Livro 12: A estrada

O encontro aconteceu dia 19 de fevereiro com participação de Cássia, Cátia, Nina e Teeh. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cátia: Terminei há uma hora o livro. Gente que pancada de livro.

Cássia: Eu não gostei.

Teeh: 2.

Cátia: Do livro?

Cássia: Isso. Nem do livro, nem do filme.

Cátia: O filme eu não vi.

Cássia: Maniqueísta até a tampa.

Cátia: Eu gostei do livro, gostei muito mesmo.

Teeh: Eu comecei o livro assustada, atrasada e com medo de bibliotecárias gritalhonas, dai pensei que fosse por isso que não estava curtindo.

Cássia: Li o livro por obrigação, hehehe, por conta do clube. Comecei, pensei que o estilo que não me agradou. Mas… não foi.

Cátia: Então o que não te agradou, Cássia?

Cássia: O estilo não me agradou, mas entendo que é coisa minha. O que me incomodou foi o maniqueísmo, o autor dividiu as pessoas entre “bons e maus”. O menino falando que eles eram os bons porque o pai ensinou isso, e os outros eram os maus… Como isso me incomodou!

Cátia: Eu encarei isso como uma forma de defender o filho, porque no fim das contas, numa situação daqueles isso deixa de fazer sentido, o ser bom ou mau.

Cássia: Mais ou menos… Para ele, todos eram maus.

Cátia: Acho que ele tinha consciência de que não ia sobreviver ao filho e queria que ele estivesse preparado para isso.

Cássia: Preparado para a solidão? Se o filho não tivesse bondade dentro dele, não teria ido com o casal no final.

Cátia: Preparado para sobreviver. Olha, essa parte final é que não fez sentido para mim.

Cássia: Então, mas se preparar para sobreviver não significa negar ajuda. Eu entendo, mesmo!, que era uma situação adversa, mas talvez por gostar tanto de “Ensaio sobre a cegueira”, vejo que há nuances de comportamento em uma situação limite. Tem aquele que mata para comer, aquele que divide o pedaço de pão, aquele que come sozinho por medo, sabe assim?

Cátia: Sim, eu entendo o que queres dizer.

Cássia: Mas daí, gostei da parte em que o pai tira tudo daquele homem que roubou as coisa dele porque mostra que, na verdade, o que é a maldade? O pai deixou o outro nu, no frio, para se vingar. Como ele pode dizer que só os outros são maus?

Cátia: Eu não encarei como vingança, eu achei que ele fez aquilo para não ser seguido.

Cássia: Mesmo assim, foi de uma maldade sem tamanho.

Teeh: Concordo, eu fiquei me sentindo mal.

Cássia: Eu também.

Teeh: No filme também, por causa que é o Robert Duvall, rs.

Cátia: Sim, foi.

Cássia: O menino disse bem, que o cara só roubou porque também sente fome.

Cátia: A sério? Adoro o Robert Duvall.

Cássia: Mas não é o senhor, é aquele outro, que roubou o carrinho.

Teeh: Sério.

Cátia: Certo que o pai foi cruel, mas o que roubou o carrinho também roubou tudo sem piedade, sabendo que eles também não sobreviveriam a isso.

Cássia: E isso justifica tirar tudo também, sem piedade?

Teeh: Eu só sei de uma coisa: que mundo horroroso.

Cátia: Não, não justifica.

Cássia: Aí entramos no olho por olho, dente por dente. Mas ele recuperou suas coisas, pegue e siga. Precisa tirar o que é do outro só porque o outro tirou?

Cátia: Mas é daquelas situações em que ninguém está impune.

Cássia: Não importa… Se o pai divide o mundo entre bons e maus, não enxergou que também há maldade em nós em situações assim. Porque “maus” são sempre os outros, nós sempre somos os bons da história.

Cátia: Eu entendo o que dizes, Cássia, sério, mas penso que o pai estava absolutamente obcecado com a sobrevivência do filho.

Cássia: Sim, sim… mas não da melhor maneira, eu acho.

Teeh: Mas não acho que é justificável salvar uma vida condenando outra…

Cássia: Concordo.

Cátia: Também concordo.

Cássia: Senão vira realmente terra de ninguém.

Cátia: Mas o que me intrigou realmente é que não sabemos como tudo aconteceu, vocês pensaram nisso?

Cássia: Como assim? Como tudo desapareceu?

Cátia: Só vemos descrição de destruição e miséria mas não me lembro de ler algo que dissesse como tudo ficou assim. Enquanto lia, esperava ver algo que dissesse e nada. Isso me frustrou.

Cássia: No filme, ele está com a mulher dele na casa dos dois e tem um clarão. E só.

Cátia: Tipo desastre nuclear? Mas aí não sobraria nada.

Cássia: Não, não, era clarão de fogo mesmo. Ó, li no Twitter [da Cátia]: “Este livro, “A Estrada”, caiu em mim de uma forma inexplicável.” Conta pra gente.

