Não haveria

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Livro 7: O amor nos tempos do cólera

O encontro aconteceu dia 29 de maio com participação de Cássia, Cátia, Laís e Nina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: E aí, quem começa? Já vou avisando que hoje vou ser do contra, só para movimentar.

Nina: Hahaha.

Laís: Então, você começa.

Cássia: Não, não. Pessoas do contra reagem, alguém precisa começar.

Cátia: Há alguém do contra?

Laís: Então, a Cátia, que falou que o livro estava sonhado. Quero saber por quê.

Cátia: Sonhado?

Laís: Você escreveu isso no Twitter, eu acho, foi algo assim.

Cátia: Ops… já não me lembro o que escrevi.

Cássia: Então, vai, eu começo e já vou pegando na jugular.

Cátia: Oooobbbbaaa.

Nina: Eita!

Cássia: Florentino Ariza realmente amou Fermina Daza todo esse tempo OU foi por que ele não a teve esse tempo todo?

Cátia: Já tinha saudades disto… uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, boa.

Cássia: Estou falando, estou má hoje.

Laís: Eu não diria que não.

Cássia: Desenvolve. Nada de meias palavras, vamos lá, gurias.

Laís: Seria possível um capricho de 50 anos? Não sei.

Cássia: Depois eu falo o que acho. Não falei em capricho, mas a paixão cresce na ausência e na ilusão.

Nina: Eu acho que ele ficou obcecado por ela.

Cátia: Eu tenho medo de dizer o que eu penso, porque eu senti-me extremamente dividida, extremamente.

Cássia: Ué, Cátia, conte os dois lados, não tem problema, eu tenho dois lados também.

Laís: Diga.

Cátia: Eu acho que ele se apaixonou por uma Fermina que não existe. Por uma idéia. Ele era um poeta e uma pessoa assim diviniza a paixão.

Laís: Estava pensando mais ou menos nisso agora.

Cátia: Por outro lado, ele tinha esse lado obsessivo que a Nina referiu, e aí o que poderia ser lindo, e é muitas vezes, torna-se um tanto doentio.

Cássia: Eu acho que toda paixão tem um ‘que’ de obsessão.

Cátia: Sim.

Laís: Claro.

Nina: Sim.

Cátia: Mas a paixão, ao contrário do amor, esgota-se.

Cássia: Exatamente. Por isso ela se alimenta na ausência. Aliás, nada tem mais força do que aquilo que não foi vivido.

Laís: Por isso que eu questionei os 50 anos; não há paixão que dure isso.

Cátia: Exacto!

Cássia: Nenhuma realidade pode disputar com a imaginação. Claro que dura, gente. Ele amava uma ideia…

Nina: Exatamente.

Cássia: e uma ideia dura uma vida.

Cátia: Isso. Essa é minha visão, ele criou uma musa.

Nina: Ele tinha uma ideia formada e passou a perseguir aquilo.

Cátia: A deusa coroada.

Cássia: Exatamente, uma musa, a colocou num pedestal.

Cátia: E isso era o motor da vida dele.

Cássia: E acho muito bacana o Gabriel (a íntima!) contrapor essa paixão do Florentino com o amor do Juvenal.

Laís: O cúmulo disso foi quando ele resolveu comprar o espelho do restaurante só porque ela se refletiu nele por duas horas.

Cátia: Convenhamos, se ele amasse mesmo Fermina, mesmo sendo homem, não andava atrás de tudo o que era rabo de saia. Sim, Laís, também achei.

Cássia: É, ele não era um W. [de Persuasão]. Então, ele tinha “duas vidas”…

Cátia: Não…

Cássia: a paixão dele por Fermina, de um lado, e as outras mulheres reais, do outro. Aí, dá para viver com essa musa a vida inteiraaaaa.

Nina: Ô!

Laís: Não consigo conceber como alguém consegue viver com tantas reservas.

Cátia: lol.

Cássia: Reservas?

Laís: Ter duas vidas paralelas.

Cássia: Não são vidas paralelas. A gente vive isso o tempo todo, a realizada e a imaginada, a vida vivida e a vida sonhada.

