Livro 11: Mãos de cavalo

O encontro aconteceu dia 11 de dezembro com participação de Alex, Cássia, Cátia e Laís. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Alex: Bem, quem começa?… rs

Laís: Depois de ler esse livro concluí que eu também posso escrever um romance.

Cássia: Eu conhecia tanto o livro, que achei que fosse de contos… só fui me ligar que era romance no capítulo 4 ou 5.

Laís: Não sei para vocês, mas para mim ele não teve absolutamente nada de mais; passei por ele praticamente sem sentir nada.

Cássia: Eu tenho uma lista de críticas e um punhadinho de elogios.

Laís: Também tenho elogios.

Alex: Eu achei que o livro tem umas questões muito interessantes e uma simbologia instigante, mas a escrita me incomodou um pouco.

Cássia: A primeira coisa que me incomodou: erros. Erros propositais.

Laís: Foi da escrita que eu gostei. Flui, ele te transporta para aquele espaço, para aquelas cenas.

Cássia: É que você gosta de descrição, não é, Laís? Eu não suporto.

Laís: Nada como uma descrição bem feita!

Cássia: Isso me mata: descrição.

Alex: Pareceu a mim como que o livro tivesse sido impresso sem revisão… fosse o 1º tratamento da narrativa.

Laís: Aquele começo, dele na bicicleta, foi lindo.

Cássia: Então, Alex… aí que tá.

Alex: Não revisão gramatical, que fique bem claro… rs.

Cássia: Tem erro proposital, aqueles “pras”. Em literatura, a regra para o revisor é: só mexa em acentuação. Em outros casos, perguntar ao autor. Tem “ver ela”.

Alex: Acho que a palavra melhor seria que o livro aparenta não ter sido editado.

Cássia: Tem “chegou na” em vez de “chegou à”. Tipo, para quê? Mas foi, hehehe. A Companhia das Letras é cuidadosa nisso. E só de revisão, foram duas. É coisa do autor mesmo.

Alex: Isso é interessante… Também não sei, mas pode ter alguma intenção embutida que não tenhamos captado, rs.

Cássia: (a Cátia não consegue comentar)

Laís: Confesso que isso não me incomodou.

Cássia: Então, ele escreve bem. Esse tipo de coisa é frescura, não cabe no texto dele.

Laís: Entendi que era algo proposital mesmo e só.

Cássia: Tá, mas qual o propósito? Colocar “pras” e “nas” ao longo do texto? Não rola se o autor escreve tão bem, porque ele escreve muuuuito bem!

[Cátia entrou na conversa]

Alex: Bem, retomando estávamos falando sobre a escrita…

Cássia: Isso, da falta de cuidado que eu achei que ele tem com o próprio texto. Sabe a impressão que eu tive? É como se ele tivesse escrito a história de maneira linear, em capítulos, depois resolveu misturar a ordem e fim.

Cátia: Estás a falar da forma que a história está organizada?

Laís: Acho que foi tudo proposital. Para que eu não sei, mas ingenuidade não sinto que foi.

Cássia: Isso, Cátia.

Alex: Também não acho que foi ingenuidade, parece tudo muito bem encaixado.

Cássia: Sim, foi proposital, mas a questão é qual o propósito.

Cátia: Gente, eu tenho de dizer, eu amei o livro.

Cássia: Sério?

Cátia: Sério.

Cássia: Eu xinguei o livro até a metade.

Cátia: lol. A parte inicial eu confesso, foi difícil porque ele exaustivo a escrever.

Laís: Amei a parte inicial.

Cátia: Mas o personagem era extremamente interessante.

Laís: Não sei se isso tem a ver com o fato de eu estar escrevendo mais, fazendo curso de escrita e tal, mas achei ótima.

Alex: O primeiro capítulo não pareceu que foi um resumo do restante da história com o paralelo entra os obstáculos na descida com a bicicleta e os desafios da vida do protagonista?

Cássia: Tem razão, acho que ele “resume” o personagem.

Laís: Confesso que não pensei nisso.

Cátia: Também não pensei nisso.

Cássia: Porque é sempre em torno disso, dessa história da bicicleta, depois do carro, mas como eu não gostei desse começo, não tinha nem pensado nisso.

Laís: Mas faz sentido.

Alex: Inclusive a fixação por sangue que depois permeia todo o livro de vermelho… rs. Tem vermelho prá todo lado… rs.