Teeh: Vish.

Cátia: Esta semana foi uma semana difícil e neste livro tem assim reflexões que me atingiram um pouco. Cada diálogo entre pai e filho termina com uma espécie de conclusão, vocês deram conta disso? Então teve muitos momentos que me tocaram. Eles falavam muito sobre esquecimento, sobre não desistir.

Cássia: É verdade…

Cátia: Achei interessante um momento em que ele disse ao filho para ele não ter bons sonhos e coloridos que isso seria um sinal de desistência.

Cássia: Achei isso tão triste.

Cátia: Achei isto de uma complexidade… nem imaginam, teve um impacto tão grande em mim.

Teeh: É, foda…

Cátia: E depois, fico sempre frustrada quando vejo um pai a fazer tudo por um filho, mesmo com defeitos, mesmo sendo um pai de valores distorcidos.

Cássia: Isso do pai fazer o que tiver de fazer por um filho… O pai era um pessimista, mas dá para entender. Ele sempre esperava o pior, sempre.

Cátia: Mas o engraçado é que ele dizia para o filho que não ia ser pior, não iam encontrar ninguém e tal. O filho era mais realista do que o pai.

Cássia: Além de realista, acho que o filho tinha aquele lampejo de esperança, de que há alguma beleza mesmo na pior das situações.

Cátia: Com certeza!

Teeh: Bem coisa de criança. Toda criança tem isso em si.

Cássia: Exatamente, bem coisa de criança, e a grande questão é o quanto perdemos isso.

Cátia: Todo o livro é uma metáfora, não acharam? Sim, esta é a questão, Cássia, perder esse lampejo.

Cássia: Metáfora sobre?

Cátia: Há uma estrada, um objectivo a alcançar, um caminho a seguir, obstáculos, opções que se tem de tomar.

Cássia: Eu pensei muito naquela coisa do “não importa quão árido é o caminho, tem o arco-íris lá no final”, como se toda e qualquer dor fosse justificada pelo final.

Cátia: Sim.  Por isso, fiquei meio frustrada com o final. Eu espero algo assim meio revelação, dele alcançar algum lugar totalmente diferente.

Cássia: Aí que está: a revelação não existe. Você assistiu ao “Mágico de Oz”?

Cátia: Sim, dear Dorothy!

Cássia: No final, é aquela coisa, não tem mágico.

Teeh: Owwwn, o mágico de Oz!

Cássia: Foi o primeiro filme que vi na vida.

Teeh: Sério?

Cátia: Sério?

Cássia: Acho que faz parte do meu caráter, hehehe.

Teeh: Eu passei quase um ano pedindo um Munchkin para meus pais, HAHAHAHAHAHA. Eu tenho! rs

Cássia: Sério, foi o primeiro que vi na vida. Eu tinha cinco anos e lembro até hoje.

Teeh: Que lindo! *–*

Cátia: Nossa, lindo mesmo!

Cássia: Mas, enfim, acho que moldou [o meu caráter] por isso: não tinha “o” mágico salvador, a solução estava na própria Dorothy e em cada um deles. Acho que a gente tem muito isso, de sofrer pela estrada, de aguentar tudo porque acha que terá a recompensa sublime e, chega lá, a solução está com a gente.

Cátia: Não sei, há coisas que nos ultrapassam completamente.

Cássia: Isso, sem dúvida. Mas se nos ultrapassam, não estão em nossas mãos. A gente só é responsável pelo que nos compete.

Cátia: Mas também sofremos pelo que não nos compete.

Cássia: Aí que tá… Adianta sofrer por isso? A gente quer controlar tudo. No livro, o pai tinha muito isso, ele queria controlar o que não tinha controle.

Cátia: Sim.

Cássia: E o menino era mais o “ó, isso não dá para controlar”. Quando somos criança, temos muito mais essa consciência. Adultos, achamos que o mundo está na palma da nossa mão.

Teeh: É por que quando somos crianças não controlamos NADA, mas crescendo ganhamos responsabilidades, assumimos o controle de algumas coisas, e o poder vicia.

Cássia: Algumas [coisas].

Cátia: Estou aqui a pensar…

Cássia: O poder vicia mesmo, em todas as instâncias. Eis o grande problema!

Cátia: Nem sempre o controle tem a ver com poder.

Cássia: É, também acho.

Cátia: Por vezes, queremos o controle para que as circunstâncias alcancem um fim harmonioso. Era o que o pai queria para o filho, que aquela catástrofe não o destruísse.

Cássia: Sim, claro… mas a grande questão é que não podemos controlar. E não aproveitamos muito coisa por nossa total incapacidade de entender isso.

Cátia: E quando entendemos e não conseguimos viver de outra maneira?

Cássia: Então não entendeu.

Cátia: …morremos à beira da estrada.

Cássia: Ainda queremos ter um controle que não nos pertence. Vamos todos morrer à beira da estrada, no fim das contas. Quem aproveitou o percurso, terá vivido bem melhor.

