delicadezas

imagem retirada daqui

“Considerava o primo como exemplo de tudo que fosse bom e grandioso e a sua gratidão pela bondade que dele recebia era tão intensa que não poderia ser descrita por palavras. Seus sentimentos em relação a ele traduziam-se por tudo que houvesse de respeito, gratidão, confiança e ternura.”

Mansfield Park, Jane Austen

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A leitura e os leitores de Jane Austen

Dissertação de mestrado defendida por Renata Cristina Colasante no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 2005.

”[…] O objetivo desta dissertação é verificar que noções de leitura e de leitor são figuradas por Jane Austen em dois de seus romances mais representativos desse tema: Northanger Abbey e Mansfield Park.”

O arquivo em PDF da dissertação completa, aqui.

Fonte: Jane Austen Sociedade do Brasil

Livro 3: Mansfield Park

O encontro do terceiro livro aconteceu dia 17 de outubro com participação de Cássia, Cátia e Marina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Marina: Gente, quando eu era criança, eu era muito Fanny.

Cássia: Sério?

Marina: Sério.

Cátia: Como assim?

Marina: Eu ficava no meu mundinho, achava que tudo que eu fazia estava errado, hehehe.

Cátia: Bem, eu partilho a parte de ficar no meu mundinho e de tentar sempre me comportar segundo as regras que me ensinavam ser as ideais.

Marina: Isso também.

Cátia: Mas eu não pensava se isso seria errado ou não, desde que cumprisse as regras.

Cássia: Eu estou me sentindo uma rebelde em relação a vocês.

Marina: Hahahahaha.

Cássia: É sério.

Marina: Eu pensava se era errado ou não e eu achava que era errada.

Cássia: Eu era totalmente Lizzy quando criança.

Marina: Sorte sua, hehehehe.

Cássia: Sempre respeitei meus pais, mas não aceitava imposição de mais ninguém.

Marina: Eu comecei a ser Lizzy só lá pelos 14 anos.

Cátia: Eu não, eu sempre fui totalmente enfadonha de tanto que seguia o lado correcto das coisas.

Cássia: Ah, isso não é ser enfadonha. Eu não concordo com essa ideia corrente de que o legal é afrontar, sério mesmo.

Marina: Eu também não. Acho que o melhor é você aceitar só o que te faz bem, mas se uma coisa te faz mal você não deve aceitar.

Cátia: Sim, concordo com vocês. O que acontece comigo é que o meu lado Lizzie sempre se revelou mais na escrita. Só nos últimos anos eu me tornei mais “desbocada” e aí fico feroz.

Cássia: A palavra tem um grande poder.

Marina: Nesse sentido eu também, desabafava com as palavras, criando coisas.

Cátia: Sim.

Cássia: Vocês duas têm um mundo interior absolutamente rico, ó!

Marina: Gente, mas vou falar, o que era aquela tia da Fanny, gente, que mulher horrorosa, vontade de dar uma nela. [sobre o comentário anterior] Que lindooooooo! Hehehe.

Cátia: A tia Norris?

Marina: Essa.

Cátia: Acho que é a personagem mais odiosa que eu li até hoje em Jane Austen.

Marina: Também acho.

Cátia: Absolutamente odiosa.

Cássia: Sabem que não me assustei com ela?

Cátia: Tinha um prazer em humilhar e em bajular quem lhe interessava.

Cássia: Porque representa muuuuuuuitas pessoas por aí.

Cátia: Sim, é verdade.

Marina: Isso sim, representa mesmo, mas que dava raiva dava.

Cássia: O que mais me incomodava era a humilhação geral que a Fanny sofria.

Cátia: Mas sabem o que me causava mais irritação?

Cássia: O quê?

Cátia: Sim, é verdade, Cássia. O que me irritava é que ela humilhava publicamente Fanny e ninguém era capaz de a mandar calar.

Marina: Isso, falou tudo.

Cátia: Todos assistiam, até o Edmund, e não diziam nada.

Cássia: Porque todo mundo concordava, a Fanny era mesmo nada para eles.

Cátia: Você acha?

Cássia: Acho sim… ela não era “vista”.

Cátia: Eu concordo em parte.

Marina: Sabe que chegou uma parte que eu queria que ela se casasse com o outro lá (gente, sou terrível para nome, o garanhão), só para calar a boca de todo mundo.

