Livro 8: Cemitério de pianos

O encontro aconteceu dia 31 de julho com participação de Alex, Cássia, Cátia e Laís. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Laís: Primeiro, gostaria de dizer que esse foi o grande livro do clube pra mim. Porque não gostava da Jane, e o García Márquez que lemos eu já havia lido.

Cátia: Wow.

Cássia: Então, comece você falando dele… porque percebi que sou a única que tem restrições.

Cátia: Eu sabia!!!!!!!!!

Alex: Caramba, já começamos com revelações… rs

Cássia: Sabia o quê? Alex, aqui é cheio de emoções

Cátia: Eu sabia que não tinhas gostado!

Cássia: Por quê?

Cátia: Hahaha, porque não disseste nada, quando gostas dizes sempre algo.

Cássia: Eu li 200 páginas de sexta para sábado, porque peguei birra do livro.

Alex: Eu tenho uma também… rs… mas pode ser só chatice minha porque o livro é muito bom.

Cássia: Alex, nada de se justificar, aqui é para falar mal mesmo, se quiser, hehehe.

Cátia: Mas vamos por partes.

Cássia: É, Cátia, não rolou amor.

Laís: Ué, eu vim participar de um clube da Jane Austen e sempre reclamava, toda vez, rsrs.

Cássia: Exatamente, hahahahahaha.

Cátia: Uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Isso mesmo, Laís.

Cássia: Mas, vai, Cátia, organize a bagunça.

Cátia: Bem, a gente cortou a palavra da Laís. Fala, Laís.

Cássia: É, fale, Laís.

Laís: É difícil começar, mas vamos lá: não sei o que me impressionou mais, se foi o esquema narrativo ou a história propriamente. Sei que nunca entramos em discussões estéticas, mas fiquei encantada com a construção do José Luis; isso de misturar narradores, tempos e tals.

Alex: Eu também gostei muito disso…

Laís: Em vários momentos eu achei que era um narrador falando, mas era outro.

Cássia: Chegou no ponto que me irritou profundamente.

Laís: Isso não me irritou, me estimulou.

Cássia: Comigo foi exatamente o contrário. Mas antes, uma coisa: como obra literária, é excepcional, isso eu nem discutirei.

Laís: Sem dúvida.

Cássia: Mas é um livro de história, não de personagens… porque você se emociona, mas não sabe por quem; nasce uma criança, e você não sabe de quem é; tem um casal, você não sabe qual é; some alguém, e até saber se é filho, irmão ou tio, demora uma vida.

Laís: Só uma personagem me emocionou de verdade: a Marta.

Cássia: Nenhuma me emocionou… porque eu demorei para saber quem era quem…

Alex: Nesse ponto, são três homens do clã Lázaro, mas afinal são quantos narradores, 3 ou 2?

Cássia: Três.

Laís: Três, creio.

Alex: Eu também acho que são, mas não entendi por que em alguns comentários na internet que vi mencionaram 3.

Cássia: Avô, filho e neto, se é que entendi bem, né, hehehe.

Alex: Tem o avô, pai (Francisco atleta) e filho.

Laís: Isso mesmo.

Cássia: É, e só aparece o nome de um dos três.

Laís: O nome dos três é o mesmo.

Cátia: Quando ele diz “a minha mulher” é o avô.

Cássia: Ah, tá zoando, sério?

Alex: E são duas Marta, Maria e Simão não?

Cátia: Sim.

Cássia: São duas Maria, uma Marta e um Simão.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Lá no final, ele fala o nome da galera. Tá vendo?

Laís: Duas Maria? Jura?

Cássia: Putz, como isso me irrita.

Alex: Acho que não porque o neto menciona que colocou o nome de Simão em seu filho por causa do tio.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Isso, Laís, duas. Eu chorava e não sabia por quem. Sério? Tem mais Simão? Olha aí.

Cátia: Ahaaaaaaaaaaaaaaaaaahahahahahahhahahahaha.

Cássia: Vamos dar um dicionário de nomes para o autor…

Alex: Aliás, foi o que mais me incomodou no livro… os filhos do Francisco-neto têm o mesmo nome dos tios dele e foram batizados assim na mesma sequência.