Cátia: É oficial, este livro me deprimiu imensamente.

Cássia: É, estou sentindo isso… =/

Teeh: : C

Cátia: Vou ter de ver uns 500 filmes para esquecer as imagens e sensações que ele me despertou.

Cássia: Tipo, nossa discussão tá bem depressiva, hehehe.

Cátia: É… Acho que é a primeira que está assim.

Cássia: Assista a um filme que mostre a humanidade feliz. Indica um, Teeh.

Cátia: Nossa, culpa minha!!

Cássia: Culpa sua nada, imagina.

Cátia: Gente vamos escolher só romances açucarados agora para ler!

Cássia: Vamooooos.

Cátia: Beeeeeeeeeeeeemmmmmmmm românticos, de chorar o livro todo com o amor lindo dos protagonistas.

Cássia: Era o clube na sua primeira fase, hehehe. Só Jane.

Teeh: Só por que eu ia indicar um livro dramático. U_U* UASAHUSAUSAHUSAHUSHUS

Cátia: Hehehehehehehehe, outro, Teeh!!!

Cássia: A Nina chegou!

[Nina está na conversa.]

Cátia: Obaaaa! Oiiii, Nina!

Nina: Oi, gente, me perdoem. A conexão aqui é ruim.

Cássia: Sem angústias, nada de sofrimento, hehehe.

Cátia: Já basta o livro traumático.

Cássia: A gente falou pouco sobre o livro. A Cátia está deprê por ele.

Nina: Sério?

Teeh: Seríssimo, rs.

Cássia: É, estamos num bode, aff.

Cátia: Isso, queremos te ouvir.

Nina: Ai gente, eu sei que ele é triste. Também fiquei meio deprê quando terminei.

Teeh: Hahahaha. Fod*u.

Cássia: Gente, só eu que não fiquei? Estou me sentindo fria e insensível, hehehe.

Cátia: lol

Nina: Mas já era de se esperar o final, né?

Cássia: Vai, Nina, fale sobre o livro, senão essa discussão não engata hoje.

Nina: Cássia, diga como se sentiu… Você disse que se sentiu diferente.

Cássia: Eu não gostei do livro, não me envolvi com a história. Não senti pena, tristeza, nem torci pelos dois. E, como falei para elas, achei maniqueísta.

Nina: Eu não torci pelos dois também, mas porque meio que sentia que não tinha jeito, mas consegui me envolver com a história…

Cássia: Então, esse foi meu problema: eu não consegui. Não “comprei” o drama deles.

Nina: Entendi.

Cátia: Eu me envolvi demais.

Nina: E sofreu, né?

Cátia: Nossa…!

Teeh: Eu já tinha visto o filme, então sabia o que ia acontecer, mas… também não entrei na deles.

Cássia: A Cátia está sofrendo ainda.

Cátia: Eu costumo ver os filmes dos livros, mas acreditem, eu acho que não vou querer ver esse não.

Cássia: Depois de “Ensaio sobre a cegueira”, só “The Walking Dead” me fez comprar uma história assim.

Nina: Eu sofri porque na medida que ia avançando, eu percebia que não tinha mais esperança pra eles.

Cátia: Eu tenho a série aqui e ainda não vi, sinto que não estou preparada.

Cássia: Então não veja, Cátia.

Teeh: Poxa, é um bom filme sabe, Cátia? O visual dele é, desculpem a expressão, de foder.

Nina: É, “The Walkind Dead” é totalmente “comprável”, kkkkkkkkkk.

Teeh: TWD é A série.

Cássia: Você fica com medo de entrar um zumbi na sua casa. Você acredita que o mundo está daquele jeito.

Cátia: Sério, não consigo ver coisas assim actualmente, só coisas cor de rosa.

Teeh: Cara, se o apocalipse zumbi acontecer, quero que seja daquele jeito.

Cátia: Eu vi o “Melancolia” e fiquei de rastos.

Teeh: Antes eu queria que fosse tipo “Resident Evil”, mas agora não. MELANCOLIA

Nina: Nossa, eu ainda não vi “Melancolia”. Preferi esperar um pouco.

Cátia: Aquele filme acabou comigo.

Cássia: Ainda não vi “Melancolia”.

Teeh: Eu chorei que nem desgraçada em “Melancolia”, amei aquele filme de uma maneira tão profunda que nem eu consigo compreender.

Cátia: Gente, é qualquer coisa. O filme é tão tão tão… A meio eu já estava sem entender nada e entendendo tudo.

Teeh: Melancolia é a metáfora da depressão. E para quem já esteve deprimido de verdade, ele cai que nem uma bomba no seu emocional, mas de uma maneira boa, HAHAHAHAHHA.

Cátia: Sim, Teeh.

Teeh: Eu escrevi a crítica, fica a dica. HAHAHA.