Cássia: O Henry.

Marina: Isso.

Cátia: Sim, eu também queria.

Cássia: Eu queria que ela casasse com ele.

Marina: Eu também.

Cátia: E vou ser polêmica nisso…

Cássia: Então, comece a polêmica.

Cátia: Hehehehe.

Cássia: Vamos, pode falar o que quiser.

Cátia: O Edmund não merecia Fanny. Ficou com ela como quem descobre a teoria da relatividade. Ela foi o prémio de consolação.

Cássia: Hahahahahahahahahaha.

Marina: Quando chegou a notícia que o Henry tinha fugido com a prima dela, eu fiquei bem chateada, hehehehe.

Cátia: Do género “ai que a minha prima até é jeitosinha e prendada”.

Cássia: Eu estou rindo para não chorar, porque é a mais pura verdade.

Marina: Também achei, não gostei nem um pouco.

Cátia: Eu também, Marina.

Marina: Eu queria que ela tivesse se apaixonado pelo Henry e ficasse com ele.

Cássia: É que a Marina não viu o filme… a Fanny “pega” o Henry e a Maria no flagra. Nossa, é um horror.

Cátia: Mas eu acho que ela estava gostando dele.

Cássia: Doeu em mim.

Cátia: Gente… que baixaria… Foi mesmo.

Cássia: Não foi? Nossa, dá um soco no estômago.

Cátia: Foi… Você tem que ver, Marina.

Marina: Sim, eu acho que depois que ele vai na casa dos pais dela, ela começa a gostar dele, e bem quando ela começa acontece aquilo.

Cássia: Tem mesmo, é triste. Mas eu entendo a dúvida dela, né.

Cátia: Ele fez tudo para conquistar ela. Sim.

Cássia: Poxa, mas chegou um momento que dava para acreditar.

Marina: Sim, a dúvida dá para entender.

Cátia: Sim, eu acreditei nele.

Cássia: Eu também.

Cátia: Ele tentou mudar.

Marina: Mas o caso dela não era só dúvida, ela queria o Edmund. Eu acreditei também.

Cátia: Mas a Fanny não deu mole para o rapaz.

Cássia: Mas é aquela história… a mulher cisma com o rapaz que não a quer. E cisma cisma cisma cisma cisma.

Marina: Hahahaha, é, né.

Cátia: Aí é que está o cerne da questão.

Cássia: Será que isso é amor?

Marina: Eu não acho, acho que é cisma, que nem você falou, cisma não é amor, é cisma, hehehe.

Cátia: Eu acho que ele estava conquistando ela, mas ela tinha aquela cisma pelo primo. Não acho que isto seja amor. É cisma.

Cássia: É, e tem toda a coisa romântica: cresceram juntos. E não só, ele era o seu único apoio, isso pode ter crescido com ela: o Edmund é o único que irá me entender e me aceitar a vida inteira.

Marina: Sim, e ele era o único que de vez em quando conversava e dava atenção para ela

Cátia: Isso. Ele era o grande amigo.

Cássia: Exatamente.

Marina: Mas dava pra entender que ia dar nisso logo no começo, né, quando eles ainda são crianças e ele vai até ela quando ela está chorando e tauz.

Cátia: Pois, eu aceito isso, da Fanny sentir aquele afecto profundo pelo primo. Acho até normal porque no fundo ele era o único que lhe dava carinho, mas…

Cássia: É, ele era a personificação do amparo.

Cátia: O que eu não aceito é que ele, de repente, acha que ela é a mais maravilhosa do mundo.

Cássia: E a outra, uma grande decepção.

Marina: Sim, mas meu, você ficar encucada com um cara que te fala toda hora que ama outra, e aí tem um mocinho mó afins de você, poxa vida, acorda, né.

Cátia: É verdade.

Cássia: Não parece final de filme americano?

Cátia: Sim.

Cássia: Eu adoro, mas é bem filme mesmo. Do nada, o rapaz percebe que ama a moça.

Cátia: Totalmente.

Cássia: E ela sempre está indo embora.

Marina: Verdade.

Cássia: Ele a encontra no aerporto/porto/metrô/trem, aí dá um erro de tempo, eles se encontram.

Cátia: lol.

Marina: Hehehehehe.

Cátia: Totalmente.

Cássia: Jane, você é mais que isso.

Cátia: lololoololololololol.