Cássia: para o bem dos leitores. Tem isso?

Cátia: Mas a ideia é essa.

Laís: Sim, é só ver a epígrafe.

Cássia: Eu li muitas páginas de uma vez.

Alex: E isso foi uma forçada do autor para nos confundir e não descobrirmos de cara que a narrativa do avô se confundia com a do neto… porque a do atleta estava bem distinta da do pai (avô).

Cássia: Então, provavelmente, tem coisa que não notei. Sim, foi altamente engenhoso, mas foca mesmo na história, porque os personagens, um abraço.

Cátia: Eu penso um pouco diferente de vocês.

Cássia: Então diga.

Cátia: Eu penso justamente o contrário.

Alex: Acho completamente inverossímil o neto colocar o nome dos filhos em homenagem aos tios e eles terem nascido na mesma ordem.

Cássia: Totalmente! Tão inverossímil que nem notei.

Alex: Por que ele homenageou as tias que nem sequer tinha contato?

Cássia: Hahahahahahaha.

Alex: Só se justifica como um artifício do autor para simplesmente para confundir os leitores.

Cátia: Ou para justificar uma ideia ou como uma metáfora de uma ideia.

Cássia: Sim, isso até que fica claro para nós, mas aí entra numa coisa do autor em relação à estética do livro, eu acho.

Alex: Pode até ser, Cátia, mas isso me tirou na hora da história e depois fiquei incomodado pensando nisso e não consegui mais submergir nela.

Cássia: Eu sou apegada… eu gosto de acompanhar o personagem.

Alex: Quanto à estética nem se fala… é linda… senti por várias [vezes] que o autor ao invés de se limitar a descrever as ações com palavras ele as utilizou para encená-las.

Cássia: Então… eu não achei tão linda.

Laís: Aliás, quando você começa a se envolver com uma parte da história, é interrompido por outra.

Cássia: Ele entrou numa viagem de mudar conforme a história, vira um “veja a minha habilidade”. Não é como Guimarães Rosa ou Saramago, que assumem isso e vão embora. Ele vai mudando. Na hora da corrida, toda vez que lia “quilômetro tal”, affeeeee, eu não quero correr com o Francisco, autor!

Laís: Sinceramente, se eu soubesse fazer isso, faria sem pensar. É para poucos.

Alex: Acho que tem ligação com o fato da narração partir de pessoas mortas… portanto, estão livres das amarras do tempo linear de nossa vida, confundindo passado, presente, futuro, atropelando fatos, etc.

Cássia: Mas, Laís, não discuto a capacidade dele em fazer isso; falo em mim, como leitora, que não quer isso.

Laís: Gostei, Alex!

Cássia: É, tanto que tem a coisa mais bizarra do mundo, a menina de 3 anos dando bronca no avô.

Laís: Bizarríssima.

Alex: Comigo foi o contrário, porque eu já sabia que o atleta morreria ao chegar no quilômetro 30… Daí fiquei ansioso à medida que progredia… rs.

Cássia: Hehehehe. Eu fiquei agoniada, aí eu lia rápido para isso passar. É sério.

Laís: Eu queria saber como seria a morte; e a descrição das reações da família em volta do rádio foi sensacional.

Cássia: Ah, aquela cena foi ótima. Duas coisas nele são ótimas: ser absolutamente visual e conseguir passar isso para as palavras; e ter umas frases que, aff, coisa linda.

Laís: Essa característica visual dele é especialmente boa pra mim, rs.

Alex: Essa característica da escrita dele foi o que mais me impressionou.

Cássia: Ele tinha de escrever roteiro, mesmo! Essa habilidade é para poucos.

Alex: Como, por exemplo, quando ele descreve o marido da Maria rasgando os romances dela e o autor vai rasgando o parágrafo na mesma intensidade… picotando tudo… rs.

Cátia: Eu amei o livro.

Cássia: Que cena foi aquela dos livros picados, doeu em mim!

Cátia: Bem… não sei o que dizer porque tudo o que vocês acharam péssimo eu achei o máximo.

