia: Tem razão.

Laís: Porque, no fim das contas, a mulher segue. Ela fez tudo o que podia, ué.

Marina: Principalmente se a mulher em questão manda ele pastar e depois ele percebe que perdeu muito.

Cássia: Mas essa é clássica.

Laís: Exatamente, rsrsrsrsrs.

Cássia: O idiota arrependido.

Marina: Hehehehehe.

Cássia: Sinto muito, eu entendo isso quando o cara tem 18 anos. Passou dos 25, acho que tem coisa errada.

Marina: Também acho.

Laís: Infelizmente maturidade não tem nada a ver com a idade das pessoas. Antes fosse assim.

Cássia: Sim, eu sei que não, mas uma hora a gente tem de acordar. Não dá para ser adolescente a vida toda. O tempo passa.

Marina: Também acho.

Laís: Concordo.

Cássia: Podem ver, é cada dia mais comum conversar com pessoas de 30 para cima e a pessoa não se ligar que ela não tem mais 15 anos.

Laís: Depois reclamam que existe mulher controladora por aí. Não quero ser esse tipo de mulher, mas, poxa, é chato ter de decidir tudo.

Cássia: Então, mas até nisso os homens tão bambeando. Não é para tomar as rédeas, isso é péssimo, mas se posiciona. Campanha “Torne-se um Darcy nessa vida”.

Marina: Eu me acho chata às vezes, hehehe, de verdade, às vezes eu penso, nossa eu odeio ter que ser essa pessoa.

Laís: Eu apoio! Hahaha, odeio ter que ser essa pessoa foi maravilhoso.

Marina: Hehehehehehehe. E agora, pessoal?

Cássia: E agora que quero o Darcy.

Marina: Hahahaha, todas nós queremos.

Cássia: Ele surgindo da névoa, falando “eu quero casar com você… se não me quiser, não falo mais no assunto”. Ai ai.

Marina: Ai ai ai. Aí você agarra ele.

Laís: Na verdade, eu não quero o Darcy. Quero que uma pessoa seja como o Darcy. Rs.

Cássia: Eu não, quero o Darcy! Amor novo renova a vida.

Marina: Eu quero que o Francesco vire o Darcy. A mais sem noção, né?

Cássia: Hehehehe. Então, meninas, se virem o Darcy por aí, deem para mim, tá?

Laís: Tá, podexá.

Cássia: Podem falar “tenho uma amiga que é uma coisa”, hehehehe.

Marina: Hehehehehe.

Laís: Você terá minhas melhores recomendações.

Cássia: Brigada, amigas! Só não digam coisas do tipo “ela é inteligente”.

Marina: Cássia e Darcy.

Cássia: Porque homem não gosta dessas coisas.

Marina: Hehehehe.

Laís: Eu acho que tem uma coisa de que homem gosta menos.

Cássia: O quê?

Laís: Apesar de tudo, eu ainda acho que homem não gosta de mulher muito eficiente.

Marina: O Darcy gosta de mulher inteligente, porque a Lizzy é inteligente.

Cássia: É mesmo! O Darcy gosta de mulher inteligente. Podem subir meu QI.

Marina: Huahauhauhauaha

Cássia: Laís, homem não gosta de mulher melhor que ele.

Marina: Acho que você pode ter razão, Laís.

Laís: Hahahahahaha, boa!

Cássia: Nem que seja no jogo de bocha.

Marina: Hahaha.

Laís: Foi isso que eu quis dizer, Cássia.

Cássia: Eu sei, flor, eu complementei.

Laís: Flávio Gikovate disse isso semana passada e eu concordo com ele.

Cássia: Sério? Ele é “o” cara.

Laís: Na verdade foi assim: uma mulher perguntou a ele se tinha alguma coisa errada em agradar demais um homem, em estar sempre querendo estar presente e tals.  (ficou horrível essa minha frase, mas tudo bem)

Cássia: Conheço mulher tonta assim, huhuhuhu.

Laís: Aí ele respondeu mais ou menos assim: que um homem, quando é legal, realmente não gosta de ser muito paparicado, porque ele quer ter espaço para paparicar também. Se ele é generoso, quer exercer a generosidade também. Quando a mulher gruda muito, ele não consegue.

Cássia: Hmmmm…

Marina: Legal isso.