Nina: Teeh, meu marido é um especialista em zumbis. Ele já viu 3456.7643.8577 vezes TUDO quanto é filme de zumbis. Conhece tudo e ele sempre disse que “Resident Evil” não é uma boa história zumbi, aquela história de zumbi mutante não combina, hehehehe.

Cátia: Olha, Cássia, o “Melancolia” tem assim um gosto tão estranho na boca, tão diferente, tão…

Teeh: Gosto de cinzas (interna para quem assistiu).

Nina: Cássia, você achou o livro maniqueísta?

Cássia: Achei sim, Nina.

Nina: Por quê?

Cássia: Porque, Nina, fica a coisa dos “homens bons” e “homens maus”.

Nina: Ah, tá! Tipo, bem diferente de TWD, onde todo mundo é um pouco bom e um pouco mau, né?

Cássia: Isso… até de “Ensaio sobre a cegueira” que tem várias nuances.

Nina: E acho que você tem razão.

Cássia: Nesse, ou você prende gente no porão para comer ou vai morrer de fome, não tem a nuance.

Teeh: haushauhsuhaush. Kinda Book of Eli

Nina: Como diria o querido-love-you-Grissom: ninguém é 100% inocente!!!

Cássia: Exaaaatamente. Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau.

Cátia: E que momento foi aquele da cave?

Cássia: Ainda mais em uma situação limite.

Nina: Aquele lugar que tinha tudo?

Cátia: Não, o primeiro.

Cássia: Vocês conhecem aquela história da queda do avião no Chile, há mil anos?

Cátia: Não, Cássia.

Nina: Que o povo se comeu?

Cássia: Exatamente. Aconteceu o seguinte, Cátia: um avião caiu no Chile, na Cordilheira dos Andes. Uma turma morreu, outra sobreviveu, mas não tinha comida e o jeito foi… comer os mortos. E quem estava para morrer, já dizia que poderia ser comido e tal.

Teeh: Argh, odeio essa caso. Esses dias um dos caras que sobreviveu passou na “rede bobo” esses dias.

Cássia: Eu vi esse cara. Mas ele disse umas coisas bem legais.

Nina: Isso tudo é bizarro!

Cátia: Eu nunca ouvi falar nisso.

Nina: Tem um filme sobre isso, não é?

Cássia: Tem um filme sim.

Cátia: Nossa!

Cássia: É muito bizarro… mas, pensa, aconteceu.

Nina: Pois é!

Cássia: E ele disse uma frase na Globo que foi ótima: “Quem reclama é quem está bem. Quem está mal, serra os dentes e segue em frente”.

Nina: O nome do filme é “Vivos”.

Cássia: Porque ele andou SOZINHO sei quantos quilômetros, no gelo, para tentar salvar quem ficou (e a própria pele, claro). Então, é aquela coisa: na hora do vamos ver, a gente não sabe do que é capaz.

Nina: Exatamente.

Teeh: Isso é…

Cátia: A questão da sobrevivência.

Nina: E voltando à história dos zumbis… é disso que trata, da sobrevivência.

Cássia: Exatamente.

Nina: Não é o terror dos bichos, mas a história de sobrevivência. O que os seres humanos se tornam na hora do vamos ver.

Cássia: E como cada um lida com isso. Aí que está a graça.

Nina: Isso.

Cátia: Olha, quando eu lia o livro eu pensava que numa situação daquelas, de catástrofe, de fome e miséria, todos os valores que cultivamos caem aos nossos pés.

Nina: Eu achei o livro lento em algumas partes, mas na verdade, eu sentia aquela tentativa (em vão) do pai de salvar o filho.

Cássia: Caem mesmo, Cátia. E era um salvamento meio impossível.

Nina: Mas era uma situação onde não havia mais esperança, e ele sabia disso, né?

Cátia: Porque era muito descritivo, Nina.

Cássia: Pior que sabia.

Nina: Só de imaginar uma coisa dessas… Tipo, vamos pra onde? Fazer o quê? aff!

Cássia: Comer o quê?

Nina: Exato.

Cássia: Ficar ou ir embora? Continuar vivo ou acabar com isso? Porque eu entendi a mulher do cara.

Nina: É, por mais angustiante que seja… a gente entende.

Cássia: Entende…

Nina: Numa situação dessas… quem vai julgar alguém?

Cátia: Sim…

Nina: Lembram da cena em “Ensaio…” onde o médico transa com a prostituta e a mulher vê tudo?

Cássia: Meu, essa cena é emblemática. Eu entendi o cara.

Nina: Demais!

Cássia: Todo mundo me xinga, mas eu entendi.

Nina: Kkkkkkkkkkk.

Cássia: Sério. Pensa, você virou um necas, sua mulher virou sua enfermeira…

Teeh: rs

Cássia: Mas é verdade.

Nina: É a velha história do que o ser humano se torna, né?

Cássia: Exatamente. Aí vai buscar meios para voltar a ser o que era, de alguma forma.