Alex: Bem, eu gostaria de saber o que você quis dizer quando mencionou que a repetição de nomes foi para reforçar uma metáfora… fiquei interessado, ou melhor… uma ideia.

Cátia: Eu penso várias coisas sobre este livro. Primeiramente, eu acho que ele constrói uma série de personagens que transmitem uma ideia geral. Encaro o tema como sendo a dinâmica relacional da família e cada personagem é construído, tem personalidade própria, angústias, medos e desilusões; mas, no fundo, eles todos juntos formam um único personagem “A Família”. Não sei se me faço entender com isto.

Cássia: Sim, sim.

Laís: Por isso achei tão interessante a epígrafe, só eu reparei?

Cássia: Então, mas foi comentado lá no começo: a questão ali é a história.

Cátia: A construção da história, para mim, é maravilhosa. Ele é como um artesão.

Alex: Bem, eu entendi isso também… o protagonista é a família cuja história vai se revelando pelos narradores.

Cássia: Também acho, Cátia… a habilidade dele não se discute.

Cátia: Ele vai construindo, peça a peça, como um quebra-cabeças e a meio do livro, eu – enquanto leitora – penso que estou segura do rumo da história, ele vem e “bam” parte-me toda.

Laís: Agora, tem uma coisa que ficou muito clara pra mim durante toda a leitura: como as relações entre as pessoas mudam.

Cátia: Mas aí está Cássia, não é só uma questão de habilidade.

Cássia: Mudam mesmo, Laís.

Cátia: Porque aí estou a desprender a intencionalidade do autor.

Laís: Primeiro as pessoas se apaixonam, depois elas se agridem. Violência o tempo inteiro ali.

Cássia: Cátia, mas é necessário habilidade para desenvolver a sua intenção. Eu posso querer algo e não saber fazê-lo, o autor sabe o que quer e sabe como chegar a isso.

Alex: Eu gostei sim da estrutura que ele utilizou… só me incomodou mesmo a questão da coincidência conveniente dos nomes dos filhos… só porque de toda aquela obra que ele esculpiu, pareceu uma solução muito simplista, como uma tentativa de “enganar” os leitores… mas nem acho assim tão grave.

Cátia: Laís, são relações muito humanas, muito reais e muito terra-a-terra.

Cássia: A minha grande questão, quando critico, é que se trata de uma literatura que me emociona como obra literária, eu olho e vejo “nossa, o autor é incrível!”, mas não me emociona como leitora.

Cátia: Alex, eu entendo o que dizes mas acho que não é esta a intenção.

Cássia: É como um quadro incrível, que reconheço, mas nem por isso quero revê-lo.

Cátia: A mim me emocionou.

Cássia: A mim, não.

Cátia: Vocês não imaginam como eu entendi Simão.

Cássia: Laís, também achei que há muita violência ali, mas muita.

Alex: É o meu personagem preferido.

Laís: Simão é incrível. Não tem como não gostar; ele merecia mais ali.

Cátia: Eu acho que a coincidência dos nomes seria para reforçar a ideia de que podem passar as gerações mas que a família continua intacta, Alex.

Alex: Eu queria uma versão alternativa da história sob a ótica do Simão… rs.

Cássia: Então, ele bate na tecla de que as coisas não mudam, tampouco evoluem, o que não é verdade…

Cátia: Que a cada geração, a família é renovada, mas continua a ser na sua essência a mesma.

Cássia: Aí que tá… eu não concordo com isso, especialmente naquela família…

Cátia: Renovam-se mas tem essência.

Laís: Intacta não digo, porque ela era toda fragmentada. Mas estruturalmente continua a mesma, os mesmo problemas, as mesmas questões; ninguém supera os que já passaram.

Cátia: Uma constância.

Cássia: Não falo em superar, falo mesmo nas próprias relações.

Alex: Eu concordo contigo, Cátia, mas achei que isso foi desenvolvido tão bem na obra, tanto quanto ao enredo quanto em termos de estrutura que não precisava usar o artifício de repetir os nomes.

Cássia: De um marido autoritário e violento, como foram quase todos ali, para um homem que tem outra postura dentro da família, não consigo ver isso como essência.

Alex: Tem coisas um pouco improváveis que acontecem, meio fantasiosas, mas os nomes para mim foram as coisas mais inverossímeis… rs.