Cássia: É legal, mas nem todo homem é assim não… Às vezes, o cara usa essa agrado até quando pode.

Marina: Mas quando o homem é folgado e sem generosidade, aí ele quer ser paparicado, hehehehe.

Laís: Mas se o homem é cafajeste, a culpa não é sua. Você pode fazer o que quiser, mas ele vai acabar indo embora de qualquer jeito.

Cássia: É, mas não valoriza essa mulher.

Marina: É, pode ser.

Cássia: Porque eu ouvi um café filosófico do Gikovate, ele falando que geralmente a generosa fica com o egoísta e o generoso com a egoísta. Que quanto mais uma mulher faz, menos ela recebe.

Marina: Não acho que é necessariamente uma regra, mas acho que acontece muito.

Laís: Deus me livre disso, sério.

Cássia: Claro, claro. Ué, mas pode pensar, o que mais tem é gente egoísta.

Marina: É, né. Dois egoístas nunca ficam juntos, hehehe.

Laís: Principalmente em relacionamentos.

Cássia: Quem ama muito, essas pessoas generosas que se entregam. Quantas vocês conhecem que têm retorno? Que são cuidadas? Que são amadas? Que recebem o que dão? São pouquíssimas!

Marina: É difícil mesmo.

Cássia: Quem recebe trata o amor do outro como obrigação.

Marina: Isso eu não posso reclamar.

Laís: Não são muitas realmente.

Cássia: E ainda joga esse amor na sua cara.

Marina: O French cuida direitinho de mim, hehehehehe.

Cássia: É isso aí, French. Não cuida da Marina para ver o que a gente te faz, hehehehe.

Marina: Huahuahauahauhauahua

Cássia: Junto uma galera de bailarinas, meu amigo, não vai sobrar é nada!

Laís: O que você quis dizer com jogar o amor na cara, Cássia?

Marina: Adorei, minha gangue de bailarinas.

Cássia: Quando o outro trata o seu amor como um grande problema, como se dissesse “olha, se você não me amasse, tudo seria mais fácil”. É isso aí, Marina, e essa gangue está a sua disposição!

Marina: Obaaaaaa!

Laís: Que horror.

Cássia: Nem todo mundo vê o amor como dádiva, flor. Anote isso e não esqueça.

Laís: Tipo, o seu amor, para mim, é problema seu.

Cássia: Exatamente.

Marina: É isso mesmo. Às vezes acontece isso.

Cássia: Acontece mesmo. E nem às vezes, acontece muito.

Marina: Pior que é.

Laís: Que coisa triste.

Cássia: Quando uma pessoa não tem cuidado com o que o outro sente, é assim. O mundo anda triste. Pelo menos nos livros da Jane, a recompensa vem.

Marina: É, por isso que eu falo, às vezes parece que nasci no período errado.

Cássia: Duas! Você queria ter nascido quando?

Marina: É, né, eles sofrem, mas no final as coisas se acertam.

Laís: Quero acreditar que, apesar de tudo, na vida real ela também vem.

Marina: Não sei dizer, talvez quando as coisas eram mais simples, se é que existiu essa época, hehehe. Eu acho que vem na vida também, Laís, é só ter paciência e não deixar que o conformismo te domine, hehehe.

Laís: Conformismo, outra coisa insuportável.

Cássia: Mas o mundo é conformista. A terapeuta disse uma coisa legal uma vez, que existem pessoas que têm um incômodo. São aquelas veem o mundo e dizem: “Não é para ser assim, faço o que para mudar?”. Mas a maioria vê e pensa: “O mundo é assim… fazer o quê?”.

Laís: Uma das coisas que mais me irritam.

Marina: Verdade, eu ainda sinto um incômodo, graças a Deus, hehehe.

Laís: É, quando eu estou p, indignada com alguma coisa.

Cássia: Olha, na sessão ela disse que eu sou do primeiro time, hauauhahua. Ufa, estamos bem, então.

Laís: Comento com alguém, a pessoa olha para mim e “ah, isso é normal”. Putz, parece que eu estou falando com uma parede. Dá vontade de bater.

Cássia: Ah, tem razão! E o mais comum é o “ah, isso é normal”, “o mundo é assim”, “desencana e aceita”.

Laís: Eu tenho ódio disso, ódio!