Marina: Eu acho que a Fanny é a versão feminina do coronel de Razão e sensibilidade (aquele que termina com a Marianne).

Cássia: Nossa, é mesmo!

Cátia: Você acha?

Cássia: O prêmio de consolação.

Marina: O final da história deles é igualzinho.

Cátia: Gente, eu não sei se concordo.

Marina: Sim, prêmio de consolação total, hehehe.

Cássia: Discorde à vontade e nos conte, hehehehe.

Cátia: Eu tenho uma opinião muito diferente em relação a Sensibilidade e bom senso.

Cássia: Pode falar. Quando a gente diz que é clube livre, não é mentira, pode colocar os outros dois livros no meio.

Marina: Hehehehehehe.

Cátia: Eu tenho uma grande mágoa da Jane não ter desenvolvida esta parte do Coronel.

Cássia: Sério?

Cátia: Ele prometia. Sim.

Marina: Isso sim, eu achava que ele merecia que a Marianne realmente se apaixonasse por ele, e não só, ah, tá bom, caso com ele vai.

Cátia: Eu acho que S&BS, em certos aspectos, poderia ter ido além. Eu acho que a Marianne ficou apaixonada por ele, há duas alturas no livro em que Jane deixa isso meio na subtileza.

Cássia: A Cátia é fã dos amores construídos.

Cátia: Embora no fim dê a entender a parte do prémio de consolação.

Marina: Ah, num sei, eu não senti isso, hehehe.

Cátia: lol.

Marina: Assim como não senti que o Edmund realmente se apaixonou pela Fanny.

Cássia: É que eles se casam rápido, aí fica mesmo com essa ideia de que a Marianne pensou “não tem o outro, vai tu mesmo”. O Edmund gostava dela como uma doce irmã, uma companheira de vida.

Cátia: Eu concordo com a teoria de prémio de consolação para a Fanny, no caso do Coronel, não.

Marina: Mas como eu sempre digo, eu acho que como eu leio em inglês, porque aqui só encontro em inglês, talvez eu perca algumas coisas.

Cássia: Terei de reler para perceber as sutilezas.

Cátia: Não, Marina, pode ser que tenhas razão.

Marina: Eu também, teria que reler.

Cátia: Mas há o momento em que ela descobre o passado do coronel e o que o outro cara fez.

Cássia: Mas acho que entendi a Cátia sob um outro ponto de vista.

Cátia: Que fez ela recapitular.

Cássia: Porque assim: a Marianne sofreu pelo Will, o Edmund se decepcionou com a Mary. São coisas diferentes. A Marianne quase morreu de tristeza, o Edmund teve uma certa arrogância, do tipo “Mary, você não é elevada o suficiente para mim”. Poxa, ele não tinha percebido o caráter dela até aquele momento?

Cátia: Sim, ele percebia perfeitamente, mas estava a espera que ela cedesse por causa dele.

Cássia: É, o Edmund teve aquele lado de algumas mulheres “ele vai mudar por mim”.

Cátia: Sim.

Marina: Sim, mas aí tem também a questão que homem e mulher sofrem de maneiras diferentes, homem não se acaba de sofrer, porque normalmente tem um ego muito grande, que faz com que ele pense que ela que está perdendo.

Cátia: Ela era detestável e pedante, mas pelo menos nunca fingiu o que era.

Marina: Verdade.

Cássia: Mas, Marina, a Mary não fez nada, na verdade.

Cátia: Sim, é verdade, Marina, o sofrimento é diferente.

Cássia: O Will sim. A Mary só não correspondia à idealização do Edmund, mas não o traiu, não o enganou, não fugiu com outro.

Marina: Isso é verdade, tem razão, hehehe.

Cátia: No caso desta obra, quem fez um erro semelhante foi o Henry, o sofrimento foi indirecto.

Cássia: É verdade.

Cátia: O Henry fez outras pessoas sofrerem.

Marina: Verdade. Nossa, ele fez toda a ala feminina sofrer, hehehe.

Cássia: É, o Henry mexeu com a vida de várias pessoas. Hauhauauhauhuhahua.

Cátia: Porque no fundo, o Ed não ficou com a Mary um pouco também por causa da vergonha.

Marina: Teve uma hora que só faltava ele dar em cima da irmã.

Cássia: Nossa, perdão, eu li “Ele fez toda a ala feminina”. Não li o sofrer, por isso eu ri.