Cátia: Eu achei mais impressionante o segredo que eles mantiveram.

Cássia: Uns mais outros menos.

Cátia: Do género, além do pai, da tia e da mãe dele ninguém nunca mais soube e isso num meio pequeno…

Cássia: O segredo aumenta ainda mais a força da história, eu acho.

Cátia: Sim.

Laís: É do segredo que eu falo, não da imaginação. O Florentino tinha uma vida pública, mas saía com meio mundo e ninguém sabia. Eu sei que isso é para lá de comum, mas não entra na minha cabeça.

Cátia: Clandestinidade.

Cássia: Laís, a gente não conta tudo o que faz, hehehe.

Cátia: Mas eu acho que até os casos dele não eram muito divulgados.

Cássia: Aliás, é assim que deveria ser.

Nina: Pensando assim, é bem questionável a ideia de que ele esperou por ela 50 e tantos anos, não?

Cátia: Porque convenhamos até pedofilia ele arriscou.

Nina: Isso.

Cássia: É mesmo, a menina do começo.

Cátia: A menina do fim, a protegida.

Cássia: Não é do começo? Uma que morreu, não foi?

Cátia: Não, no fim. Sim.

Laís: No fim.

Cássia: De onde tirei que ela aparece no começo? Dã! hehehe.

Laís: Concordo, Nina.

Cátia: Eu vou vos dizer, eu amei a sequência em que Fermina volta para casa e o Florentino a vê na rua e a persegue. Acho esta descrição fabulosa, uma das sequências mais extraordinárias que eu já li.

Cássia: Nina, eu acho que o Gabriel teve uma grande sacada para a gente acreditar no amor do Florentino. Quando eles ainda são novos, né, Cátia?

Cátia: Sim, antes dela casar, quando ela diz-lhe que se precipitou.

Cássia: Quando a gente está lendo o livro, parece que vivemos aquele tempo… Parece que  a gente acompanha toda a espera do Florentino.

Cátia: Sim.

Cássia: Daí, a gente praticamente vive aquele amor.

Cátia: Sim, totalmente.

Cássia: Por isso que o filme é uma meleca, hehehe, não tem força.

Nina: E quando ele tomou o fora? A gente sente junto!

Cássia: Exaaaaaaaaaaaatamente.

Cátia: Sim…

Cássia: Dói demais.

Cátia: Aí está o contraponto, com a Fermina eu não senti nada.

Laís: Ô se dói.

Nina: E no livro a gente se encanta pelo Dr. Juvenal, no filme, não.

Cátia: Simmmmmmmmmmm, adorei o Juvenal.

Cássia: Sinceramente? Eu casaria com o Juvenal.

Cátia: Simmmmmmmmmmmmm.

Nina: No filme, ficou como se um fosse bonzinho e o outro o que roubou a Fermina. Eu também.

Cássia: É mesmo! Até o ator tinha cara de canastrão.

Cátia: O filme não tem nada a ver.

Cássia: A Fermina parece viver duas das grandes fantasias de uma mulher: um casamento sólido e duradouro e uma paixão fulgás e fulminante.

Cátia: Tirando o Javier Bardem que apesar de não ser um Florentino fez um papel digno.

Nina: Qualquer um que fica contra o Javier Bardem sai como vilão, hahahahaha.

Cátia: – Ai, Javier… *suspiros… –

Cássia: Javier, vem-ni-mim.

Nina: Mas eu preciso confessar uma coisa:

Cátia: Hahahahahahaha.

Cássia: Confesse, Nina.

Cátia: Casa-comida-roupalavada.

Nina: A Fermina é a personagem que me desperta alguma antipatia.

Cássia: Por quê?

Nina: Não sei. É como se eu não confiasse nela, sabe? hahahaha.

Cássia: Taí, tem razão, tem um ponto falho: em momento algum a gente entende por que raios ela deixou o Florentino.

Laís: Será que a altivez dela é que incomoda?

Nina: Pode ser, Laís, não sei. No filme, fica claro que ela deixa ele porque ele é feio pra caramba! Mas no livro, não.

