“Morreste-me”

Comecei a ouvir falar de José Luís Peixoto a partir de 2005 através da leitura de vários blogues que o citavam. Lia trechos e ouvia falar dos seus livros. Pensava que parecia ser um escritor interessante. A verdade é que os anos começaram a passar e eu adiava ler algo escrito por ele. Em 2009, estava a mudar de canal de televisão e parei num que me chamou a atenção porque era alguém a recitar algo de um escritor. Sim, eram trechos escritos por José Luís Peixoto. Era uma espécie de documentário/biografia e o trecho em causa era do livro “Morreste-me”. Lembro-me que desatei a chorar. Lembro-me que pensei “como é possível haver alguém que coloque por palavras estas sensações?”. Distanciada há 4 anos de uma perda familiar semelhante à relatada no livro e perto de uma possível nova perda não pude ficar indiferente àquelas palavras. Não pude.

Procurei por este livro. Li o “Morreste-me” de um fôlego só. Seguiu-se o “Nenhum Olhar”. Agora estamos com este livro nas mãos: “Cemitério de Pianos”. Ainda faltam mais para ler e o farei conforme a vida assim me permitir.

Devo dizer que, o “Morreste-me” marcou-me. Dele retirei uma frase que me tem acompanhado ao longo destes últimos anos. Adoptei-a. Carrego-a nas mãos e na alma:

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sobre o amor e sobre a cólera

Os dois livros que eu já tinha lido de Gabriel García Márquez são: “Cem Anos de Solidão” e “Crónica de uma Morte Anunciada”. Ambos livros são muito diferentes quanto à temática, o que me fez acreditar de que o livro escolhido no Clube de Leitura – “O Amor nos Tempos de Cólera” – seria também diferente. Não possuía nenhuma ideia pré-concebida da história. Não fazia nenhuma ideia sobre o que tratava. O nome sugeria a interpretação da “cólera” como sinónimo de “raiva” ou “ódio” do que o seu real significado que é a cólera enquanto doença. Não é de estranhar de que, para mim, este livro foi uma sucessão de surpresas.
Sabem quando se lê um livro e adivinha-se conforme se avança o que se vai suceder de seguida? Com este livro nunca passei por isto. Tudo era novidade: o desenvolvimento das personalidades dos personagens, as decisões e rumos de cada um, o desenlace. As duas únicas coisas constantes foram a paixão de Florentino Ariza e a escrita de Gabriel García Márquez. E sobre a escrita dele, que posso dizer que não seja já conhecido e dito? É apaixonante. A forma como ele descreve os personagens, os seus sentimentos e pensamentos transporta-nos para dentro do enredo. Dei por mim a visualizar-me sentada perto de Florentino Ariza enquanto este ficava à espera de ver Fermina Daza aparecer. Parece que me via na sala da casa de Fermina Daza enquanto esta vivia a vida que tinha de viver, mesmo não sendo bem a vida que ela tinha sonhado para si. Parece que lhes sentia os anseios, frustrações, devaneios e momentos de loucura.
Em concreto, trata-se de uma história de um amor contrariado mas persistente. Mas há muito mais por detrás. As suas páginas desafiam-nos a tentar compreender a complexidade de sentimentos lá contidos. É um real desafio. Desafio-vos a ler. Desafio-vos a ler e a envolverem-se nesta profusão de sentimentos.