Marina: Hahahahaha.

Cátia: lol. lolololololol.

Cássia: O Henry pegava até gripe, gente.

Cátia: Hahahahahahahahahahahaha.

Cássia: Era parecido com mulher, pronto.

Marina: Tem sombra, tá pegando.

Cátia: Hahahahahahahahahahahahahahahaha.

Cássia: Difícil casar com um homem assim.

Cátia: É.

Marina: É, né.

Cátia: Mas, tadinho, ele se esforçou. A carne é fraca.

Marina: Gente, que dó da Fanny quando o tio dela acaba com ela por ela não querer casar com ele.

Cássia: Nem vem defender o Henry, Cátia! Hehehe.

Cátia: Achei essa cena excelente quando eu li. Gente, eu gosto do Henry, eu confesso.

Cássia: Eu estou brincando. Eu também gosto, acreditei que ele tinha mudado.

Cátia: É daqueles canalhas tipo E o vento levou.

Cássia: E fiquei beeeeeeem decepcionada porque não casaram.

Marina: Cássia, mas ela tem razão, depois que o cara só ouve não não não não, chega uma hora que ele pensa, ah, ela não vai querer nunca, melhor deixar para lá.

Cássia: É, na verdade, foi isso mesmo que aconteceu, tem limite, né.

Cátia: É. Fanny boba.

Marina: Bobona.

Cássia: Bobona master. Vamos reescrever o livro.

Cátia: Mas eu também confesso que me apaixonei pela Fanny, apesar dela ser boba.

Marina: Hahaha.

Cátia: Vamos!!!!

Cássia: Fanny e Henry.

Marina: Eu também gostava dela, mas às vezes me dava nos nervos.

Cássia: Dois “y” unidos no amor.

Cátia: Jane Jane, devia estar a pensar no Lefroy. Não sei o que vocês pensam, mas eu achei a Fanny muito complexa.

Cássia: O Google me contou quem foi Lefroy.

Cátia: E eu não estava à espera disso.

Cássia: Ela era complexa mesmo.

Marina: Eu também achei ela bem mais complexa que as dos outros livros, porque as outras sempre foram bem 8 ou 80, ela não, ela tinha vários lados.

Cátia: Sim. O próprio livro tinha tempos lentos e depois ficava meio frenético, achei interessante.

Cássia: Eu li umas análises sobre o livro, aí um deles dizia algo bem legal: não há um “tema” em Mansfield Park.

Cátia: Concordo.

Cássia: Há várias questões abordadas ali.

Cátia: Há vários, sim.

Marina: Sim, é verdade.

Cássia: Porque em Razão e sensibilidade (nossa, como é mesmo em Portugal?) é essa dualidade. Em Orgulho e preconceito, o nome já diz, em Mansfield Park, não.

Cátia: (Sensibilidade e bom senso)

Cássia: (Pronto, não esqueço mais!)

Cátia: Concordo com essa análise. Eu acho que isso tornava o livro muito interessante porque o tom, a voz, era assim um pouco como se a Jane tivesse a falar directamente para nós. Meio peça de teatro mas sem o formato de teatro, não sei se me explico bem.

Marina: Hehehe, eu entendi. Mas devo confessar, alguns momentos eu achava muito arrastado (mas de novo, pode ser porque era em inglês, hehehe).

Cássia: Eu acho Jane arrastado mesmo.

Marina: Tinha hora que eu achava que num ia acabar nunca.

Cátia: Não, tens razão, Marina.

Cássia: Isso eu já entendi, hehehe.

Cátia: Há alturas em que fica lento.

Marina: Lento, fica em câmera lenta isso sim, hehehe.

Cátia: Como a parte da ausência do Sir Thomas e aquela coisa do teatro em casa, parece que nunca mais acaba.

Marina: Sim, e eu ficava me perguntando, mas isso tudo tem um objetivo nesse livro, hehehehe. Depois eu vi que tinha, mas tinha horas que parecia que estava ali de enfeite.

Cátia: Eu pensava isso enquanto lia, isso que você disse, Marina. Mas logo a seguir eu entendia que era para entendermos o carácter de cada personagem e depois entrava um ritmo mais acelerado.

Cássia: Se a gente não entendesse o caráter de cada um, não entenderia os acontecimentos todos, eu acho.

Cátia: Sim.