Cátia: lol. Eu entendi a Fermina.

Cássia: No livro, a gente não tem a menor ideia. Então nos explique, Cátia.

Laís: Acho que ela deixou o Florentino porque ela percebeu a tempo que estava se correspondendo com uma ideia, e não com uma pessoa.

Cátia: Em parte, tem a ver com o que a Laís disse.

Cássia: Ah, não sei, Laís.

Nina: Só de olhar para ele? Sem conversar nem nada?

Cássia: Quando a gente está no meio da coisa, nem sempre percebe isso.

Cátia: A Fermina olhou para ele e viu que era tudo uma ilusão.

Cássia: Gente, num plim? Eles estavam juntos.

Nina: Foi porque o bichinho era feio de dar dó!

Cássia: Aí você acorda e pensa: “Ah, o cara está apaixonado por uma ideia…

Nina: Hahahahaha.

Cássia: tchau, fofo.”

Cátia: Gente, isso já aconteceu comigo.

Laís: Ela tinha mudado durante a viagem; tinha conhecido outras realidades.

Cátia: Isso.

Cássia: Ah, Cátia, então você está acima dos seres normais, sério. Estou falando realmente sério.

Cátia: LOLOLOLOLOL. Estou a me sentir um alien.

Cássia: Ainda mais que existe uma fascinação quando alguém nos ama perdidamente.

Laís: Existe mesmo.

Cátia: Reparem: ela vivia praticamente trancafiada em casa, com uma tia puritana e um pai controlador, era adolescente, foi o primeiro amor…

Laís: Ah, gente, vai que vocês nunca se perguntaram: “Meu pai, como é que eu fui gostar dessa coisinha?”

Cátia: e o primeiro amor tanto tem a força desesperadora como puff um dia a gente “olha só, foi lindo enquanto durou”.

Nina: Eu já me perguntei sim.

Cássia: Mas esse puff rola mais tarde.

Nina: Mas ela tinha acabado de chegar, Laís. Ela nem tinha visto ele.

Cássia: Eu já me perguntei várias vezes, mas depois. Isso mesmo, Nina.

Cátia: E ela nem se interessou por vê-lo, repararam nisso?

Laís: Ela o viu por cinco segundos, no portal dos escrivães; e só, finish.

Cássia: Eu entendo o que vocês dizem, mas mesmo assim acho muito pluft.

Cátia: Eu acho que a Fermina queria era não ter que casar com ninguém.

Cássia: Era uma Jane Austen.

Nina: Pode ser.

Cátia: Para mim, ela não amou nenhum dos dois.

Nina: Exatamente!

Laís: Pode ser.

Cátia: Ela se acostumou com uma lembrança…

Cássia: É mesmo, a gente não sente o amor dela nessa história.

Cátia: e se acostumou com um marido que era um querido.

Laís: Há uma pista disso quando, em certo momento, ela conclui que, casada, era uma criada de luxo.

Cátia: Sim.

Cássia: Porque a gente tem de pensar que, naquela época, casamento não era escolha…

Cátia: Ela sabia que precisava se casar para viver bem naquela sociedade e escolheu aquele que era o melhor partido.

Cássia: era destino certo.

Cátia: Gente, a Jane Austen nos persegue em Gabriel García Márquez, nossa!

Cássia: Hauaahuahuahua.

Laís: Tem uma hora em que o narrador comenta que a idade de casar era até os 22 anos.

Cátia: “A nossa vida é uma aldeia inglesa”, não é o que dizia no Clube de Leitura Jane Austen? Acho que sim, Laís, e tinha a pressão do pai.

Cássia: É? Eu não lembro, mas é genial.

Laís: Eu gosto muito como o narrador é realista em alguns momentos, principalmente quando fala sobre as viúvas.

Cátia: Sim, eu gosto muito, mas muito. Acho que é o melhor do livro, a forma como trata a velhice, a complexidade de envelhecer.

Laís: Ele fala do medo dos homens, eram as mulheres que seguravam a onda deles, para que eles conseguissem lidar com a realidade todo dia.