Cássia: Nem me fala nessa fixação por sangue, minha terapeuta ia amar tamanha escatologia, pelamor!

Cátia: O começo, para mim, foi difícil porque achei extremamente masculino.

Laís: Achei o livro inteiro masculino, in-tei-ro.

Cássia: Mas eu gosto de textos bem masculinos.

Cátia: A questão da infância em grupo. Sim, completamente.

Cássia: Tem de um outro autor, dessa mesma turma do Daniel Galera, que é testosterona pura e eu amo de paixão, não foi isso que me incomodou.

Cátia: Mas eu tive dificuldade de entender algumas coisas.

Laís: Quem é, Cássia?

Cássia: O Cuenca. Ele só conta histórias de mulheres chamadas Carmen. É MUITO macho-cho.

Cátia: Esse eu conheço.

Cássia: Que eu li umas cinco vezes.

Laís: Nunca li!

Alex: Acho que isso é porque é um protagonista masculino e os como os flashbacks se concentraram em momentos de transição (os rituais que passamos pela vida), mostrou aqueles tipicamente masculinos, afinal a jornada do homem é um pouco diferente da mulher.

Cátia: Sim, é verdade, o que eu achei.

Laís: É bem diferente.

Cássia: O nome do livro é “Corpo presente”, João Paulo Cuenca.

Laís: Às vezes incompreensível.

Cátia: E retomando o lado do sangue, vocês não acham que é interessante o facto de ele procurar quase que um sofrimento constante e, ao mesmo tempo, fugir dele?

Cássia: Ele se autoflagela o tempo todo.

Cátia: Sim. Mas ao mesmo tempo ele foge.

Cássia: Mas acho que isso é uma fuga. Quando a gente sente dor física, esquece a dor emocional.

Alex: Acho que não foi fuga e sim transferência.

Cátia: Como assim?

Alex: Sensação de dor no corpo compensava a apatia emocional.

Cátia: Não tinha pensado nisso….

Cássia: Não sei se seria transferência, mas acho que entendi o que você quis dizer.

Laís: Isso fica evidente quando ele está com a Naiara.

Alex: Como não podia sentir as agruras da vida emocionalmente, ele transferia para o corpo.

Cátia: Achei isso contraditório, mas as duas explicações são possíveis.

Cássia: O mais triste é que, no final, ele diz que as coisas serão diferentes e a gente sabe que, adulto, elas não foram.

Alex: Será que não? Não acham que o tema do livro é a segunda (ou segundas) chances?

Cássia: Claro que não… Olha a apatia da vida adulta.

Cátia: Não achei.

Laís: Aquele embate com os meninos que queriam bater no outro garoto.

Cátia: Achei mais uma expiação.

Cássia: Ele se afundou no estudo, se tornou médico, casou com uma mulher que não amava.

Laís: Acho que aquilo foi um começo e o fato de ter desistido de escalar tambémm, porque para ele escalar era uma fuga.

Cássia: E teve de dar surra em adolescente para se sentir vivo de novo? Aos 30 anos?

Cátia: Acho que foi uma expiação.

Cássia: Sim, isso foi.

Alex: Vocês repararam que a fase adulta dura menos de 2h? Acho que houve uma profunda reflexão durante esse período onde revisitou os momentos marcantes do passado e ele tentou “consertar” as falhas.

Cátia: Ele quis expiar, de alguma forma, a covardia do passado.

Cássia: Mas mostra como ele carregou aquilo com ele a vida toda.

Cátia: Sim.

Alex: E isso é muito legal quando você vê a forma como o livro foi construído.

Cássia: Eu achei a parte adulta melhor que a parte infantil/adolescente.

Alex: O passado vai revelando o futuro e o próprio passado ao mesmo tempo.

Cássia: Eu gostava mais de saber o que ele iria fazer do que quando ele era criança.

Cátia: O capítulo do parto da mulher é qualquer coisa…

Cássia: Mas aí eu vi uma coisa que não gostei. Era tudo meio anticlímax. Aquele parto, ó, quase desisti de ser mãe, hehehe.

Laís: A vida de muita gente é anticlimática.

Cátia: lollllllllll. Eu também. Mas muito intenso, muito real.

Cássia: Não é não, Laís. Na nossa vida, os acontecimentos se encadeiam em antes e depois.

Cátia: Muito cinematográfico.