Nina: Quem pode julgar?

Cássia: Ninguém. Aliás, “Ensaio…” é sensacional. A humanidade inteira está ali.

Nina: Sim!

Cássia: Por isso que invoquei com “A estrada”. Porque, nossa… para chegar perto de “Ensaio…” precisa de muito.

Nina: Mas acho que “A estrada” era mais voltado para a relação do pai com o filho e da busca por algo que não existia mais, né? Tipo, ele não tinha esperança, mas sabia que tinha que continuar caminhando…

Cássia: Tem razão. Talvez, se eu tivesse lido sob esse enfoque, teria achado mais legal.

Teeh: Eu acho que ele tenta mostrar uma das parcelas da humanidade, a única em que há amor incondicional entendem? Que é a relação entre pais e filhos. (na maioria das vezes, rs)

Cátia: Eu acho que ele tinha alguma esperança.

Teeh: É a última que morre.

Nina: rs

Cássia: Sem esperança a gente não consegue nem acordar.

Cátia: Não sei… Precisamos de esperança para sobreviver? Ou precisamos dela para viver de verdade?

Cássia: Para tudo na vida.

Cátia: Haverá diferença entre viver e sobreviver?

Cássia: (Cátia, releia Jane Austen em breve!)

Cátia: (Sério… preciso mesmo… outro dia disse isso no Twitter.)

Cássia: (Precisa… para voltar a ter o coração cheio de suspiros.)

Teeh: Leia “Comer, rezar, amar”, Cátia.

Nina: (“Persuasão”, de preferência!!!)

Teeh: Que livro absolutamente gostoso.

Cássia: (Isso, “Persuasão”!)

Nina: Engraçado… Vocês lembram do nosso encontro de “Persuasão”???

Cátia: Acho que sim. Ai, “Persuasão”…

Cássia: Também acho que sim. Pena que a Teeh não pegou a fase Austen.

Nina: Ninguém parava de falar sobre o livro, sobre as personagens, era uma loucura só… A Cássia sofreu mediando o debate! kkkkkkkkkkk.

Teeh: Não. Li Jane Austen sozinha. BUAAAAAAAAAAAAAA.

Cátia: Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Cássia: Você adoraria. A gente amava ter discussões apaixonadas.

Cátia: Gente, foi animado.

Nina: E agora a gente se dispersa rapidinho!!!

Cátia: Mas “Emma” também foi…….

Cássia: A gente divergia, mas parecíamos mulheres loucamente apaixonadas, hehehe.

Nina: Muito apaixonadas!!!

[O papo seguiu sobre diversos livros. Até que Nina nos apresentou ao termo “senhorinha”…]

Nina: Quando eu trabalhava na livraria, esses tipos de livros ficavam numa estante que a gente chamava de “senhorinhas”.

Cássia: Senhorinhas, AMEI!

Cátia: Muito bommm, Nina.

Teeh: AHUSHUASAHUSUASAHUS.

Cátia: E como chamavam Jane?

Teeh: Delícia!

Cássia: Vamos criar o “Clube das Senhorinhas” só para ler esse tipo de livro.

Teeh: HSHSHSHSH .

Nina: Sério! Era Sidney Sheldon, Nora Roberts, Rosamund Pilcher, Jane Austen…

Cássia: Meu, sensacional.

Cátia: Eu nunca li a Nora, acreditam?

Cássia: Vamos mudar o nome do clube.

Nina: E eu era a senhorinha NÚMERO 1 DA LOJA! kkkkkkkkkk.

Cátia: Gente, mas Jane e Sidney nada a ver.

Cássia: A Nina vai nos guiar pela literatura senhorinha.

Nina: Não é por isso, Cátia, não é porque tem algo a ver, mas pela procura na loja, pelos romances. Tipo, a procura era maior pelas senhoras do que por jovens, entendeu?

Cátia: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, entendi. Eu apoio, eu quero literatura de final feliz.

Nina: Tipo, a juventude só quer ler “Crepúsculo” e cia, e as senhoras gostam do bom e velho romance.

[E então o rumo da conversa mudou: criticamos “Crepúsculo” e demais livros juvenis, Nina nos indicou belos livros do gênero, zoamos com Bella Swan até chorar de rir e nos esquecemos de concluir “A estrada”.]

Livro 11: Mãos de cavalo

O encontro aconteceu dia 11 de dezembro com participação de Alex, Cássia, Cátia e Laís. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Alex: Bem, quem começa?… rs

Laís: Depois de ler esse livro concluí que eu também posso escrever um romance.

Cássia: Eu conhecia tanto o livro, que achei que fosse de contos… só fui me ligar que era romance no capítulo 4 ou 5.

Laís: Não sei para vocês, mas para mim ele não teve absolutamente nada de mais; passei por ele praticamente sem sentir nada.

Cássia: Eu tenho uma lista de críticas e um punhadinho de elogios.