Nina: Concordo, Cátia.

Cássia: No fim das contas, ainda é assim, né?

Laís: Claro.

Nina: Essa narração realista é bem do autor, né?

Laís: E termina falando sobre as mulheres, que, quando os homens saíam para trabalhar, temiam que eles não voltassem nunca.

Cátia: Sim.

Laís: Acho isso genial.

Cátia: A mulher como ser frágil e ao mesmo tempo como fortaleza.

Laís: Acho que isso não muda.

Cátia: Acho que sim, Laís, tens razão.

Nina: O que me encanta no livro é que a gente vai lendo as fases da vida da Fermina e vai se encantando pelas duas. A Fermina novinha com o amor adolescente, depois o marido médico e conceituado.

Cássia: Não sei vocês, mas em tantos momentos eu me identifiquei com ela.

Nina: Com a Fermina?

Cátia: Por quê?

Laís: Desenvolve, rs.

Cátia: lol

Nina: Hahaha.

Cássia: É, com a Fermina. Não sei claramente o motivo, só com muitas sessões de terapia.

Cátia: lol

Cássia: Não sei se porque, numa fase da minha vida adolescente, havia um Florentino, ou porque eu era passional demais quando li e queria aquela calmaria com um homem bacana e generoso. Sabe essas coisas?

Nina: Eu já fui um Florentino (em menores proporções, é claro!).

Cátia: Sabe que isso nunca acaba, não é? Por muito que se case, que se tenha outros amores, este tipo de amor nunca acaba…

Cássia: Nunca acaba?

Cátia: Sim.

Cássia: Gente, tem de acabar.

Cátia: Acho que sim.

Cássia: Pre-ci-sa acabar, hehehe.

Cátia: O ter não é o mesmo que o ser.

Nina: Por isso, quando eu li o livro… quase morri! Eu não queria ser um Florentino.

Laís: Pelamor, Cátia, diz isso não.

Cátia: HAHAHAHAHAHA.

Cássia: Cátia deixando todas nós arrasadas, todo mundo chorando de noite hoje.

Nina: Hahahahaha.

Cátia: Gente, alguma vez a gente esquece um grande amor?

Cássia: Eu acho que esquece.

Cátia: Eu acho que não.

Cássia: Sério, não estou falando para posar de resolvida.

Cátia: Há algo em nós que ama para sempre.

Cássia: Ama o amor ou a pessoa? São coisas diferentes. Ama a pessoa ou uma ideia?

Cátia: Nenhum dos dois. Ama a ideia, ama a lembrança.

Cássia: Eu acho que ama a lembrança, que sempre é melhor do que quando a gente viveu.

Cátia: Sim, mas não deixa de ser uma forma de amor.

Cássia: Não sei, querida Cátia…

Cátia: Laís, agora lembrei, aquilo do sonhado tem a ver com isso, o livro me fez lembrar outras histórias. EU SOU UM FLORENTINO TAMBÉM!

Nina: Hahahahahaha.

Cássia: Não acredito! Estamos cercadas de Florentinos, hehehe.

Laís: Acho que todo mundo foi, um dia.

Cássia: Eu já fui, quero ser Fermina, eu estou quase Fermina, na verdade.

Cátia: Não sei, Cássia…

Cássia: Acho que me identifiquei porque estava vendo o meu futuro, hehehe.

Cátia: Eu não gostei muito da Fermina e eu gosto de ti.

Cássia: Aeeeeeee! Mas entenda o lado Fermina.

Laís: Como assim, Cássia? Tem um Juvenal e a gente nem sabe?

Nina: Eu também!

Cássia: O Juvenal logo vem, calma, hehehe.

Nina: Opa, um Juvenal!!

Cássia: Logo terei, só precisava deixar o Florentino de lado, né? A gente tem de deixar para lá, senão não segue.

Nina: Isso.

Cássia: Mas, Cátia, pode continuar gostando de mim, pelamor! A Fermina é só no sentido de ter um Juvenal, um homem bacana que cuide de mim. Serei legal, prometo, hehehe.