Laís: Mas há famílias que são assim. Nem todas o são, mas muitas sim.

Cássia: Claro que há… mas há aquelas que mudam depois, porque as pessoas também mudam e constroem novas famílias e novas histórias. Essência de família, para mim, é outra coisa… é uma ligação de amor que se perpetua, de reconhecimento.

Cátia: E isto ficou intacto.

Laís: Aí é que está.

Cássia: De eu olhar para a minha mãe, a minha avó, a minha bisavó (quando ela era viva) e dizer…

Laís: Se fosse você a autora, Cássia, o livro seria outro.

Cássia: “Eu sou diretamente ligada a essas mulheres”, e isso eu não vi.

Alex: A Cássia tocou num ponto que acho que reforça o que quero dizer, pois certas questões se repetem e replicam na história, como a violência doméstica… isso passa de forma mais intensa a ideia.

Cássia: Laís, não estou dizendo para ser do meu ponto de vista…

Cátia: A identidade de ser família apesar da violência, traição, problemas manteve-se.

Cássia: estamos apenas discutindo o livro, foco do nosso clube, certo? Já falei e repito: o livro é excepcional e em momento algum, quando falo algo, é desmerecendo isso. Mas eu vou cutucar mesmo, vocês já me conhecem.

Cátia: Sim, eu entendo o que dizes, Cássia.

Cássia: Aliás, eu leria outros livros dele.

Cátia: Mas a essência de ser família esteve sempre ali.

Cássia: Achei-o genial MESMO!

Laís: Uma coisa que exemplifica o que a Cátia está dizendo.

Alex: Acho que em relação à família cabe muito bem a metáfora com os pianos que envelhecem, mas suas peças servem para outro pianos (pais e filhos) que ainda são pianos, mas podem tocar outras melodias… rs.

Cátia: Ou as mesmas.

Cássia: Aliás, bom falar isso: achei que teria mais pianos na história, hehehe! Eu senti falta disso.

Alex: Isso, no caso daquela família parece que estavam um pouco presos a um determinado setlist… rs.

Laís: Lembram quando, durante um almoço de domingo, o avô (acho que era o avô, rs) bate na mulher porque ela derramou vinho na toalha? Marta e Maria, que não estavam se falando, “voltaram a ser irmãs”, segundo o próprio autor. Essência de família.

Cátia: Mas era o avô.

Laís: Apesar das tragédias.

Cátia: Sim.

Alex: Sim… a violência doméstica ali desagrega em alguns momentos e em outros une a família.

Cássia: Mas acho que ali elas voltaram a ser porque havia algo acontecendo ali exatamente, a união pela violência.

Laís: Exatamente.

Alex: E existe muito perdão nessa história.

Cássia: E ambas, aliás, sofreram com seus maridos depois.

Alex: Menos um: perdoar a si.

Cássia: O perdão mais importante, aliás.

Laís: Porque estavam acostumadas a sofrer em casa; a ver a mãe sofrer. Não conheciam outra realidade.

Alex: Os narradores se culpam… a Marta perdoa a traição da irmã, mas dali se autoflagela com a questão da obesidade.

Cássia: Como se não fosse digna de ser desejada pelo marido, ela age como se justificasse a traição.

Alex: Parece que a família tudo resolve, se acerta, supera, etc… mas os personagens isoladamente não tem essa força.

Laís: Outra coisa: não fica claro como a Maria morreu. Subentende-se que tenha sido morta pelo marido, mas isso não é explicado.

Cátia: Para mim, ela utiliza a comida para saciar a desilusão. Ela era feliz até então.

Cássia: Eu acho que na família eles “passam por cima” de certas coisas, não sei se é realmente perdão… mas é como um grande problema que a gente finge que não existe para não ter de encará-lo, porque se isso acontecesse, seria muito pior.

Laís: Concordo.

Alex: Vocês querem dizer que há uma certa inevitabilidade? Eles têm que se conformar ou aceitar esses problemas porque se a família estilhaçar não terão onde se amparar? Ainda que grande parte dos problemas seja decorrente da própria relação familiar?