Cássia: No livro, não é assim. A surra nos adolescentes quando ele é adulto é catártico, mas só entendemos isso nos capítulos seguintes, ou seja, não me envolvo com aquele momento porque não sei a importância que ele teve no passado. É disso que estou falando. Cátia, tem razão. Aliás, o livro todo é bem cinematográfico.

Laís: Digo isso porque há um momento em que ele diz que a vida parece sempre mostrar algo de heroico que nunca vem, algo assim.

Alex: Isso mesmo.

Cássia: Ah, entendi, mas é que falei de outro ponto mesmo.

Cátia: A desistência da escalada, como lembra a Laís, vocês entenderam o que fez o clique para ele desistir? Eu fiquei na dúvida.

Cássia: Não…

Cátia: Foi ele pensar na mulher, foi ele pensar na vida enquanto ia para a casa do amigo? Este foi um momento que não consegui alcançar bem.

Alex: Acho que é porque o livro vai mostrando uma pessoa que tem uma certa crise de identidade, de tentar descobrir quem ele é.

Cátia: Mas o que despoletou isso? Ele estar meio tremido com a mulher?

Laís: Sei que não é o ponto central, mas, Cássia, você falou que ele não amava a mulher; acha mesmo? Tenho dúvidas.

Cássia: Acho sim.

Cátia: Eu não tenho certeza.

Laís: Nem eu.

Cássia: Esse rapaz buscava por momentos “epifânicos”. Ele resolveu casar com essa mulher depois de um momento assim: “Vou te fazer feliz assim pra sempre”.

Cátia: Grandes auges?

Alex: Também não tenho uma opinião tão definida quanto aos sentimento pela esposa.

Cássia: Ãrrã, vai sim, fofo. Exatamente.

Cátia: Ele era muito de adrenalina.

Cássia: Ele nunca quis casar e resolveu quando teve um momento incrível com essa mulher. Isso não é amor. Bem, pelo menos foi como eu vi a situação, né.

Laís: Acho que ele aproveitou esse momento porque se contrapunha a toda a apatia que ele sentia por tanta coisa…

Cássia: Então, casou para não ter apatia e era impossível não ter.

Alex: Bem, é que ele era pessoa que se via (e aparentava) não conseguir ter sentimentos.

Laís: Uma chance de se conectar a algum universo exterior a ele mesmo.

Cátia: Interessante.

Alex: Acho que ele era meio Dexter… rs.

Laís: Hahahaha.

Cássia: Hahahaha! Fora a psicopatia, tem razão.

Cátia: Eu tenho que ver mesmo o Dexter.

Alex: Exatamente nesse sentido de ter uma dificuldade de conexão, rs. Até o gosto por sangue… rs.

Cássia: Opa, não viu ainda, Cátia? VEJA!

Cátia: Não, acredita?

Cássia: É sensacional. Angustiante, mas sensacional. Esse gosto por sangue foi me dando uma agonia…

Cátia: Acho que está a fazer falta na minha cultura de séries.

Laís: Vocês acham que o nome que ele deu para a filha tem algo a ver com a Naiara?

Cássia: Acho.

Cátia: Eu achei muuuuuuito coincidência.

Alex: Completamente. rs.

Cátia: Até a Naiara achou.

Alex: Isso mesmo. rs.

Cássia: E no que a Naiara se transformou, hein?!

Cátia: Eu cheguei a conclusão que ele era um prisioneiro do seu próprio passado.

Laís: Mas por que ele fez isso?

Cátia: Porque ela foi a mulher dele, apesar de tudo.

Cássia: Não sei… Acho que ele quis cuidar da Naiara e não conseguiu. Ele fala dela de um jeito paternal, mesmo na adolescência.

Cátia: Apesar de não ter sido mas poderia ter sido.

Cássia: Ele não conseguia vê-la como mulher.

Alex: Como se trata de tentar fazer o que não tinha feito, é como se desse a ela a vida que ele se sentia incapaz de dar. Ele queria amá-la mas não conseguia.

Cássia: Quando eles estão no quarto, ele mesmo ficava “mulher, mulher, mulher”. Exatamente. A filha era a única que ele amava.

Cátia: A tragédia os separou.

Laís: Por isso que eu gosto de discutir com vocês; vocês abrem portas de percepção. Não acho que a tragédia os tenha separado, ele mesmo os separou.

Cássia: Depois daquela tragédia, era natural ele ficar longe de todos. Eu também ficaria.