Cássia: Hehehehe. Não maltrate seu fígado por isso. Eu simplesmente deixo de contar para a pessoa, deixo ela no mundinho medíocre dela.

Marina: Pior que isso é quando a pessoa discute horas e horas sobre assuntos políticos e tal, mas aí vai ver o que ela faz para a sociedade ou como ela se comporta com as pessoas, é igualzinho o que ela criticava no político, mas em um grau diferente.

Cássia: Nossa, exatamente!

Laís: Hipocrisia.

Marina: Na Itália, eles fazem muito isso.

Cássia: Aquela que fica falando que todos são corruptos.

Marina: Eu fico tão pu… da vida.

Cássia: E tenta subornar policial quando é parado na blitz.

Marina: Isso.

Cássia: Sonega imposto.

Marina: Ou quer “dar um jeitinho”.

Cássia: Exatamente! Tudo dá jeitinho.

Marina: Quando as pessoas ouvem que minha cidadania saiu em seis meses, elas sempre perguntam: “Ah, mas você conheceu alguém lá, alguém deve ter te ajudado”. Eu falo, não, eu fiz tudo como tinha que ser feito e não conhecia ninguém. As pessoas não acreditam, acham que eu estou mentindo.

Cássia: Porque acham que tudo é no jeito.

Marina: Parece que só quem faz as coisas por meio de QI é que consegue as coisas.

Cássia: Exatamente. Sinto muito, mas o sono tranquilo não tem preço.

Marina: Não é?

Laís: Falou tudo, Cássia. Gurias, o papo está ótimo, mas eu vou nessa. Amanhã, às 5 em ponto, eu estou acordando!

Marina: Nossa, sem contar no mundo pessimista que a gente vive também, né, se eu fosse contar todas as pessoas que achavam que o que eu estava fazendo era uma bobagem e que eu só estava gastando dinheiro, nossaaaaaaaaa. Tá flor, vai lá mimir, hehehe.

Cássia: Marina, é que torcer pelos outros ninguém quer. Fofa, vai lá! Bons sonhos e ótima semana.

Marina: Boas noites.

Laís: Obrigada, igual para vocês duas! Adorei o papo, mesmo.

Marina: Até o próximo.

Livro 2 [encontro 1]: Orgulho e preconceito

Excepcionalmente, o segundo livro terá dois encontros. O primeiro aconteceu no dia 18 de julho com a participação de Cássia, Carol, Marina e Nina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: Vamos para a clássica: “Com qual personagem vocês se identificaram?”.

Carol: Me identifiquei com Lizzy.

Marina: Eu me identifiquei com as duas, a Jane e a Lizzy, mas em momentos diferentes.

Nina: Lizzy, às vezes.

Cássia: Eu me identifiquei com a Jane.

Marina: CÁSSIA, em todos os momentos?

Cássia: Eu já fui totalmente Jane na vida! Acho que melhorei um pouquinho, hehehe, mostro mais o que sinto, sou mais sagaz com o que os outros fazem, mas era totalmente Jane… E percebi que ainda guardo muito do que ela tem.

Nina: Acho difícil ser a Lizzy o tempo todo, hehehe.

Marina: NINA, ela era boazinha demais, né?

Cássia: A Lizzy era boazinha? Hehehehe.

Marina: Ai meu Deus, será que eu estou confundindo os nomes?

Nina: Boazinha? Eu achei a Lizzy difícil demais, hehehe.

Carol: TODAS, Lizzy é a que se mostra.

Cássia: Difícil? Eu teria muito medo da Lizzy, hehehehe.

Nina: TODAS, hahahahahaha.

Cássia: MARINA, acho que você está confundindo com a Jane.

Carol: Tá sim.

Marina: Aaaaah não, não era ela, eu tava pensando na outra, na irmã mais velha, esqueci o nome completamente.

Carol: rs.

Cássia: Então, a Jane, hehehehe! A que eu me identifiquei.

Marina: Ai meu Deus, que confusão, não guardo nome mesmo gente. Ok, agora me achei, hehe.

Cássia: A Lizzy é a Keira! Hehehe. TODAS, será que essa aparente sinceridade da Lizzy, e por se mostrar, não é um jeito doce de falar de uma suposta grosseria? Ela era uma brutinha às vezes.