Laís: Também tenho elogios.

Alex: Eu achei que o livro tem umas questões muito interessantes e uma simbologia instigante, mas a escrita me incomodou um pouco.

Cássia: A primeira coisa que me incomodou: erros. Erros propositais.

Laís: Foi da escrita que eu gostei. Flui, ele te transporta para aquele espaço, para aquelas cenas.

Cássia: É que você gosta de descrição, não é, Laís? Eu não suporto.

Laís: Nada como uma descrição bem feita!

Cássia: Isso me mata: descrição.

Alex: Pareceu a mim como que o livro tivesse sido impresso sem revisão… fosse o 1º tratamento da narrativa.

Laís: Aquele começo, dele na bicicleta, foi lindo.

Cássia: Então, Alex… aí que tá.

Alex: Não revisão gramatical, que fique bem claro… rs.

Cássia: Tem erro proposital, aqueles “pras”. Em literatura, a regra para o revisor é: só mexa em acentuação. Em outros casos, perguntar ao autor. Tem “ver ela”.

Alex: Acho que a palavra melhor seria que o livro aparenta não ter sido editado.

Cássia: Tem “chegou na” em vez de “chegou à”. Tipo, para quê? Mas foi, hehehe. A Companhia das Letras é cuidadosa nisso. E só de revisão, foram duas. É coisa do autor mesmo.

Alex: Isso é interessante… Também não sei, mas pode ter alguma intenção embutida que não tenhamos captado, rs.

Cássia: (a Cátia não consegue comentar)

Laís: Confesso que isso não me incomodou.

Cássia: Então, ele escreve bem. Esse tipo de coisa é frescura, não cabe no texto dele.

Laís: Entendi que era algo proposital mesmo e só.

Cássia: Tá, mas qual o propósito? Colocar “pras” e “nas” ao longo do texto? Não rola se o autor escreve tão bem, porque ele escreve muuuuito bem!

[Cátia entrou na conversa]

Alex: Bem, retomando estávamos falando sobre a escrita…

Cássia: Isso, da falta de cuidado que eu achei que ele tem com o próprio texto. Sabe a impressão que eu tive? É como se ele tivesse escrito a história de maneira linear, em capítulos, depois resolveu misturar a ordem e fim.

Cátia: Estás a falar da forma que a história está organizada?

Laís: Acho que foi tudo proposital. Para que eu não sei, mas ingenuidade não sinto que foi.

Cássia: Isso, Cátia.

Alex: Também não acho que foi ingenuidade, parece tudo muito bem encaixado.

Cássia: Sim, foi proposital, mas a questão é qual o propósito.

Cátia: Gente, eu tenho de dizer, eu amei o livro.

Cássia: Sério?

Cátia: Sério.

Cássia: Eu xinguei o livro até a metade.

Cátia: lol. A parte inicial eu confesso, foi difícil porque ele exaustivo a escrever.

Laís: Amei a parte inicial.

Cátia: Mas o personagem era extremamente interessante.

Laís: Não sei se isso tem a ver com o fato de eu estar escrevendo mais, fazendo curso de escrita e tal, mas achei ótima.

Alex: O primeiro capítulo não pareceu que foi um resumo do restante da história com o paralelo entra os obstáculos na descida com a bicicleta e os desafios da vida do protagonista?

Cássia: Tem razão, acho que ele “resume” o personagem.

Laís: Confesso que não pensei nisso.

Cátia: Também não pensei nisso.

Cássia: Porque é sempre em torno disso, dessa história da bicicleta, depois do carro, mas como eu não gostei desse começo, não tinha nem pensado nisso.

Laís: Mas faz sentido.

Alex: Inclusive a fixação por sangue que depois permeia todo o livro de vermelho… rs. Tem vermelho prá todo lado… rs.

Cássia: Nem me fala nessa fixação por sangue, minha terapeuta ia amar tamanha escatologia, pelamor!

Cátia: O começo, para mim, foi difícil porque achei extremamente masculino.

Laís: Achei o livro inteiro masculino, in-tei-ro.

Cássia: Mas eu gosto de textos bem masculinos.

Cátia: A questão da infância em grupo. Sim, completamente.

Cássia: Tem de um outro autor, dessa mesma turma do Daniel Galera, que é testosterona pura e eu amo de paixão, não foi isso que me incomodou.

Cátia: Mas eu tive dificuldade de entender algumas coisas.

Laís: Quem é, Cássia?

Cássia: O Cuenca. Ele só conta histórias de mulheres chamadas Carmen. É MUITO macho-cho.

Cátia: Esse eu conheço.

Cássia: Que eu li umas cinco vezes.

Laís: Nunca li!

Alex: Acho que isso é porque é um protagonista masculino e os como os flashbacks se concentraram em momentos de transição (os rituais que passamos pela vida), mostrou aqueles tipicamente masculinos, afinal a jornada do homem é um pouco diferente da mulher.