Cátia: Sim, entendam. Eu gostava do lado resolvido dela. A Fermina é resolvida.

Cássia: Isso, é esse lado resolvido dela! Ela é mesmo.

Cátia: Ela não tem preâmbulos, ela é o que é. Agora, o que me chocava um pouco nela e daí alguma antipatia também.

Cássia: Mas sabe que eu acho isso ótimo?

Cátia: É que ela é um tanto fria. Sim, esse lado é bom, mas o lado dela não sentir, eu acho que ela não sentiu nada até o fim, ela não amou.

Cássia: Eu acho que ela sentiu.

Nina: EXATAMENTE, disse tudo!

Cássia: Mas do jeito dela, sabe.

Cátia: Não quero julgá-la.

Laís: Ela não se apaixonou; mas amou, sim, na minha opinião.

Cátia: Mas o amor se reduzir ao hábito é algo que me incomoda.

Cássia: Não sei se foi bem por aí… Porque, ó, pensemos: adolescente, ela sofreu pelo Florentino, a vida dela virou um inferno por conta dele. Até que ponto esse sofrimento no amor não a tornou mais fria, como uma maneira de evitar essa dor novamente?

Cátia: Ela adorou esse inferno, acho que foi a única parte em que ela sentiu algo.

Cássia: Ninguém adora o inferno, hehehe.

Cátia: Depende… O Florentino adorou, a vida dele era de certa forma um inferno.

Cássia: Mas na nossa visão.

Nina: Não sei, acho a Fermina fria. Não sei se ela sofreu assim por ele. Acho que ela ficou encantada com o namoro adolescente sim, mas ela não gostava de ser contrariada, e foi contrariada pelo pai.

Cátia: Sim, concordo, Nina.

Cássia: Vamos pensar por um outro lado?

Cátia: E tinha o sabor do mistério de algo que ela nunca tinha vivido.

Nina: Isso.

Cátia: Porque tudo lhe era um tanto proibido.

Cássia: E é só um questionamento, tá?

Cátia: Sim.

Cássia: Por que temos sempre a ideia que o “sentir” tem de ser “extravasar”? Não sei em Portugal, mas no Brasil é muito assim, tudo é sofrido, chorado, gritado; a gente tem de mostrar passionalmente o que foi sentido.

Cátia: Eu entendo o que queres dizer.

Cássia: Há quem o viva “para dentro”, por exemplo, como os japoneses. Cansei de ouvir depois da tragédia de lá…

Cátia: Mas no livro nós lhe conhecemos o pensamento.

Cássia: “Nossa, japonês é frio, não sente.” Como, eles perderam TUDO. Eles sentem…

Laís: Por isso eu falei que ela pode ter amado, sim; não o Florentino, mas o marido.

Cássia: só não demonstram.

Cátia: Eu entendo, Laís, e concordo em parte.

Cássia: Eu acho que ela amou o marido sim.

Cátia: Acho apenas que ela se acostumou a ver o marido como o seu companheiro.

Cássia: E também acho que ela amou o Florentino. Mas, Cátia, isso é normal em muitos casamentos.

Cátia: Não sei se ela amou-o.

Cássia: Foram mais de 50 anos juntos.

Cátia: Sim, é normal.

Cássia: Mas por que não o amou? Só porque ela não suspirava todo dia?

Cátia: Não estou a dizer que não é.

Cássia: Ou porque não foi arrebatador? Construir uma vida ao lado de alguém também não é amor?

Cátia: O que estou a dizer que ela tinha pequenos gestos do quotidiano de frieza.

Laís: Para mim, é.

Cássia: Mas era o jeito dela.

Cátia: E o amor não se vê em grandes gestos mas nos pequenos, e no quotidiano.

Cássia: Sim, claro, mas cada um tem o seu jeito de demonstrar amor.

Nina: Eu acredito que ela amou o marido, mas não acho que ela amou o Florentino. Para mim, o Florentino foi só aquela coisa da descoberta, de trocar cartas porque era proibido.

Cátia: Concordo mais com a Nina.