Carol: TODAS, a Lizzy é uma pessoa autêntica. Claro que meio impulsiva, mas autêntica. Achei ela muito parecida com Marianne do Razão e sensibilidade. Só queria dizer que minha tradução é muito chique, do Paulo Mendes Campos, rsrs.

Marina: CÁSSIA, verdade, muito julgadora também.

Cássia: Então, foi o que eu disse, a gente chama de autenticidade uma certa grosseria…

Nina: A Lizzy era geniosa, mas acho que era uma pessoa forte pra época. Pensa só… Imaginem ela casada com o tosco do Sr. Collins.

Carol: TODAS, no livro ela não é grosseira não. Não é essa a impressão que passa. No filme sim, no livro não.

Marina: CAROL, mas eu acho que a Marianne era mais sincera com os sentimentos dela.

Cássia: Passa sim… Ela dá umas cortadas absuuurdas no Darcy. É que no livro não há entonação da voz.

Nina: Gente, o Sr. Darcy era um grosso.

Marina: CAROL, eu achei ela meio grosseira no livro também, em algumas partes.

Cássia: NINA, o Collins encontrou a mulher ideal na Charlotte, hehehe. Vamos combinar? Darcy e Lizzy eram duas cascas de ferida!

Carol: TODAS, bingo! O Darcy era um grosso e arrogante. No livro e no filme. Ele só muda depois que assume sua paixão. Naquela cena da dança no baile, quando chegaram lá na cidadezinha… Aff!

Nina: TODAS, ALGUÉM VIU A MINISSÉRIE?

Marina: NINA, eu não acho que o Sr. Darcy era grosso, eu acho que ele era meio “na dele”, hehe, e gente com muito dinheiro sempre tem medo que os outros se aproximem por causa do dinheiro.

Cássia: Eu não.

Carol: Eu vi.

Cássia: Mas queria o Darcy do filme para mim, ai ai.

Carol: KKKKKKKKKKKKKKKK. CÁSSIA, você só quer a megassena, né?

Cássia: Não custa sonhar, né?

Nina: O Darcy do filme é MARAVILHOSO, mas o da série é mais fiel ao livro.

Cássia: Preciso ver a série.

Carol: NINA, a série é mais fiel ao livro. TODAS, vocês acham que esse livro pode ser considerado um dos maiores 100 clássicos da literatura universal? Por quê?

Cássia: Acho que é o Dom Casmurro britânico!

Nina: A série segue muito mais o livro. Primeiro porque não é uma produção hollywoodiana, né? Ela é britânica (BBC), tem a característica de “respeitar” a obra.

Marina: CAROL, eu acho que sim, porque retrata bem uma época e é bem escrito, mas pessoalmente eu gostei mais do Razão e sensibilidade, me envolvi muito mais.

Cássia: Acho que é um livro que você precisa “ler no tempo certo”. Precisa ter disposição para ler, senão a história se arrasta demais.

Nina: Eu sou apaixonada por Orgulho e preconceito… Pra mim, pode ser sim.

Marina: CÁSSIA, é bem isso mesmo, no Razão e sensibilidade parece que a leitura é um pouco mais leve.

Cássia: Com todo o respeito pela Jane Austen, mas o livro lembra uma peça de Shakespeare que agora Dona Cássia precisa lembrar o nome… Acho que é “Medida por medida”. O casal fica nisso a peça inteira, um contra o outro, e ficam juntos no final, óbvio. No livro da Jane, eu acho muito mais interessante o contexto em que tudo se passa do que esse vai-não-vai dos protagonistas. O nome da peça é “Muito barulho por nada”.

Carol: TODAS, mas um tema muito importante do livro é o preconceito. As relações amorosas que são ou só podem ser construídas com base no que o outro/a tem. E a forma como as pessoas são bem ou mal vistas socialmente a depender de como se veste, do que tem, de onde mora. Existem coincidências com alguma cena conhecida por vocês?

Nina: CÁSSIA, sério que você achou parecido? Eu não acho não.

Marina: CÁSSIA, mas se eu não me engano, no Shakespeare a mulher não gosta dele porque ela é meio chatinha, a Lizzy tinha os motivos dela pra não gostar do Sr. Darcy.

Cássia: Na rixa, sim. Queridas, eu falei da rixa, não do motivo da rixa! Hehehehe! Dos protagonistas se cutucarem e não se suportarem.