Marina: Sim, mas eu não gostava quando ela passava muito tempo sem falar da Fanny, ou sem acontecer nada com a Fanny, eu queria saber o que acontecia com ela, com os outros não me importava muito, hehehehehe. É verdade, Cássia.

Cássia: Vamos fazer uma versão resumida para a Marina, só Fanny Price.

Marina: Hahaha.

Cátia: Comigo aconteceu o oposto.

Marina: Isso.

Cátia: lololololololololol.

Cássia: Qual final você quer? Para a Cátia, vamos mudar o final.

Marina: Opa.

Cátia: lololololololololol.

Marina: Casada com o Henry, com certeza.

Cássia: Exatamente. E volta triunfante para visitar a tia.

Cátia: Com certeza.

Marina: E que aquela Tia Norris fique pobre e vá morar com a irmã pobre dela.

Cássia: Mas em vez de se vingar, a trata com respeito e todos ficam com cara no chão.

Cátia: Em centenas do baile ao lado do marido gostosão.

Cássia: É isso aê!

Marina: Huahauhauhauhuaha.

Cássia: Porque o Henry no filme, nossa.

Cátia: Ups, com a emoção até escrevi errado.

Cássia: Noooooossa.

Cátia: Gente, no filme o gostosão é o Tom, mesmo sendo bêbado.

Cássia: Quando ele apareceu, eu pensei “você, eu, nós dois, juntos, agora”. O Tom também era lindo, nossa.

Cátia: Hahahahahahahahahahahahahaha.

Cássia: Mas eu queria o Henry.

Cátia: Que homem é aquele????

Cássia: Que homem é aquele? O meu futuro marido! Prazer, Fanny Price.

Cátia: lololololololol.

Marina: Gente, eu não vi o filme, então não posso dizer, mas quem eu queria para mim era o do filme de Orgulho e preconceito, o que fica com a Lizzy.

Cátia: Em relação ao filme, eu tenho outro protesto. Ahhhh, Marina, quem não quer??????? E eu sou casada.

Marina: Hahahaha. E eu sou quase casada, hahaha, mas eu quero ele mesmo assim.

Cátia: O que vocês acharam do Mr. Thomas?

Cássia: Quem era ele mesmo?

Cátia: O pai.

Marina: Eu gostava dele quando ele ignorava a Tia Norris, quando ela era ruim com a Fanny.

Cátia: Pai de Edmund.

Cássia: Mas ele era bem, como eu diria.

Marina: Ele era o único que “defendia”, pelo menos ele falava alguma coisa.

Cássia: Eu acho que ele defendia naquelas, sabe.

Marina: Sim, beeeeem naquelas, mas era melhor que os outros que não faziam nada, hehehe.

Cássia: Mas ele tinha uma visão soberba das coisas.

Marina: Isso é verdade.

Cátia: Eu acho duas coisas: não entendia porque todo mundo não gostava dele, e não entendia porque ele por vezes demonstrava quase que um medo da Tia Norris. Sim, tinha mesmo.

Marina: Acho que o povo não gostava dele, porque ele era meio rígido e era o chefe da família.

Cássia: Era a autoridade pelo medo.

Marina: Quem dá a última palavra.

Cátia: Mas ele não parecia tão rígido. Ele tinha regras, mas não era tirano.

Marina: Bom, quando ele chegou acabando com o teatro para mim foi muito rígido, tipo, eu não via nada demais naquilo.

Cássia: Ah, mas pensa, você está longe de casa há muito tempo, chega e está tendo peça?

Cátia: Porque você olha com os olhos contemporâneos.

Marina: Hehehehehe, uai, senta e aproveita a peça.

Cátia: O teatro não era para fidalgos.

Marina: Isso é verdade, mas era uma peça caseira.

Cátia: Então era quase como se rebaixar.

Marina: Hehehe, só de brincadeirinha.

Cássia: Marina, sua opinião não vale, você é atriz.

Cátia: Sim, mas tem aquela coisa do recato.

Cássia: Hehehehehehe.

Marina: Hahahahaha.

Cátia: lolololol.

Cássia: Nunca verá nada demais em teatro, hahahaha.

Marina: Verdade.

Cássia: Eu estou brincando com você, fofa.

Cátia: Uma moça não podia nem tocar na mão de um rapaz.

Cássia: É mesmo.

Marina: Hehehe, eu sei, bem.