Cássia: É, Nina, talvez eu tenha usado a palavra errada. Pode ter sido, sei lá, a paixão adolescente.

Cátia: Mas entendo o que vocês dizem.

Laís: Se ela não tivesse amado o marido, não teria voltado com ele quando ele foi buscá-la na fazenda da prima, depois da traição dele.

Cátia: Não sou radical, apenas digo que ela me passou muito de frieza.

Cássia: É mesmo, ela sofreu com essa traição. Sim, Cátia, eu entendi.

Cátia: Sim, talvez, Laís.

Cássia: O meu questionamento é só pelo fato da gente ter uma ideia do que é demonstrar amor e nem sempre isso é igual para as outras pessoas. Ser frio não significa não sentir, porque tem gente gelada por dentro que demonstra o que não sente.

Laís: É difícil para mim conviver com gente fria, mas fazer o quê?

Cássia: A frieza eu entendo…

Cátia: Sim.

Cássia: eu não entendo é a maldade.

Laís: Perfeito.

Nina: Eu acredito que ela amou o marido sim, mas isso não tira dela a característica de ser fria. Acho que ela aprendeu a amar o marido, no cotidiano mesmo, mas ela mais foi amada do que amou. Acho que ela só percebeu (ou entendeu) o que era amor quando o doutor se foi.

Cátia: Bem, eu entendo o teu raciocínio. Sim, acho que explicaste bem, Nina.

Cássia: Aí vem outra questão: há algum problema em ser mais amada do que amar? Eu já amei mais do que fui amada e, falo sério, NUNCA MAIS.

Nina: Nenhum. Eu não disse que era.

Cátia: Eu entendo o raciocínio da Cássia e da Laís, mas eu inclino mais para o que diz a Nina.

Cássia: Se eu tiver de escolher, escolho ser amada, mas sem nem piscar meus olhos.

Nina: Eu disse que ela não sabia amar (ou não sabia que o que sentia era amor).

Cássia: Será, Nina? O que significa “saber amar”?

Cátia: Amar é doar.

Cássia: E ela não se doou?

Cátia: Não.

Cássia: Foi uma vida de dedicação.

Nina: Não.

Cátia: Não acho.

Cássia: Ai, gente, como não?

Cátia: Ela cumpriu o papel dela como esposa, o papel social, o papel de dona de casa.

Cássia: E o que difere isso da doação?

Nina: Uma vida de dedicação num casamento de antigamente era mais obrigação que amor.

Cássia: Como a gente qualifica o que uma pessoa faz? Gente, calma, não confundam. Se for assim, nenhuma mulher amou no passado, só cumpriu obrigação.

Nina: Não, flor, estamos nos referindo à Fermina.

Laís: Não que ela fosse vítima, longe disso. Mas vocês não acham que em alguns momentos ela se sentia oprimida pela vida do marido? Pelo prestígio, pela posição social, pela paz que eles não tinham porque todo mundo ficava na sombra deles?

Cássia: Ninguém, em momento algum, pode afirmar isso.

Cátia: Não concordo.

Cássia: Gente, mas isso pode acontecer em qualquer casamento em que um tem mais “poder social” que o outro.

Nina: Eu estou afirmando o que Fermina Daza representou para mim, entende? Pode não ser a personagem para você, ou para a Cátia, mas é o que ela passou para mim.

Cátia: Laís, eu acho que isso advinha do facto dela, no fundo, não ter vocação para ser casada.

Cássia: Claro, Nina, eu entendi. Só estou questionando e afirmando que, para mim, foi diferente disso.

Cátia: Nossa, Fermina nos faz ferver e isto é uma rima fraca.

Cássia: Faz porque nos coloca como protagonistas, porque somos mulheres, porque não somos mais meninas…

Laís: Talvez, Cátia; mas não sei se o que ela desejava era não ser casada, tenho dúvidas.

Cássia: Porque todas nós já nos apaixonamos e tivemos relacionamentos, e quando questionamos a Fermina, a gente se questiona ao mesmo tempo, é um “o que eu faria no lugar dela”.

Cátia: Laís, eu acho que ela não queria ser casada mas tinha de ser, para sobreviver em sociedade.