Cátia: Sim, é verdade, o que eu achei.

Laís: É bem diferente.

Cássia: O nome do livro é “Corpo presente”, João Paulo Cuenca.

Laís: Às vezes incompreensível.

Cátia: E retomando o lado do sangue, vocês não acham que é interessante o facto de ele procurar quase que um sofrimento constante e, ao mesmo tempo, fugir dele?

Cássia: Ele se autoflagela o tempo todo.

Cátia: Sim. Mas ao mesmo tempo ele foge.

Cássia: Mas acho que isso é uma fuga. Quando a gente sente dor física, esquece a dor emocional.

Alex: Acho que não foi fuga e sim transferência.

Cátia: Como assim?

Alex: Sensação de dor no corpo compensava a apatia emocional.

Cátia: Não tinha pensado nisso….

Cássia: Não sei se seria transferência, mas acho que entendi o que você quis dizer.

Laís: Isso fica evidente quando ele está com a Naiara.

Alex: Como não podia sentir as agruras da vida emocionalmente, ele transferia para o corpo.

Cátia: Achei isso contraditório, mas as duas explicações são possíveis.

Cássia: O mais triste é que, no final, ele diz que as coisas serão diferentes e a gente sabe que, adulto, elas não foram.

Alex: Será que não? Não acham que o tema do livro é a segunda (ou segundas) chances?

Cássia: Claro que não… Olha a apatia da vida adulta.

Cátia: Não achei.

Laís: Aquele embate com os meninos que queriam bater no outro garoto.

Cátia: Achei mais uma expiação.

Cássia: Ele se afundou no estudo, se tornou médico, casou com uma mulher que não amava.

Laís: Acho que aquilo foi um começo e o fato de ter desistido de escalar tambémm, porque para ele escalar era uma fuga.

Cássia: E teve de dar surra em adolescente para se sentir vivo de novo? Aos 30 anos?

Cátia: Acho que foi uma expiação.

Cássia: Sim, isso foi.

Alex: Vocês repararam que a fase adulta dura menos de 2h? Acho que houve uma profunda reflexão durante esse período onde revisitou os momentos marcantes do passado e ele tentou “consertar” as falhas.

Cátia: Ele quis expiar, de alguma forma, a covardia do passado.

Cássia: Mas mostra como ele carregou aquilo com ele a vida toda.

Cátia: Sim.

Alex: E isso é muito legal quando você vê a forma como o livro foi construído.

Cássia: Eu achei a parte adulta melhor que a parte infantil/adolescente.

Alex: O passado vai revelando o futuro e o próprio passado ao mesmo tempo.

Cássia: Eu gostava mais de saber o que ele iria fazer do que quando ele era criança.

Cátia: O capítulo do parto da mulher é qualquer coisa…

Cássia: Mas aí eu vi uma coisa que não gostei. Era tudo meio anticlímax. Aquele parto, ó, quase desisti de ser mãe, hehehe.

Laís: A vida de muita gente é anticlimática.

Cátia: lollllllllll. Eu também. Mas muito intenso, muito real.

Cássia: Não é não, Laís. Na nossa vida, os acontecimentos se encadeiam em antes e depois.

Cátia: Muito cinematográfico.

Cássia: No livro, não é assim. A surra nos adolescentes quando ele é adulto é catártico, mas só entendemos isso nos capítulos seguintes, ou seja, não me envolvo com aquele momento porque não sei a importância que ele teve no passado. É disso que estou falando. Cátia, tem razão. Aliás, o livro todo é bem cinematográfico.

Laís: Digo isso porque há um momento em que ele diz que a vida parece sempre mostrar algo de heroico que nunca vem, algo assim.

Alex: Isso mesmo.

Cássia: Ah, entendi, mas é que falei de outro ponto mesmo.

Cátia: A desistência da escalada, como lembra a Laís, vocês entenderam o que fez o clique para ele desistir? Eu fiquei na dúvida.

Cássia: Não…

Cátia: Foi ele pensar na mulher, foi ele pensar na vida enquanto ia para a casa do amigo? Este foi um momento que não consegui alcançar bem.

Alex: Acho que é porque o livro vai mostrando uma pessoa que tem uma certa crise de identidade, de tentar descobrir quem ele é.

Cátia: Mas o que despoletou isso? Ele estar meio tremido com a mulher?

Laís: Sei que não é o ponto central, mas, Cássia, você falou que ele não amava a mulher; acha mesmo? Tenho dúvidas.

Cássia: Acho sim.

Cátia: Eu não tenho certeza.

Laís: Nem eu.

Cássia: Esse rapaz buscava por momentos “epifânicos”. Ele resolveu casar com essa mulher depois de um momento assim: “Vou te fazer feliz assim pra sempre”.

Cátia: Grandes auges?

Alex: Também não tenho uma opinião tão definida quanto aos sentimento pela esposa.

Cássia: Ãrrã, vai sim, fofo. Exatamente.