Cátia: Sim. Achei muito triste.

Alex: Eu acho que o que aconteceu com Bonobo (que nome!…rs) não interferiu na história dele com a Naiara.

Cátia: Não a separação, mas surra do Bonobo.

Laís: Fiquei me perguntando se o garoto que ele ajudou não poderia ser o filho do Pedreiro.

Cássia: Eu só lembrava dos macacos bonobos.

Cátia: Não achas?

Laís: Concordo, Alex.

Cátia: Nossa, que boa lembrança, Laís!

Alex: A história com ela foi mais uma, além da covardia no caso da morte do irmão dela, daquelas que ele precisava revisitar no presente.

Cássia: Não pensei nisso, mas pela idade, poderia ser.

Alex: É por isso que fico com a forte impressão sobre a questão da segunda chance.

Cássia: Só eu não vi segunda chance?

Cátia: Eu vi expiação e não segunda chance.

Cássia: É, acho que está mias para isso, resolver um trauma do passado para seguir adiante.

Cátia: Sim, mas mesmo aí.

Laís: Sim.

Cátia: Foi meio amargo.

Alex: Mas segunda chance não é voltar ao passado e refazer algo que deixou de fazer?

Laís: Acho que toda expiação, ou mesmo segunda chance, é meio amarga.

Cássia: Foi estranho. Ele com aquela machadinha que tem outro nome, atacando os meninos, não sei…

Cátia: Ele saiu de perto da Naiara e foi meio assim “adeus e até nunca”.

Cássia: Não, Alex.

Laís: Porque antes disso passa-se por um monte de coisas, um monte de pesadelos.

Cátia: Sim, é verdade, Laís. Sim.

Cássia: Segunda chance seria se ele pudesse salvar o Bonobo.

Cátia: Mas a expiação deveria ser um primeiro passo para um ressurgimento.

Laís: Não concordo, Cássia.

Cássia: Não sei, acho que a gente nunca é uma coisa só.

Cátia: E faltou um pouco isso, ou é em aberto para nós sonharmos.

Alex: Hum… Acho que a segunda chance não é salvar o Bonobo, mas sim não se acovardar naquele tipo de situação.

Cássia: Acho que ele era uma soma de coisas e a sua atitude na vida adulta não era apenas por conta do Bonobo.

Laís: Às vezes segunda chance é só você conseguir seguir; não consertar o que está feito, mas não cometer as mesmas bobagens.

Cássia: Queridos, respeito a opinião de vocês, mas para mim segunda chance é outra coisa. Seguir adiante não é segunda chance, é seguir, apesar do que aconteceu.

Alex: Era o tal de não desperdiçar novamente a chance de ser “herói” como o trecho que a Laís destacou.

Cátia: Agora estou confusa.

Cássia: Para mim, a questão ali não era apenas ser herói, era salvar alguém da morte.

Laís: A gente pode até discordar do modo, dele chegando lá e detonando os adolescentes.

Cássia: O Bonobo era aquilo que ele queria ser.

Laís: Mas não se pode negar que foi uma mudança de atitude.

Cássia: Não acho que tenha sido, Laís. Sinceramente. Até porque, não vemos como foi a vida dele depois disso, ele parou na Naiara e fim. Ele continuou médico? Continuou casado? Continuou escalando? Continuou amigo do Renan? Continuou apático?

Cátia: Ppois, ficou em aberto.

Cássia: Continuou buscando coisas para sentir dor? Se continuou, não mudou a atitude, só expiou o passado. Tirou a culpa dos próprios ombros, só isso.

Cátia: Sim.

Laís: Aí cada leitor pensa o que quiser e o que couber.

Cássia: Ele não fez para salvar o garoto, ele fez para si mesmo.

Cátia: Eu concordo com isso. Mas não posso negar que ele tinha um lado que gostava de aparentar ser um herói, gostava de aparecer.

Laís: Tinha mesmo.

Cássia: Isso sim. E achei tão estranho ele ser “ooooo” cara aos 30 anos de idade.

Laís: Desde o ciclista urbano, rs.

Cátia: Se foi uma expiação, temos um personagem empenhado em melhorar.

Cássia: Ninguém é cirurgião plástico renomado aos 30 anos de idade.

Alex: Nisso concordo, a questão não era salvar ninguém sim uma segunda chance dele conseguir uma conexão com o mundo.