Nina: Hahaha.

Cássia: Sei que o contexto é outro, né?

Marina: CÁSSIA, hehe.

Nina: TODAS, e vamos falar do Mr. Darcy??? O que vocês acham dele? Fora o ator do filme, hahahahaha.

Cássia: Gurias, tem pergunta da Carol lá em cimaaaaaaa.

Nina: Ops.

Marina: CAROL, minha mãe sempre sofreu com essa história de ser julgada pela roupa, porque ela é gordinha e gosta de usar vestidos indianos. Aí, as moças das lojas sempre acham que ela não tem dinheiro para comprar as coisas e mal falam com ela.

Cássia: Minha tia já passou por isso em loja indiana. Ela diz que tem cara de pobre e nunca é bem atendida. E ela estava meio gordinha também e, necas, nem olharam para ela. O preconceito de classe mostrado no livro ainda existe imensamente! Talvez seja um pouquinho mais fácil hoje, mas o preconceito continua pesado. Ah, e eu sou maltratada em loja porque tenho cara de criança (é sério, não é piada).

Carol: TODAS, mas existem algumas diferenças entre aquela época e aquele lugar pra nossa época e nosso lugar, certo? Mesmo assim, vejamos a instituição CASAMENTO. Mudou o quê?

Marina: CÁSSIA, quando eles fizerem isso, tira o cartão de crédito e esfrega na cara deles, uhauha.

Cássia: Mudou que você não precisa casar para ter onde morar ou se sustentar. Naquela época, não casou, fofa, você está na rua ou vai depender da boa vontade de alguém. MARINA, farei igual a Uma linda mulher, gastar muito e voltar lá mostrando as compras.

Marina: CÁSSIA, isso aí.

Carol: TODAS, acho que hoje as pessoas podem se escolher, mas a tolerância diminuiu porque as pessoas não estão mais tão presas à questão do $. Especialmente as mulheres, certo? Que são muito mais independentes. Naquela época, havia dependência afetiva e financeira. Hoje, existe uma imensa demanda por dependência afetiva, que acaba interferindo de forma a tornar a relação baseada na troca do afeto pelo $. Sim?

Cássia: NINA?

Nina: Oi.

Marina: A NINA queria falar do Sr. Darcy.

Nina: Estou lendo e pensando, hihihi. TODAS, vocês estão muito profundas hoje, hahahaha.

Carol: rsrs

Cássia: NINA, hehehehe, boba.

Cássia: CAROL, não sei se concordo. A mulher, hoje, tem a independência financeira, mas ainda somos mancas se não nos casamos. Uma antropóloga brasileira [Mirian Goldenberg] diz que, no Brasil, marido é um bem [material] para a mulher.

Carol: CÁSSIA, mas é isso que estou dizendo. COMPRA-SE O AFETO porque tem independência $$, mas dependência afetiva total.

Cássia: Não estou falando de afeto. Estou falando que socialmente uma mulher só é bem-vista se for casada.

Marina: TODAS, eu não acho que é uma questão de dependência afetiva, acho que é normal querer ter alguém do nosso lado.

Carol: CÁSSIA, compra-se também uma posição social.

Nina: TODAS, concordo com a Marina.

Cássia: MARINA, sim, não estou desmerecendo não. Eu quero casar, ter um homem superlegal ao meu lado! Mas sei que, se não casar, sempre serei vista como a coitada mal-amada. Sinto muito, mas funciona assim sim.

Carol: Se não for casada é malvista, é lésbica, é sim. Eu já ouvi isso várias vezes. E agora, que me casei com um cara 11 anos mais novo, imaginem o que não ouço! Ele é seu filho? Ele trabalha? E por aí vai…

Cássia: E estamos falando do casamento como instituição. Entre ser uma profissional megapower e uma mulher bem-casada, os olhos da sociedade sempre acharão que você venceu no segundo caso.

Nina: TODAS, eu acho que vão falar de um jeito ou de outro. A sociedade é assim. Se a mulher é bem-sucedida profissionalmente ou não. Se é casada ou não. Se é gay ou não.

Carol: TODAS, a verdade é que a sociedade – nós – somos uma m… Se estamos casadas, somos ruins. Se não estamos casadas, somos piores.

Cássia: NINA, sim, mas existe o fato de que a felicidade de uma mulher ainda está atrelada ao casamento. E isso é um fato, gostemos ou não.