Cássia: Não pensei exatamente isso, mas acho que você tocou no ponto.

Laís: Talvez seja isso mesmo.

Alex: Acho uma visão meio pessimista… rs… é aquilo que o Flávio Gikovate (escrevi certo?) fala sobre o amor e que acredito que cabe muito bem aqui: sem a família eles serão indivíduos incompletos… quando na verdade a família deveria ser uma união de vários inteiros e não metades que dificilmente se encaixariam para formar algo completo.

Cássia: Exaaaaaaatamente. Pessoas completas seguem melhor na vida… não necessariamente mais felizes, mas de uma maneira melhor. Ninguém ali tinha força suficiente para seguir um novo caminho. Na verdade, só o Simão, aquele que cansou de ouvir que não seria nada na vida.

Alex: Daí você tem uma relação baseada na necessidade porque se a família se partir voltarão a ser incompletos novamente… quando deveria se basear no respeito.

Cássia: E no amor. Família, para mim, é amor.

Alex: Pois é, acho que daí que veio minha simpatia em relação ao Simão… rs

Cássia: E reconhecimento.

Laís: Pensei nisso sobre o Simão, mas tenho minhas dúvidas.

Cássia: Quais, Laís?

Laís: Não estou bem certa. Ele sempre voltava para a família, para a oficina… É certo que tinha uma relação diferente dos outros; não sei, estou decidindo a posição dele, rs.

Cássia: Hehehehe. É, talvez ele não seja o mais forte, apenas o mais orgulhoso.

Alex: Acho que ele não era completo, mas tinha a coragem de tentar sair daquele ciclo… E a “incompletude” estaria marcada por suas “recaídas” e a falta de grandes conquistas na vida.

Laís: Será que ele não precisava provar, acima de tudo pra ele mesmo, que poderia ser diferente? Melhor.

Cássia: É, Laís, tem razão… Especialmente porque ele foi renegado demais.

Alex: Acho que sim, mesmo, talvez, pensando em seu íntimo que tinha as mesmas dificuldades que os outros.

Cássia: Ele foi muito humilhado, o que aconteceu foi uma fatalidade e ele era tratado como se fosse o verdadeiro culpado.

Alex: Não sei… acho que era mais uma questão de personalidades fortes e conflitantes… algo muito comum na relação entre pais e filhos ou entre irmãos.

Laís: O pai dele queria que ele se submetesse, como todos os outros faziam, mas ele não era disso. Por isso que tudo era mais difícil para ele.

Cássia: O árduo caminho da independência…

Laís: O Simão estava um degrau acima.

Cássia: Estava… eu gostava dele.

Alex: Eu ainda gosto… rs.

Cássia: Hahahaha. Boa!

Laís: Ele poderia ter culpado o irmão, mas não o fez; poderia ter se vitimizado, também não o fez e foi atrás de emprego; poderia ter aceitado tudo, mas defendeu a mãe, o que lhe custou a vida em casa.

Cássia: Nossa, é mesmo. A cena dele defendendo a mãe, nossa, ele realmente peitava o próprio pai.

Alex: Mas foi bem orgulhos também… rs.

Laís: Ele tava de saco cheio daqueles escândalos.

Cássia: Ah, isso foi.

Laís: Foi também.

Alex: Poderia ter ido ver o pai em seus últimos dias… não deu chance de redenção a nenhum dos dois.

Cássia: Orgulho seca uma pessoa por dentro.

Alex: Tocando num assunto um pouco mais complicado… o que acharam dos diálogos entre avô morto e sua neta eloquente de 3 anos?

Cássia: Uó, esse eu não engulo, hahaha.

Laís: Será que aquilo foi um diálogo mesmo?

Cátia: Serei eu a única que achei fantástico?

Laís: Não, eu também achei.

Cátia: Acho que sim…

Alex: Eu gostei também.

Cássia: É, só eu não gostei, hahaha.

Cátia: lol.

Cássia: Isso eu não gostei mesmo, achei desnecessário.

Alex: Por quê?

Cássia: Para mim, isso é semelhante à cena do mulher do avô com o cigano. Tipo… qual o propósito?