Cássia: Que dirá fazer cena romântica.

Cátia: Imagina o pai chegar e ver a moça nos braços de um estranho.

Marina: Tá bom, vai. Mesmo assim.

Cátia: Mas ele era até amável.

Marina: Continua sendo um estraga festa.

Cátia: lol.

Cássia: Ai, esse pessoal libertino do teatro, viu.

Marina: Hehehehehehe.

Cátia: Hahahahahaha.

Cássia: Que acha essas “pouca vergonha” uma coisa normal.

Cátia: lol.

Cássia: Por isso o mundo está desse jeito, hehehehehe.

Cátia: lololol.

Marina: Pior que é.

Cássia: Deixa de ser bobaaaa, hehehehe. Sério agora, nem tinha papel para a Fanny.

Marina: Sim, mas ela num queria também.

Cássia: É, tem isso, nem combinava com ela.

Cátia: A Fanny até era bem parecida com o tio.

Marina: Não. Sim, muito recatada, hehehe.

Cássia: É mesmo. Parece que ela tinha guardado alguns valores dele.

Cátia: O Edmund, estou convencida, era só fachada.

Marina: O Edmund também tinha, tanto que ele não queria a peça no começo.

Cátia: Mas ele foi volúvel, ele não foi fiel aos seus princípios.

Marina: Eu num acho, eu acho que ele cedeu porque estava caidinho pela outra lá.

Cássia: É verdade… ele oscilava por conta da outra lá.

Cátia: Convenhamos, era um banana.

Cássia: Issooooooooooo, bananão.

Cátia: Foi o homem Austen que eu menos gostei até agora.

Marina: Ah, mas, gente, não vamos ser tão duras, a gente vive fazendo isso, vai, quando a gente se apaixona. Principalmente no começo, a nossa tendência é relevar umas coisas, aceitar outras, porque o amor é cego, hehehehe, mas concordo que ele é um banana.

Cássia: Faltou fibra nele. Mas aí que tá… durante um tempo da vida, tudo bem.

Cátia: Talvez… mas um homem deve ter carácter, um homem deve ser um Darcy.

Marina: Claro, isso sem dúvida.

Cássia: É isso mesmo…

Marina: Ai, deus, o Darcy.

Cássia: Ele parecia um menino apaixonadinho.

Marina: Nem me fale do Darcy que eu começo a sonhar, hehehe.

Cátia: E vocês ainda não chegaram a Emma.

Cássia: Darcy. Estou me sentindo a promíscua.

Cátia: com o Mr Knigthley.

Cássia: Darcy, Henry, Richard [de North and South].

Cátia: Uuuuuuuuuuuiiiiiiiiiii.

Cássia: Eu preciso de um só, gente. Não consigo me dedicar a vários.

Marina: Eu e Darcy.

Cássia: Pronto, perdi um.

Cátia: Ah, Cássia, o Knigthley é meu.

Marina: Hehehe.

Cássia: Calma, quem é esse?

Cátia: Não vem que não tem. Da Emma.

Cássia: Aaaaaah, tá. Pronto, já vou olhar para ele com respeito.

Cátia: Eu tenho uma grande paixão por ele.

Cássia: Nem vai rolar amor quando eu ler o livro.

Cátia: Hahahahahahahahahahahahahahaha.

Cássia: Agora eu vou ficar pensando “ele é da Cátia, ele é da Cátia”.

Marina: Hahahaha.

Cátia: Pior é se você diz que ele é banana também. lololololololololololol. Sabe o que eu acho lindo nos livros da Jane?

Cássia: Hehehehehe. O quê?

Marina: Diga.

Cátia: E esse também tem. As cartas. Há sempre uma carta.

Marina: Eu gosto das cartas também.

Cátia: Há sempre uma carta que decide algo.

Cássia: É mesmo!

Marina: Verdade.

Cássia: Não tinha pensado nisso.

Cátia: E, muitas vezes, são os personagens masculinos que as escrevem.

Marina: É mesmo.

Cátia: Aquela parte do livro em que Fanny estava longe de Mansfield e só sabia das coisas por cartas criou em mim uma aflição.

Cássia: Gente, pensa, naquela época as pessoas só sabiam das coisas tempos depois.

Cátia: Sim.

Marina: Eu fiquei com dó dela sabe, naquela hora, tipo ela foi para lá, pensando que ia encontrar o amor de mãe e de família e foi aquilo.