Cátia: Se foi para aparecer, temos um personagem mergulhado no seu próprio egoísmo.

Cássia: Mas ele era egoísta.

Laís: Acho que tinha um pouco das duas coisas.

Cássia: E vocês podem me bater, mas não acho que ele queria melhorar. Sabe o que pareceu? Desculpem o vocabulário, mas… Quando a gente já está até a tampa e dá um foda-se no mundo.

Cátia: Sim, concordo, Cássia.

Cássia: Foi o que ele fez com a mulher e o Renan: “Fodam-se vocês e me deixem em paz”.

Cátia: Sim. Eu tendo a romantizar.

Cássia: E foi uma das partes que mais gostei do livro.

Cátia: Mas foi isso.

Cássia: Ele falando na “cara” do amigo: “Você fala demais!”

Cátia: lol. Renan você é o mala. lol

Cássia: Exatamente.

Alex: Você dar um foda-se para o mundo é uma demonstração de que ele poderia estar saindo da letargia emocional.

Cássia: Não suporto mais você. Todo mundo tem seu momento que enche a tampa, mas nem sempre surta.

Laís: Concordo de novo, Alex.

Cássia: Ele estava no momento propício de surtar.

Cátia: Sabem, num contexto diferente isto me lembra o perfume. Será que ele era apático ou ele tão egoísta que não estava nem aí para ninguém?

Alex: Acho que você sair de alguém que o talento para se conectar com as pessoas era se machucar para alguém que expressa seus sentimentos e toma uma atitude mais proativa (ainda que não tenha grandes resultados) é uma mudança considerável.

Cássia: Boa, Cátia! Para pensar…

Alex: Acho que apático.

Laís: Concordo de novo, Alex.

Cátia: Porque em algumas situações impressionava-me a insensibilidade dele.

Cássia: Para mim, ele continua sendo um rapaz egoísta que teve um surto momentâneo e que, se o livro continuasse, teria a mesma vida de antes.

Laís: Não há como saber isso.

Cássia: Não há como saber o que, Laís?

Cátia: Ele roçava a indiferença.

Laís: Se ele continuaria sendo um egoísta ou se de fato mudou alguma coisa.

Cássia: Claro, né, Laís? Hehehe. O livro parou, sei que não é possível.

Alex: Bem, não sei o que pensar. A não ser que adotemos um parâmetro do que é ser apático e do que é ser egoísta, daí fica mais fácil saber em qual dos dois penso que ele se encaixa, rs.

Cássia: Estou falando o que, na minha visão, aconteceria. Acho que cada qual o enxergará com seus próprios olhos.

Laís: Sim, Cássia.

Cátia: Eu acho que ele voltaria, continuaria com a mulher e teria outro surto daqui uns tempos.

Cássia: Eu não consigo vê-lo como alguém que deu uma guinada na vida. Vocês, sim. E se batermos nessa tecla, ficaremos aqui até amanhã.

Laís: Sobre apatia e egoísmo, não estariam as duas coisas bem próximas?

Cátia: Nem sempre, Laís.

Cássia: Há pessoas apáticas que são altruístas e pessoas “vivas” que são absolutamente egoístas.

Alex: Não uma guinada, mas uma mudança. E ele tinha um dilema e isso não é o mesmo do que um problema porque para se resolver um dilema você tem que mudar de percepção. Acho que isso ele fez. Agora, se isso trará grandes consequências à sua vida no futuro não sei e acho que nem o autor também… rs.

Cátia: Em nenhum momento do livro eu pensei nele como alguém apático.

Cássia: Qual era o seu dilema? Eu via um grande trauma ali, não um dilema.

Cátia: Eu vi um remorso.

Alex: Como uma pessoa solitária e renegada pode se conectar com o mundo?

Cássia: Saindo para o mundo é um começo.

Cátia: Renegada? Em que sentido?

Alex: Bem, mas só sair não irá resolver a não ser que haja uma mudança de percepção em algum nível.

Cássia: Mais ou menos. É fácil ser solitário quem vive no próprio mundo. E muitos renegados, na verdade, renegam as pessoas.

Alex: Boa pergunta. Talvez renegado não seja um termo muito apropriado… rs.

Cássia: Tem muito solitário que “odeia a humanidade”.

Alex: Talvez renegante? Existe isso? rs

Cássia: Ah, neologismo, vai, hehehe.

Cátia: Talvez exista.

Laís: Mas não dá para entender.