Marina: TODAS, eu ainda não acho. Talvez dentro da família, se é tradicional, ou em uma cidade pequena, mas eu tenho uma tia que é irmã do meu avô, já deve ter mais de 70 anos, e ela nunca casou e vive superbem e viaja e faz tudo o que quer e tem um superapartamento na paulista e ninguém fala mal dela, ela está melhor que muita mulher casada.

Nina: CÁSSIA, concordo. O que estou dizendo é exatamente isso, que gostemos ou não isso ainda existe. E vai ser assim por um bom tempo.

Carol: MARINA, e você acha que NINGUÉM fala dela? Que ninguém a julga por ser solteira? Claro que sim! As pessoas julgam de um jeito ou de outro, vocês têm razão. Mas ser solteira aos 70 anos é sinal de insucesso.

Nina: O que não se pode é entrar nessa. Tipo, alguém surtar porque está sendo vista assim.

Cássia: NINA, não estou dizendo de gostar ou não, só que funciona assim. Nem por isso acho que temos de pautar nossa vida nisso, estou apenas questionando que as coisas entre Jane em 1700 e tal e hoje não mudou tanto assim. CAROL, concordo. Veem isso mesmo. MARINA, para mim, sua tia é um top de sucesso, porque seguiu o que escolheu.

Nina: TODAS, e vocês estão lembradas de que a querida Jane morreu nova, sozinha e doente, né?

Marina: CAROL, podem até falar, mas com certeza não falam na cara dela, porque ela vai mandar pastar, e com certeza não é sinal de insucesso porque ela tem vários namorados, hahahaha.

Carol: TODAS, as pessoas falam, com certeza, porque a tia da Marina tem 70 anos e é solteira. Ela curte a vida, mas É SOLTEIRA. É assim que as coisas funcionam… Sei lá, a emancipação feminina nem chegou a acabar com esses tipos de pensamentos. Uma tia minha uma vez me perguntou se eu era lésbica porque vivia saindo só com mulheres e não casava.

Cássia: NINA, sim, ela não quis casar. Mas sem dúvida ela era malvista naquela época e hoje, olha só, é top de linha! Hehehe.

Nina: Sim.

Marina: CAROL, talvez você ache que todos falam porque as pessoas que você convive falam, de verdade, eu nunca vi ninguém falar mal dela.

Carol: MARINA, eu disse que, socialmente, se somos solteiras aos 70 anos, é porque ninguém nos quis, somos fracassadas, e por aí vai. Você já ouviu alguém falando isso de um homem? Olha o Sr. Darcy…

Cássia: TODAS, ah, mas falam mesmo. Eu estou com 31 e escuto: “Poxa, mas você é tão linda, inteligente… Ninguém quer casar com você?” Como se não tivéssemos opção de escolher.

Carol: É isso, CÁSSIA.

Cássia: Uma vez conversei com um rapazote sobre isso e disse: “Se você chegar aos 50 anos e não casar, será porque você não quis. Se eu chegar aos 50 e não casar, é porque ninguém me quis”.

Carol: É disso que estou falando, Marina. Não de falar na cara dela, mas do preconceito mesmo, geral. É isso, CÁSSIA, assim que o povo pensa! Isso está bem arraigado, gurias, e olha que lá na Jane já tinha… O trem vem de longe! Ser pobre naquela época parecia ser ruim, mas ser mulher e pobre, coitada!

Nina: O povo é muito é chato, isso sim!

Carol: Mulher solteira ouve: “Você não vai casar?” A mulher casa e ouve: “Você não vai ter filho?” Tem o primeiro filho e ouve: “Não vai ter o segundo?” E seguem as cobranças.

Cássia: E se tem filho: “Mas você trabalha e tem filho? Consegue ter tempo?”.

Carol: KKKKKKKKKKKKKKK.

Cássia: Se decide parar de trabalhar um tempo: “Virou dondoca?”.

Carol: Aff!

Cássia: “Vai ficar só cuidando de filho?” Se trabalha muito: “Que mãe é você? Seus filhos não sentem sua falta?”.

Nina: Pessoas… que tal voltarmos para o livro. Isso aqui está parecendo um movimento feminista.

Carol: E os preconceitos contra os homens? No livro é contra o Bingley – rico e solteiro só pode estar atrás de uma esposa! Aff!