Laís: A cena com o cigano foi despropositada mesmo, mas esse diálogo não.

Cássia: Mas eu não achei o diálogo sem propósito, mas o fato de uma menina de 3 anos falar como uma adulta para o avô morto. Isso eu achei sem propósito.

Cátia: Gente, eu vou escrever ao JLP…

Cássia: Não, ele vai me odiar, hahahaha.

Cátia: Hahahahahaha. Olha que não.

Cássia: JLP, amei seu livro, tá?

Alex: Não sei se a cena do cigano foi sem propósito, talvez ele só não estivesse tão explícito, haja vista que na história da família outros fatos e precedentes foram omitidos.

Laís: Escreve lá.

Cássia: É que sou azeda mesmo, tá? Eu brigo mesmo, tá?

Cátia: É capaz dele achar interessante o facto de tu não teres gostado.

Laís: Continua, Alex.

Cássia: Ah, alex, do nada ela vai lá na tenda.

Cátia: A sério… ele tem Facebook, está adicionado.

Cássia: Ai meu Deus, nãããão.

Cátia: Por que não?

Cássia: Ele vai me odiar.

Cátia: Hahahahaha. Ele vai ler e dizer: ninguém neste clube entendeu nada de nada, hahahaha.

Cássia: Tipo, “gente, vocês leram mesmo livro que eu escrevi?”.

Cátia: LOL

Cássia: “Tem certeza?”

Cátia: lolololololololol.

Cássia: JLP, tamo junto!

Alex: Nós vemos a história através dos olhos de alguns narradores mortos e, portanto, que em seu relato transcendiam por vezes o tempo (misturando passado, futuro, presente) ou fatos, como se as memórias deles estivessem ali todas juntas e misturadas. Além disso, alguns fatos podem simplesmente representarem impressões, pensamentos deles e não lembranças ou fatos que ocorreram mesmo. Como o próprio diálogo entre avô e neta, pois nada impede que o avô estivesse na verdade confrontando uma própria consciência a qual materializou na neta.

Laís: Verdade.

Cássia: É verdade… tá bom, vai…

Cátia: Esta questão do diálogo entre avô e neta parece-me verossímil, é a questão do todo, da família como um todo.

Alex: Afinal, quem pode confiar em alguém morto que enxerga presente, passado e futuro sem qualquer amarra que temos em vida? rs.

Cássia: Tô muito chata hoje, vou dar um desconto.

Laís: É, vamos combinar que um morto escrever um livro não é nada normal, embora para nós até seja, porque Brás Cubas já existe há muito tempo.

Cássia: Gente, mas mesmo quando o narrador está vivo, o autor tem carta branca, faz o que quiser! Desde que a gente acredite, tá valendo.

Alex: Será que nesse livro temos um tipo novo de narrador: o narrador transcendente? Um meio termo entre o narrador personagem e o narrador onipresente? rs.

Cássia: Hahahahaha.

Laís: Foi exatamente por isso que eu perguntei se era um diálogo de fato: ele poderia estar dialogando com a consciência simplesmente.

Cássia: Mas ele não é onipresente… Vocês mesmos disseram que o que ele narra pode ter influência do que ele acha que foi.

Alex: Porque ele via além do que acontecia com ele, mas por vezes essa visão era limitada.

Cássia: Se ele acha que foi, então ele não sabe.

Cátia: Eu acho que há vários narradores e geralmente o avô só narra quando a mulher está na cena, ele sempre se refere “a minha mulher”. Não me lembro dele dizer muito “o meu filho”…

Alex: Mas ele narrou fatos do cotidiano após sua morte (no futuro), como no segundo capítulo.

Cátia: ou “a minha filha”.

Alex: Concordo, Cátia, eu conseguia distinguir exatamente quando ele fazia essa referência… rs.

Cátia: Ele diz o nome dos filhos, mas não os chama “filhos”.

Cássia: Pelo jeito, eu não entendi é nada, porque raras vezes eu entendia quem era quem. Uma hora, eu desencanei disso.

Laís: E será que o modo dele chamar cada um não evidencia o tipo de relação que ele tem?

Cátia: Mas essa é “cola” do livro. Como assim, Laís?