Cátia: Mas não entendo, renegado.

Cássia: Renegante não existe, o Houaiss me contou.

Laís: Solitário ele sempre foi, desde a infância; mas a gente não sabe o motivo.

Cátia: Ele se sentiria colocado de lado?

Alex: Ou ele se colocava de lado? O renegante seria nesse sentido

Laís: Aí é que está.

Cátia: Renegante, então.

Cássia: Acho que ele se colocava de lado.

Cátia: Então.

Cássia: Ele se sentia deslocado ali.

Cátia: Concordo com o renegante.

Cássia: Porque a galera gostava dele.

Cátia: Sim.

Laís: Concordo com o renegante também.

Cátia: Sim, é verdade.

Cássia: Ele não era o Morsa.

Cátia: Verdade. lllloooollllll. Ai, o Morsa.

Alex: Tenho um nanoconto em que o título “O Renegante”cairia muito bem… rs.

Cátia: Eu gostei do Morsa, tadinho.

Cássia: Também gostei do Morsa. Aí, Alex, já tem o título! hehehe.

Cátia: Todo mundo interessado só no game dele.

Cássia: Coitado.

Laís: Esse era renegado.

Cátia: Esse era.

Cássia: E todo mundo doido para fugir dali. E ainda mostra que ele teve uma vida típica de “a revanche do nerd”.

Cátia: Gente, adorei isso do renegado/renegante.

Cássia: Renegante é quem renega, certo?

Cátia: Acho que o teu conto vai fazer sucesso com esse título, Alex.

Alex: E já tenho o nanoconto, rs. Desculpem eventuais erros de concordância, etc: O Renegante – Viveu vários momentos felizes, não se deixou contaminar por qualquer deles.

Cátia: Sim.

Cássia: A palavra “correta” é renegador, segundo o Houaiss.

Cátia: Ihhhhhh.

Cássia: Lembra regador.

Cátia: Não soa tão bem.

Alex: Ah, deixa eu ter meu momento Guimarães Rosa vai… rs.

Cátia: Gosto mais do renegante.

Laís: Renegante é mais legal. E gostei do nano, Alex.

Cátia: Lembra navegante.

Cássia: “Renegador. Datação. 1785 cf. Catec. Acepções. Adjetivo e substantivo masculino: que ou aquele que renega.” Ah, claro, Alex.

Cátia: Alguém que vagueia no mundo da sua própria maneira.

Cássia: Se joga no neologismo e vai! hehehe.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Mas o mal de revisora foi descobrir no dicionário se existe, se tem sinônimo, essas coisas, hehehe.

Cátia: Hahahahahahaha.

Alex: Eu faria a mesma coisa, Cássia, é que meu mouse pifou e não dá para ficar saindo da janela do MSN e ficar navegando na internet, rs.

Cássia: Ah, saquei! hehehe.

Cátia: E o que dizer dos escritores que inventam palavras, tipo Mia Couto?

Cássia: Sinceramente?

Alex: Nossa, esse é campeão também… rs.

Cássia: Quanto melhor o autor, mais propriedade ele tem para inventar palavras.

Cátia: Pois é…

Cássia: Tem de ter propriedade.

Cátia: Isso também é verdade, não é para qualquer um.

Alex: Concordo.

Cássia: Exatamente. Tem uns livros ruins, textos ruins, umas coisas nada a ver e o autor “Ah, mas Guimarães criou, Mia criou, Saramago criou”. Filho, depois que você escrever algo semelhante a “Grande sertão: veredas” volta aqui e a gente conversa.

Cátia: Saramago é mais a pontuação e construção frásica.

Cássia: Sim, mas tem quem queira imitá-lo. aliás, imitam muito mais isso que os neologismos.

Cátia: Simmmmmmmm e como tem.

Cássia: Ele pode fazer essas coisas…

Cátia: Diz, Laís.

Laís: Uma dica: se tiverem a oportunidade de ler “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, do Marçal Aquino, não percam. Fecha parênteses.

Cátia: Ouço falar muito bem dessa história.

Alex: Opa, dica anotada.

Cátia: Depois, eu fiquei sem saber. Vocês gostaram do livro?

Cássia: O título é incrível, mas nunca li. No fim das contas, eu gostei.

Alex: Eu também gostei.

Cássia: Do meio para o final, eu comecei a gostar do livro.