Cássia: NINA, a ideia não é comentar sobre Jane no que diz respeito a nossa vida? É isso que estamos fazendo.

Nina: Não é não.

Cássia: Claro que é.

Nina: Vocês entraram numa de ficar falando e falando. Só pedi pra não perder o foco. Só isso.

Cássia: Não perdemos o foco, tenha certeza. E falamos porque estamos discutindo. E como disse a Carol, sim, o Bingley sofria preconceito.

Carol: NINA, sobre o que você quer falar?

Cássia: Aliás, o livro já começa falando que homem rico e solteiro tem de casar e ele era um fofo.

Carol: Toc toc, GEEEEEEEEEEEEEEENTE.

Cássia: Eu estou aqui.

Marina: Presente.

Nina: Aqui.

Carol: NINA, sobre o que você quer falar? Por favor, puxe o tópico.

Nina: Eu queria falar sobre o livro mesmo. O que acham que fez o Darcy, tão arrogante, se apaixonar pela Lizzy, por exemplo. Mesmo sendo contra tudo o que ele acreditava e contra o que a sociedade da época permitia.

Carol: Acredito que foi uma estratégia da autora para discutir o preconceito presente no título do livro, e também o orgulho, esse romance mexeu com o orgulho dos dois. Ela por ser mulher e inicialmente rejeitada. Ele por ser homem e rejeitar uma mulher pobre. Acredito que isso seja um foco importante do livro, para mostrar que esses dois defeitos são graves, mas podem ser superados. Se houver amor, enfim…

Marina: NINA, não acho que ele é arrogante, talvez um pouco, mas acho que é também um modo de se proteger de pessoas oportunistas.

Nina: MARINA, pode ser. Ele era o melhor partido, afinal, hehehe. Apesar do Bingley ser um queridão.

Marina: NINA, pois, vocês podem ma bater, mas eu gostava dele, hehehe.

Cássia: Acho que ele se apaixonou pela Lizzy por ela ser, justamente, o oposto dele. Ele escondia, ela falava, ele se calava, ela peitava. É bem o amor espelho: ela era o que ele queria ser.

Nina: Concordo. Ela era o oposto das mulheres que ele estava acostumado. Lembram da irmã do Bingley?

Marina: NINA, nossa, aquela lá sim dava vontade de bater, pior que ela só a tal da Charlotte.

Cássia: Por que você não gostava da Charlotte, MARINA?

Nina: MARINA, eu senti pena da Charlotte.

Marina: CÁSSIA, ai, lá vou eu confundir os nomes de novo, não era a Charlotte, era a tia, aquela velha rica.

Nina: Aaaaaaaah.

Cássia: HAHAHAHAHA! Eu também tive raiva dela, mas dá para entender, eu também protegeria o meu Darcy! Hehehe. Além disso, ela podia muito bem achar que era golpe do baú. Ela era arrogante, mas entendi o seu lado.

Nina: Claro! Ele era o futuro da filha dela, oras, hihihi.

Marina: CÁSSIA, hahahahahaha.

Nina: MARINA, a Charlotte teve que aguentar o bajulador do Sr. Collins.

Marina: TODAS, eu acho que ela estava mais preocupada com a filha dela que com o Sr. Darcy.

Nina: Aquele eu matava fácil.

Cássia: É, MARINA, tem razão.

Marina: NINA, isso mesmo, agora lembrei. TODAS, quando o Sr, Collins pediu pra casar com a Jane eu levei um susto, pensei, nãããããããõoooooooooooooooooo.

Nina: TODAS, sabem outra coisa que me fez lembrar dos dias de hoje? O comportamento das irmãs mais novas com os oficiais.

Cássia: MARINA, mas lembra que a Jane era a mais bonita? Sempre pensavam nela primeiro para casar, hehehe. CAROL?

Marina: CASSIA, é, né, mas eu troquei o nome de novo, aff pra mim. Quando ele pediu pra Lizzy casar eu surtei, hehehe.

Cássia: AAAAAAAAAH! Eu me assustei também.

Carol: OI.

Marina: Mas eu ri muito quando ela recusou e ele falava que mulher é assim mesmo, diz não mas depois diz sim, e ela continuava dizendo não, eu dava risada, hehehe.