Laís: Quando ele fala “minha mulher”, isso não tem um valor de posse? É uma pessoa sem nome, sem identidade, algo que a caracterize; limita-se à mulher dele e acabou.

Cássia: É bem o “dono da família”, patriarca total.

Laís: Todos os outros têm nome, menos a mulher dele.

Cátia: Em parte, tens razão. Tem a ver com uma geração. Aqui em Portugal, na geração dos meus pais, é muito comum dizer-se “o meu homem” e “a minha mulher”, em vez de “o meu marido” e “a minha esposa”. Sim, nós não sabemos o nome dela.

Alex: Vocês tocaram num ponto importante… Eu fiquei com a impressão que no caso dos narradores mortos eles se concentraram em narrar os fatos que foram marcantes na vida deles, e que faziam isso atropeladamente à medida que iam lembrando deles. Daí eu acho que essa carga emocional das lembranças influenciava também na questão dos nomes.

Cátia: Repararam?

Laís: Sim sim sim sim.

Cássia: Eu não tinha reparado.

Laís: A mulher de nenhum deles tem nome.

Cátia: Sim.

Laís: É sempre “a minha mulher” ou “a mulher do Francisco”.

Cátia: Sim.

Laís: Assim como “o marido da Marta” e “o marido da Maria”.

Cátia: Sim!

Cássia: Minha, meu, minha, meu.

Cátia: Na família, há sempre a questão da posse: meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã. Será talvez a questão da pertença. Não há pertença sem posse?

Cássia: Não sei, hein?! Há uma diferença entre pertencer e nos pertencer.

Alex: É uma interpretação válida, mas fiquei com a impressão de que isso foi mais uma forma comum de narrar… acho que quando conversamos também nos referimos aos nossos parentes assim: ah, meu irmão está bem! A gente não costuma mencionar o nome… rs.

Cátia: Talvez.

Cássia: Só para quem já o conhece.

Cátia: Mas, por exemplo…

Alex: Quando você fala sobre sua mãe para alguém você fala o nome dela?

Cássia: Mãe e pai, não. Irmão, sim.

Cátia: Quando eu converso com o meu irmão eu geralmente digo “o meu pai” e raramente “o nosso pai”. Coisa que até tenho tentado lutar.

Alex: Esposa ou esposo também é comum não falarmos… rs.

Laís: Tem razão, Alex. O que me intrigou foi sempre o mesmo tratamento ao longo de todo o livro. Se não estou enganada, isso nunca muda.

Cássia: Eu falo “o pai” e “a mãe” quando é com o meu irmão. Nunca digo “meu” ou “nosso”.

Alex: Mas confesso que isso pode ser porque na vida real também temos essa questão de posse envolvida… rs.

Laís: Claro que temos.

Cássia: Sabe que evito usar? O “meu” e “minha”?

Cátia: Eu digo “o meu” e eu tenho lutado contra isso.

Cássia: A minha tia fala “minha mãe” para minha mãe e ela odeia isso.

Cátia: Pois.

Cássia: “A mãe é só dela? que mania!”

Cátia: Mas não é propositado.

Cássia: E olha a idade das duas, hahaha. Claro, sei que não é.

Alex: Dito isso, pode ser que não seja uma particularidade do personagem, mas simplesmente que estivesse reproduzindo um costume… sem que fosse deliberado… rs.

Cátia: É algo que sai tão natural, mas está errado. Sim, dizer “a minha mulher” é muito comum por aqui.

Cássia: Mas por aqui também.

Laís: Mas o que incomodou mesmo não foi a posse, rs.

Cátia: Em casais mais novos já começa a cair em desuso.

Laís: Foi mesmo o fato de as esposas não terem nome, só os filhos. Cultural ou não, natural ou não, fiquei pensando nisso, ainda mais aliado à violência de que já falamos.

Cássia: Então, possivelmente, é a questão da posse mesmo.

Alex: Quando li, eu imaginei que tinha sido uma opção do autor para destacar exatamente sobre quem o narrador estava se referindo e também um novo artifício porque se ele dissesse o nome das esposas (que certamente eram diferentes) saberíamos logo quem estava narrando naquele momento… rs.