Laís: Gostei mais depois dessa discussão. Me fez ver coisas que eu não tinha visto e dar uma importância maior aos acontecimentos.

Cássia: E daí dei crédito ao autor.

Alex: E emendando com outra pergunta: Vocês leriam outras obras do autor?

Cássia: Não que ele precise do meu crédito, hehehe! Mas não botava fé.

Cátia: Eu leria.

Cássia: Leria.

Cátia: Eu não botava fé, or causa do título.

Cássia: Essa pergunta é boa daqui para frente em todos os livros, se a gente leria outro livro do autor.

Laís: Leria, mas sem aquela expectativa absurda. Mas não colocaria na frente da minha fila não, o livro teria de esperar a sua vez.

Cátia: Mas eu comecei a ler, e parecei difícil, muito pormenorizado.

Alex: Eu também e essa resposta vale para os anteriores. Com exceção do autor d’O Perfurme, mas daria uma nova chance a ele (talvez).

Cátia: Depois eu fiquei tão fascinada. Esse nããããããoooooo.

Cássia: O autor de o Perfume, eu passo a vez para sempre.

Laís: Também.

Cássia: Eu leria outro do (qual o nome dele mesmo?)

Cátia: Eu nunca mais leria nada do autor de o Perfume e não recomendo. Perdoe-me, Teeh.

Cássia: Ai, meu Deus, do Cemitério de pianos, fugiu o nome!

Cátia: José Luís Peixoto.

Cássia: Isso! Dele eu leria.

Laís: Desse eu leria tudo e mais um pouco.

Cássia: Do Daniel Galera eu leria.

Cátia: Eu também e vou procurar mais coisas dele, gostei. Acho que foi o primeiro livro que eu li que achei totalmente masculino.

Cássia: Procurar mesmo eu não sei se vou, hehehe.

Cátia: E achei isso muito interessante.

Cássia: Leia “Corpo presente”.

Alex: Não sei vocês, mas adoro descobrir novos autores e saber que ainda tem coisas dele para ler… rs.

Cátia: Sim!

Laís: Eu sei que vou procurar mais coisas do José.

Cátia: O que a Laís recomendou eu já tenho aqui e já tenho o outro no olho.

Cássia: Eu confesso: sou reticente com novos autores.

Alex: Eu esqueci qual é o próximo… rs.

Laís: Nem começa.

Cátia: A estrada.

Laís: Eu vou ser uma nova autora e você vai ter que me ler, hahahahaha.

Cátia: Hahahahahaha.

Cássia: A estrada, Cormac MCCarthy. Sou reticente mesmo, ué, hehehe.

Laís: Mãos de cavalo pode não ter sido o melhor livro que já li para o clube, mas acho que esta foi a melhor discussão que tivemos. Foi bem produtiva.

Cátia: É verdade, porque eu acho que foi o livro com o personagem mais complexo.

Alex: Eu também achei a discussão muito elucidativa.

Cátia: E foi o livro mais desafiante para mim.

Alex: Eu achei um livro que a construção do personagem durante a narrativa foi muito bem construída.

Laís: Lembram que a Naiara disse que homens cegos a excitavam? Achei aquilo muito engraçado.

Cássia: Hehehe.

Cátia: Sim! A questão do tacto, talvez, ou um lado dela maternal.

Alex: Eu pensei o mesmo… rs.

Cátia: Não sei, eu achei ela muito maternal.

Cássia: Eu só pensava que ela era uma garota muito precoce.

Laís: Não sei…

Cássia: Para se excitar com Spectromen aos quatro anos de idade.

Cátia: Maternal no sentido de guiar, de ser uma guia. lollololololololloololol

Cássia: Mas maternal e excitação não são opostos?

Cátia: Eu só pensei.

Laís: Interpretação interessante.

Cátia: “Quem é o Spectromen?”

Alex: Segundo Freud e seu Complexo de Édipo, não… rs.

Cássia: Mas em Complexo de Édipo é outra coisa, é a fixação pela mãe ao vê-la como mulher, não pelo lado maternal da mãe, hehehe.

Cátia: Laís, eu achava que ela guiava mas não manipulava, entendes?

Laís: Claro, não manipulava nunca.

Cátia: Sim.

Laís: Tanto que perdeu o que mais queria.

Cátia: Quando ela o levou para o quarto, ela o guiou em todo o momento e todas as vezes que ela estava presente ela tinha assim uma presença marcadamente de observação e de condução, eu não sei explicar bem…

Alex: Então se a história seguisse a jornada mítica do herói ela seria uma espécie de mentor? Ou um aliado?