Cássia: Nada diferente de muitos homens por aí, hehehe, achar que é sempre “doce” da mulher.

Carol: TODAS, o Collins pra mim é o personagem mais asqueroso da Jane, até o momento.

Cássia: Sabe que não acho ele asqueroso?

Carol: Todos os defeitos de um homem e de um ser humano estão nele!

Marina: CÁSSIA, é, né, eles acham que é charme, não sabem diferenciar um não de verdade de um não que quer dizer “talvez”, hehe.

Cássia: Eu entendo o Collins naquele contexto.

Marina: Também não acho que ele é asqueroso, acho que ele representa muito bem muitos homens da época, e de acordo com o que foi discutido lá em cima sobre as pessoas falarem dos outros, ele representa essas pessoas, que julgam e vivem do que os outros vão pensar e achar e do que a sociedade manda fazer.

Cássia: NINA?

Nina: Tô aqui.

Cássia: Exatamente, MARINA! Ele só pensa nos outros o tempo todo, tem razão.

Nina: Acho que o Sr. Collins era fraco. Ele fazia o que diziam que era certo fazer, mas eu não dava conta dele não. Nojento!

Marina: Seria a representação da massa controlada pela sociedade. Se ele é asqueroso, então a maioria das pessoas a nossa volta também são.

Carol: Por isso ele é asqueroso!

Cássia: MARINA, praticamente socióloga!

Carol: MARINA, e somos!

Marina: CÁSSIA, hahahahahahaha, é o frio fazendo minha cabeça funcionar.

Carol: rs.

Cássia: Eu não acho ele asqueroso. E acho que todo mundo, em algum momento, agiu de uma maneira ou outra de acordo com o que os outros vão pensar. Não é todo mundo que tem peito de falar “não vou te agradar”, ainda mais que ele era sustentado pela dona lá. Enquanto ele não tivesse a casa dos Bennet, era mantido por ela. É o protótipo do bajulador.

Nina: Ele nem tinha escolha, tinha que ser bajulador.

Marina: CÁSSIA, verdade.

Carol: CÁSSIA, estamos sempre ou pelo menos na maioria das vezes agindo assim. Não temos como não agirmos assim por causa do sistema – capitalista – que não nos dá a liberdade de pensarmos e agirmos como somos de verdade. Aliás, nem sabemos quem somos, nos perdemos muito nisso tudo que jogam em cima da gente: TV, moda, internet, cobranças e mais cobranças… Tem de ser assim, tem de se vestir assado… Tem de ter tal coisa para ser… Enfim…

Cássia: Nem acho que é questão de sistema capitalista, mas da sociedade como um todo. E a grandeza da Jane é justamente esta: mostrar como a sociedade funciona. A gente adora ler porque se identifica e percebe que, na verdade, ser Lizzy continua não sendo fácil, ser mulher continua sendo complicado, o sistema familiar nem mudou taaaaaaanto assim. Três vivas para a Jane!

Nina: É isso aí. Preciso me despedir, meninas.

Marina: NINA, tchauuuuuuuu, beijoooosss.

Cássia: NINA, beijos e boa semana.

Marina: Eu também vou daqui a pouco.

Nina: Obrigada por mais um encontro. Beijos e nos vemos no próximo.

Marina: Até.

Pride and Prejudice

Numa conversa um tanto irônica e pouco afetuosa, mas já presente um amor cáustico entre o Sr. Darcy e a Srta. Elizabeth Bennet, ficam claros os dois temas do livro Orgulho e preconceito:

– Faço tudo repentinamente, disse o Sr. Darcy.

– É exatamente o que eu esperava de sua parte, disse Elizabeth.

– Está começando a compreender-me? Não sabia que a senhorita gostava de estudar a personalidade das pessoas.

– O campo, disse o Sr. Darcy, não oferece muitos exemplares para esse estudo. Muita limitação, pouca variedade de tipos.

– Mas as próprias pessoas, disse Elizabeth, mudam tanto que há sempre alguma coisa nova para se observar nelas.

– É verdade, disse a Sra. Bennet, ofendida pela maneira com que o rapaz se referia às pessoas do campo. – Garanto-lhes que acontece o mesmo na cidade, a mesma monotonia. Não vejo qualquer vantagem de Londres sobre o campo, a não ser as lojas e os logradouros públicos.