Laís: Talvez, se houvesse “o meu filho”/”a minha filha” isso não tivesse me chamado a atenção.

Cássia: Pode ser isso também. Eu já nãos ei mais nada sobre o livro, hehehe.

Cátia: lol

Laís: Pode ser isso também, rs.

Alex: Dá para o narrador usar “minha mulher” ou o “marido da Marta”, mas como ele tem duas filhas e filhos não daria para usar “minha filha” ou “meu filho”… rs.

Cássia: Aí o meu filho, marido da fulana, sobrinha da siclana, que fugiu com o meu tio…

Cátia: José, por favor, não leia o nosso blogue.

Cássia: Hahahaha.

Cátia: LOL

Cássia: José, amigos, tá? Eu tô brincaaaaando.

Alex: Ele necessariamente teria que especificar: meu filho Simão… ou minha Marta… daí é melhor já mencionar diretamente o nome.

Laís: Ao contrário, eu gostaria que ele lesse pra nos ajudar a organizar tudo isso.

Cássia: Ele vai é colocar a mão na testa e desistir da literatura, hahahaha.

Cátia: Ele vai dizer: peloamordeDeusvósnaoentendeisnadicadenada.

Laís: Boa justificativa, Alex, defendeu bem.

Alex: Bem, uma das coisas que mais gosto da literatura é que o livro que eu leio não precisa ser o livro que o autor escreveu e ambas as visões estão corretas… rs.

Cássia: Muito bem, o Alex encerrou a questão.

Cátia: Mas eu acho que não convenci vocês.

Cássia: Do quê?

Cátia: Do livro.

Cássia: Quer a verdade? O livro é EXCELENTE.

Laís: Não preciso ser convencida, amei e pronto.

Cátia: Mas não apaixonou.

Cássia: Eu fiquei passada com a qualidade dele, mesmo! Mas, flor, eu sou difícil, hahaha. Para eu me apaixonar é raro, relaxa.

Cátia: Hahahahaha. Eu e a Laís temos mais em comum, tirando a Jane.

Laís: Isso não adianta, ninguém convence ninguém.

Alex: Eu também gostei muito e se no momento cabe uma confissão: fiquei com inveja da habilidade dele… rs.

Cássia: Ele tem “o dom” da escrita. Ele é muito bom, mas muito.

Laís: É a mesma coisa que vocês tentarem me fazer achar que Jane Austen é a melhor escritora do mundo. Acho um horror e não pretendo reler nunca mais.

Cássia: Tá vendo?

Cátia: Ouviu JLP???? Hein????

Cássia: A Laís ficou UM ANO discutindo Jane…

Alex: Será que fui meio ranzinza por causa disso? Tomara que não porque a obra é impecável.

Cássia: querendo acabar com todos os livros dela. JLP, queremos ser você quando a gente crescer.

Cátia: Gente, Laís você é uma mulher de fé, aguentou a Jane só para chegar a este momento

de ler outras coisas. Eu admiro isso, não sei se eu faria.

Laís: E me realizei, hahahaha.

Cátia: Se continuaria a ler livros de que não gostava.

Cássia: É mesmo… eu teria desistido.

Cátia: Com certeza.

Laís: Também fiquei com inveja, Alex. Vou ter de escrever muito ainda pra chegar lá, se é que um dia chegarei.

Cássia: Eu nunca chegarei, confesso.

Alex: Hum sei lá… acho que sou um pouco otimista nesse ponto porque mais do leitura ruim acho que pode existir momento ruim para uma dada leitura.

Cátia: Alex, você não está entendendo… A Laís DETESTOU todos os livros.

Alex: Porque talvez o momento dela ter lido Jane Austen tenha passado ou ainda não chegou.

Cássia: É, eu tenho essa teoria também, os livros têm tempo.

Laís: O único mais ou menos foi a Abadia de Northanger; que a Cássia espinafrou.

Cássia: É, eu espinafrei. Gente, estou com fama de azeda, tenho de parar com isso. Daqui em diante, só vou elogiar: “Nossa, demais o livro, AMEI!”.

Laís: Não, seja sincera.

Cátia: Quem vai escolher o próximo?