Laís: É uma possibilidade.

Cátia: Bem, mas, Cássia, você acha que ela amou e que ela se doou?

Cássia: Acho… Dentro do que ela podia, dentro do que isso significava para ela, ela foi uma boa mãe e uma boa esposa, e poderia não ter sido.

Laís: Concordo com a Cássia.

Cátia: Sim, isso é verdade. Mas é curioso, que até com os filhos eu acho-a fria.

Laís: Falando em filhos, devo dizer que eu achei a nora dela uma graça; a única que no fim das contas não a recriminou por causa do Florentino.

Cátia: Sim, o que é fora do normal. Geralmente, este é um relacionamento que nem sempre dá certo. Foi, no fundo, a sua única aliada. Deixem-me partilhar uma ideia que me veio à cabeça durante a leitura. Enquanto a história evoluía, eu pensava em como achava o Florentino feminino e a Fermina masculina…

Laís: Nossa, isso não me passou pela cabeça, rs.

Cássia: Boa! Tem razão.

Cátia: Florentino tinha uma forma de sentir muito de mulher, tirando a promiscuidade, e a Fermina era muito impessoal, muito prática, muito pés no chão, uma forma um tanto masculina de ser.

Nina: Verdade.

Cátia: E foi uma inversão de papéis que achei interessante.

Nina: E isso mexe muito com quem lê.

Cássia: Muito bom, é bacana pensar nisso. E é legal a gente perceber que muito da nossa percepção tem a ver com a ideia que temos do que é ser homem e do que é ser mulher.

Cátia: O que faz com que os dois estivessem deslocados no seu tempo, espaço e vidas e, portanto, ambos frustrados.

Laís: Gostei da reflexão.

Nina: Isso.

Cátia: Sim.

Cássia: Se fosse homem, Fermina não seria vista como uma pessoa fria…

Cátia: E talvez isso faça com que seja difícil definir Fermina. Sim.

Cássia: E se fosse mulher, Florentino não seria visto como uma pessoa passional.

Cátia: Nem obcecado.

Cássia: Exatamente. É normal uma mulher “esperar pelo amor”, como a gente falou aqui, todas nós fomos Florentino.

Laís: Como obcecado, seria visto sim.

Cátia: Sim, totalmente.

Cássia: Não sei, Laís, a gente aceita a mulher apaixonada.

Laís: Mas reconhece quando passa da conta.

Nina: Mas a gente percebe a mulher obcecada, né? hehehe.

Cássia: Só se ela deixa muitas pistas.

Nina: Ixi! hahahaha.

Laís: Falo isso por causa da minha autocrítica.

Cássia: Mas você tem autocrítica, hehehehe.

Cátia: Um homem obcecado é um homem obcecado, uma mulher obcecada é uma mulher histérica.

Cássia: É mesmo, hehehehe.

Nina: É verdade.

Cássia: E mulher histérica é quase pleonasmo.

Cátia: lol

Laís: Credo.

Cássia: Laís, estamos falando do senso comum, hehehe. Não disse que concordo, não estou aqui defendendo a Fermina?

Cátia: Vamos combinar…

Laís: Eu sei, Cássia; relaxa, foi só uma observação.

Cássia: Claro, claro, mas pensei que você tivesse entendido errado.

Cátia: o Florentino era um promíscuo, pedófilo, adorava uma festa privada, mas a forma apaixonada dele ser, a sua poesia e a sua entrega a um sentido faz com que nós esqueçamos as suas falhas e nos identifiquemos com o seu sofrimento. Além dele ter sido um excelente filho.

Cássia: Cátia, nós temos fascinação pelos apaixonados. Pessoas que seguem seus impulsos são mais adoradas que aquelas que se impõe regras e afins.

Nina: Veja Marianne Dashwood, por exemplo.

Cássia: É mesmo.

Cátia: Sim.

Cássia: É mais fácil gostar dela que da Elinor.

Laís: Meninas, eu ficaria aqui durante horas conversando com vocês, mas preciso ir.