Laís: Está mais pra aliado, acho.

Cátia: Ela seria talvez uma conselheira… será isso ser mentor?

Laís: Sim.

Alex: No sentido proposto por Campbell, sim o mentor é um conselheiro.

Cátia: Mas a verdade é que ela era também uma aliada dela.

Alex: Ou quem apresenta o desafio e impulsiona o herói a iniciar sua jornada.

Cátia: Eita livro complexo!

Laís: Muito mais do que eu poderia imaginar.

Cátia: É verdade!

Laís: Ganhou vários pontos comigo.

Cátia: Para mim, foi o livro até agora. Na dianteira com O amor nos tempos de cólera.

Alex: Nossa… superou o do Peixoto que você gostou tanto?

Cátia: [carinha sorridente]

Cássia: Gente, só eu não vejo tanta complexidade e grandeza nesse livro? Eu acho que sou o ponto anormal no Clube de Leitura, sério.

Cátia: LLLLLLLLLOOOOOOOOLLLLLL. Ora bem…

Cássia: Estou me sentindo o Hermano.

Cátia: o Peixoto está lá em cima elevado.

Cássia: Vou lá estudar para o vestibular de Medicina.

Cátia: Acima dos céus. Hahahahaha. lololololololol

Alex: Agora ficou complexo: nós nos identificamos com a obra e você com o protagonista? rs

Cássia: Eu não me identifiquei com ninguém…

Cátia: lololololololololol

Cássia: E, para mim, o Hermano é só um garoto que passou por experiências na vida. Está longe de ser complexo ou de o analisarmos sob o ponto de vista da jornada do herói. Maaaaas, é o meu ponto de vista.

Alex: Eu sei que não se identificou… Eu só brinquei porque você disse que se sentiu como o Hermano, rs.

Cássia: Vocês veem de outra forma e só estou aqui copiando e colando no arquivo [que depois é publicado no blog]. Ah, foi porque dissemos que ele era excluído, ou se sentia de lado, hehehe.

Cátia: Eu achei desafiante a escrita, a forma de construção do livro.

Alex: E eu a construção do personagem e narrativa… rs.

Cátia: E o protagonista meio que indecifrável porque no fundo é tudo muito complexo e isso parece-me muito real.

Laís: Mais indecifrável para as mulheres, talvez (????????????????).

Cátia: Hahahahaha.

Alex: Eu me abstenho de comentar nesse ponto… rs.

Cássia: Ele não foi indecifrável para mim. Ou porque eu sempre tive mais amigos na infância.

Cátia: Não desce a rua na Caloi, Cássia!

Laís: Por isso eu disse talvez.

Cássia: Digo, mais amigos que amigas, eu achava os meninos mais legais. Ainda acho, na verdade.

Cátia: Você não fez colecção de papel de carta? LOL

Cássia: Fiz… E o que que tem a ver? Hehehe. Eu não agia como menino, eu só era amiga dos meninos, hehehe.

Cátia: EU FIZ TAMBÉM. Ainda tenho. Gente, que vergonha, eu ainda tenho.

Laís: Não se envergonhe não.

Cátia: Eu não era muito. Na realidade, eu não tinha mais amigos de um lado ou de outro.

Cássia: As meninas me excluíam na escola, hehehe.

Cátia: Sempre me dei bem com todos mas sem ser aquele elemento popular. Ohhhhhhhhhhhhhhhh. Eu seria sua amiga

Cássia: Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Abraço coletivo, gente.

Cátia: Eu dividiria a minha merenda contigo! Weeeeeeeeeeeeeee.

Cássia: Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Cátia: Hehehehhe.

Cássia: Também vou dividir minha merenda com você, amiga.

Cátia: Bem, íamos concluir mesmo?

Cássia: Fechamos o ano com chave de ouro. Livro bacana, discussão bacana.

Cátia: É verdade.

[Depois de longas trocas de feliz Natal e Ano-Novo…]

Alex: Abraços e nos encontramos na estrada… rs.

Cássia: É mesmo, vamos começar 2012, ano em que dizem que o mundo vai acabar, com um livro apocalíptico.

Cátia: Wow!

Cássia: Ai, que Deus nos proteja, hahahaha.

Alex: Presságio?! Nos vemos na próxima temporada do Clube.