Cátia: Uma decepção, né?

Marina: Muito, tadinha.

Cássia: A família dela nem queria saber dela também.

Cátia: Só mesmo a irmãzinha dela é que safou.

Cássia: Vamos combinar… a Fanny sofreu.

Marina: Era como se ela não tivesse lugar no mundo.

Cátia: Sofreu.

Cássia: É mesmo.

Cátia:

Cássia: Ninguém a queria em lugar algum.

Marina: Sim.

Cátia: É mesmo, Marina. Agora você disse tudo.

Marina: Em nenhum lugar ela se sentia amada e querida.

Cátia: Mas o lindo, é que no fim…

Marina: Um lugar era menos pior que o outro.

Cássia: Não mesmo.

Cátia: As pessoas se deram conta de como ela era importante.

Cássia: Aí, no fim, ela fica com o único que lhe deu um pouco disso.

Marina: Verdade.

Cátia: Então se ela começou quase como uma criada, terminou amada como uma filha. Achei isso lindo.

Marina: Isso foi.

Cátia: Olha, Fanny é fascinante. A estrutura do livro e a forma como Jane fala no livro também.

Cássia: Que lindo a maneira que você contou.

Cátia: Só o Edmund é que tava bem a partir pedra.

Marina: Mas a vida muitas vezes é assim mesmo, né, muitas pessoas só dão valor em outras pessoas quando elas se encontram longe.

Cátia: Sim.

Marina: Quando a pessoa não está mais ali do lado o tempo todo.

Cássia: O famoso “só dá valor quando perde”.

Cátia: É verdade.

Marina: Isso.

Cátia: Acho que Jane se mostrou neste livro muito requintada na forma como demonstrou o carácter e os valores, mais do que nos outros livros.

Marina: Eu me identifiquei muito com essa parte do livro, porque sei como é se sentir totalmente fora de lugar, hehehe.

Cátia: Sim.

Marina: Verdade.

Cátia: Reparem, o importante deste livro não é a história de amor.

Cássia: Uma das coisas mais bacanas da obra da Jane…

Cátia: Aliás, é secundário.

Cássia: é como o caráter permeia tudo.

Marina: Não é mesmo (foi para a Cátia isso), hehehehehe.

Cássia: Hehehehehe.

Cátia: Ela delineou carácter e falta de carácter. Nos livros anteriores, o amor esteve sempre por detrás de tudo.

Marina: Sim, devia chamar caráter e falsidade, hehehe.

Cátia: Hehehehehehe.

Cássia: Hehehehe! Mas falei de caráter de uma maneira geral, o que constitui uma pessoa.

Cátia: Sim, eu entendi.

Marina: Entendi também.

Cátia: Ela constroi muito bem isso.

Cássia: Ah, então beleza!

Marina: Acho que ela também quis mostrar que não é porque uma pessoa teve uma educação exemplar que é uma pessoa de bom caráter.

Cátia: Gente, até infidelidade ela colocou nesse livro!

Marina: Porque as primas da Fanny eram bem uózinhas.

Cátia: Sim, é verdade, Marina. As primas eram superficiais.

Cássia: Talvez nesse livro, por enquanto, é onde está mais claro essa questão de diferença de classes.

Cátia: Em Emma também vai ter.

Marina: Sim, fica beeeeem claro.

Cátia: Vais notar muito isso.

Cássia: De que como dinheiro e status não significam educação e caráter.

Marina: Isso, assim que se fala. Falou pouco mas falou bonito, hehehe.

Cátia: É tão difícil o que nos leva a ter carácter e educação.

Cátia: Conclusões sobre o livro?

Marina: Conclusão: Edmund = banana; Norris = odiosa; Fanny = complexa; Henry = gostosão. Brincadeira, gente.

Cátia: Quem começa a concluir? Contraditório, né…

Marina: Hehehehe.

Cássia: Hehehe, boa! Acho que Mansfield Park, em resumo, é uma amostra de como a sociedade se comporta. Seja na Inglaterra do século XIX, seja no mundo de maneira geral, porque o que está lá não difere muito do que vemos hoje.

Marina: Sim. E que ter berço não quer dizer ter educação.

Cássia: Exatamente. E que dinheiro não compra o principal.

Marina: Sim. E  que as pessoas devem ser fiéis aos seus ideais.