Cátia: Bem, eu sempre gostei mais de Elinor.

Cássia: Mas você tem outra visão da vida, Cátia! hehehe. Estamos falando do senso comum.

Cátia: Beijoca, Laís!

Nina: Beijos.

Cássia: Beijos!

Laís: Beijos, tchau.

Cátia: Sim, concedo.

Cássia: A Marianne é vista como uma pessoa que amava, a Elinor, não. A gente percebe o amor da Elinor, mas a maioria vai dizer outra coisa.

Cátia: Cara, Elinor era um vulcão.

Cássia: Por dentro. Já a Marianne era um maremoto, hehehe.

Nina: Engraçado, quando eu li o livro, eu queria ser como a Elinor.

Cátia: Marianne era um maremoto que enfraquecia ao chegar na costa. Eu também.

Cássia: Porque você estava cansada de ser Marianne, Nina.

Nina: Mas só me via como Marianne.

Cátia: Sempre quis ser como Elinor, eu nunca quis ser como Marianne.

Nina: Nem eu, mas eu era.

Cássia: Eu sempre fui Marianne, não sou mais. Agora estou até me achando fria, depois do que vocês falaram da Fermina, hehehe.

Nina: Acho que ainda tenho um pouco dela.

Cássia: Eu já não tenho mais.

Cátia: lololololol

Cássia: Afetivamente, não mais. É triste, eu sei. Meu lado Marianne foi para coisas.

Cátia: Há que ter o equilíbrio dos dois lados.

Nina: Isso.

Cássia: Sim, sim, por isso acho triste.

Cátia: Hoje em dia eu procuro buscar esta chama da Marianne, menos racional, menos Elinor.

Cássia: Na vida, eu sou uma Elinor agora. A chama da Marianne foi para coisas, não pessoas, sabe?

Cátia: Isso, por vezes, são fases. Eu já tive todas as fases Jane Austen.

Nina: Hahahahaha.

Cássia: Hehehehehe.

Cátia: Elinor, Emma, Fanny, Anne.

Cássia: Eu não, fui Marianne até os 30, já está ótimo. Ah, foi Emma, né, danada.

Cátia: Acho que todas temos de tudo um pouco, menos a Nina que de Emma nem pensar.

Nina: De jeito nenhum! hahahahaha.

Cátia: lol. Eu de Emma tenho o cuidado com o pai.

Cássia: Emma e Nina, nem um vestígio de amor.

Cátia: Olha, Nina, que um Mr. K. é tudo!

Cássia: Eu desencanei do K.

Cátia: Eu de Emma tenho também um Mr. K.

Nina: Pois é, mas eu aceito o capitão, hahahaha.

Cátia: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, aí tudo bem, o capitão é tudo de bom, tirando a tentativa de ciúmes.

Cássia: Agora, só o W.

Cátia: Mas a carta, aquela carta, uiiiiiiii, “you pierce my soul”, *suspirossssssssss.

Cássia: Não quero um homem que me espera por 50 anos, mas pega todas as mulheres do condado, hehehe.

Cátia: Homem de acção, por favor! LOLOLOLOLOLOL

Cássia: Prefiro o que me espera fielmente por oito.

Cátia: Florentino safado.

Cássia: Safado master.

Cátia: E ainda disse que ainda era virgem para a Fermina.

Nina: Gente, analisando friamente… Florentino Ariza era patético.

Cátia: E ela tipo, “é ruim, hein, fofo”.

Cássia: Hahahaha, essa foi ótima, Nina.

Cátia: Nossa, Nina, você destruiu o Florentino, lol.

Cássia: Gente, mas pensando friamente mesmo, ela tem razão, o cara não cresceu. Foi pegador a vida toda…

Nina: Eu gosto dele, sério, mas é verdade.

Cássia: alimentou uma paixão adolescente, mesmo sendo um idoso…

Cátia: Nesse aspecto, se pegarmos a tua ideia, Nina, o Bardem foi excelente, porque muitas vezes ele passava esta ideia.

Cássia: ele nunca cresceu.

Cátia: E agora, qual livro vamos ler? Eis a questão…