Cátia: Bem, como eu disse, para mim Mansfield Park foi fascinante quanto a construção da obra e dos personagens. Achei Fanny interessantíssima. Acho que é um desfile de defeitos e virtudes. De como os nossos sentimentos e valores podem facilmente ser flutuantes. E concordo com vocês quanto esta questão da educação, do dinheiro e da nossa contemporaneidade ser ainda assim.

Cássia: “De como os nossos sentimentos e valores podem facilmente ser flutuantes.” Sensacional isso!

Marina: É isso mesmo.

Cássia: Porque a gente sempre acha que sentimento e valor são pilastras que não saem do lugar.

Cátia: Exacto. E alí a firmeza só era da Fanny e de Sir Thomas, todos os outros flutuaram.

Marina: É. Para mim, acho que também passou uma mensagem de que se você for fiel a você mesma, você vai conseguir o que quer.

Cátia: Sim, concordo.

Cássia: Apesar de que… no amor, nem sempre é assim, né.

Cátia: Acho até que o ser fiel a si própria era algo tão enraizado em Fanny que ela não concebia ser de outra forma. Por vezes, o problema é no amor ser assim.

Marina: Ah, sim, no amor nem sempre é assim, porque tem a vontade da outra pessoa, né. Também acho, Cátia.

Cássia: É, Cátia, disse tudo, o problema é no amor ser assim.

Cátia: É, menina, se amar fosse fácil não se lia Jane Austen.

Marina: Hehehe.

Cássia: Frase da Cátia para a vida. Vamos repassar!

Cátia: Hahahahahahahahahahaha.

Cássia: “Se amar fosse fácil não se lia Jane Austen.” Cátia Pereira

Cátia: A minha pergunta agora é: qual é o próximo livro?

Cássia: Verei agora, querida, um segundo. Acho que é Emma, mas deixa eu confirmar.

Cátia: Uhuhuhuhu, Mr Knigthley, ai ai.

Cássia: Nota mental: “Cássia, não se apaixone pelo Mr. Knigthley”.

Cátia: Hahahahaha. Bem, é capaz de vocês não acharem graça a ele. Todo mundo gosta mais do Darcy.

Marina: Ninguém rouba meu coração do Darcy.

Cátia: O Darcy só tem um defeito. Sabe qual é??

Cássia: Próximo livro: Emma. Qual é?

Cátia: O nome…

Marina: Hahaha.

Cátia: Que nome é esse??

Marina: É, né.

Cátia: Darcy???????????

Marina: Meio feminino demais.

Cátia: Meio esquisito. Um cara todo bam bam bam.

Cássia: Huahuhaauhauhauhauha.

Cátia: E se chama Darcy???????

Cássia: Eu achando que era O defeito, e é o nome.

Marina: Hehehehehehehe.

Cátia: Hahahahahaha. A gente imagina a Lizzie a dar um beijo ao Darcy. E depois “ai Darcy amor”. Que coisa….

Cássia: Eu tô rindo alto, socorro.

Marina: Pior que isso só os homens italianos aqui que tem nome de mulher.

Cátia: Eu não sei onde Jane estava com a cabeça. Mas aí se perdoa… eles são italianos. Agora um inglês…

Marina: Ah, não perdoa não.

Cátia: chamado Darcy?????

Marina: Se o Francesco se chamasse Andrea eu num ia namorar ele não, não ia mesmo, não ia conseguir.

Cátia: Hahahahahahahaha. LOLOLOLOLOLOLOL.

Marina: Hehehehe.

Cátia: Você dava um apelido.

Marina: Nem.

Cássia: Huahauhuahahuahua.

Marina: E se chamasse Simone. Gente, eu tinha uma amiga com esse nome, não ia rolar. Gentem, eu vou. Beijoooooooos.

Cátia: Bjs! Fui!

Cássia: Beijos imensos nas duas.

Lista dos livros de Jane Austen

  • Razão e sensibilidade
  •  Orgulho e preconceito
  •  Mansfield Park
  •  Emma
  •  A Abadia de Northanger
  •  Persuasão

Os livros serão lidos na medida que foram escritos. Como não há certeza se essa ordem corresponde à realidade, pelo menos mantivemos as datas em que foram publicados. A nossa ideia é “entender” as mudanças literárias de Jane Austen pela sequência de seus livros.