Cátia: Ele era muito de adrenalina.

Cássia: Ele nunca quis casar e resolveu quando teve um momento incrível com essa mulher. Isso não é amor. Bem, pelo menos foi como eu vi a situação, né.

Laís: Acho que ele aproveitou esse momento porque se contrapunha a toda a apatia que ele sentia por tanta coisa…

Cássia: Então, casou para não ter apatia e era impossível não ter.

Alex: Bem, é que ele era pessoa que se via (e aparentava) não conseguir ter sentimentos.

Laís: Uma chance de se conectar a algum universo exterior a ele mesmo.

Cátia: Interessante.

Alex: Acho que ele era meio Dexter… rs.

Laís: Hahahaha.

Cássia: Hahahaha! Fora a psicopatia, tem razão.

Cátia: Eu tenho que ver mesmo o Dexter.

Alex: Exatamente nesse sentido de ter uma dificuldade de conexão, rs. Até o gosto por sangue… rs.

Cássia: Opa, não viu ainda, Cátia? VEJA!

Cátia: Não, acredita?

Cássia: É sensacional. Angustiante, mas sensacional. Esse gosto por sangue foi me dando uma agonia…

Cátia: Acho que está a fazer falta na minha cultura de séries.

Laís: Vocês acham que o nome que ele deu para a filha tem algo a ver com a Naiara?

Cássia: Acho.

Cátia: Eu achei muuuuuuito coincidência.

Alex: Completamente. rs.

Cátia: Até a Naiara achou.

Alex: Isso mesmo. rs.

Cássia: E no que a Naiara se transformou, hein?!

Cátia: Eu cheguei a conclusão que ele era um prisioneiro do seu próprio passado.

Laís: Mas por que ele fez isso?

Cátia: Porque ela foi a mulher dele, apesar de tudo.

Cássia: Não sei… Acho que ele quis cuidar da Naiara e não conseguiu. Ele fala dela de um jeito paternal, mesmo na adolescência.

Cátia: Apesar de não ter sido mas poderia ter sido.

Cássia: Ele não conseguia vê-la como mulher.

Alex: Como se trata de tentar fazer o que não tinha feito, é como se desse a ela a vida que ele se sentia incapaz de dar. Ele queria amá-la mas não conseguia.

Cássia: Quando eles estão no quarto, ele mesmo ficava “mulher, mulher, mulher”. Exatamente. A filha era a única que ele amava.

Cátia: A tragédia os separou.

Laís: Por isso que eu gosto de discutir com vocês; vocês abrem portas de percepção. Não acho que a tragédia os tenha separado, ele mesmo os separou.

Cássia: Depois daquela tragédia, era natural ele ficar longe de todos. Eu também ficaria.

Cátia: Sim. Achei muito triste.

Alex: Eu acho que o que aconteceu com Bonobo (que nome!…rs) não interferiu na história dele com a Naiara.

Cátia: Não a separação, mas surra do Bonobo.

Laís: Fiquei me perguntando se o garoto que ele ajudou não poderia ser o filho do Pedreiro.

Cássia: Eu só lembrava dos macacos bonobos.

Cátia: Não achas?

Laís: Concordo, Alex.

Cátia: Nossa, que boa lembrança, Laís!

Alex: A história com ela foi mais uma, além da covardia no caso da morte do irmão dela, daquelas que ele precisava revisitar no presente.

Cássia: Não pensei nisso, mas pela idade, poderia ser.

Alex: É por isso que fico com a forte impressão sobre a questão da segunda chance.

Cássia: Só eu não vi segunda chance?

Cátia: Eu vi expiação e não segunda chance.

Cássia: É, acho que está mias para isso, resolver um trauma do passado para seguir adiante.

Cátia: Sim, mas mesmo aí.

Laís: Sim.

Cátia: Foi meio amargo.

Alex: Mas segunda chance não é voltar ao passado e refazer algo que deixou de fazer?

Laís: Acho que toda expiação, ou mesmo segunda chance, é meio amarga.

Cássia: Foi estranho. Ele com aquela machadinha que tem outro nome, atacando os meninos, não sei…

Cátia: Ele saiu de perto da Naiara e foi meio assim “adeus e até nunca”.

Cássia: Não, Alex.

Laís: Porque antes disso passa-se por um monte de coisas, um monte de pesadelos.

Cátia: Sim, é verdade, Laís. Sim.

Cássia: Segunda chance seria se ele pudesse salvar o Bonobo.

Cátia: Mas a expiação deveria ser um primeiro passo para um ressurgimento.

Laís: Não concordo, Cássia.

Cássia: Não sei, acho que a gente nunca é uma coisa só.

Cátia: E faltou um pouco isso, ou é em aberto para nós sonharmos.

Alex: Hum… Acho que a segunda chance não é salvar o Bonobo, mas sim não se acovardar naquele tipo de situação.

Cássia: Acho que ele era uma soma de coisas e a sua atitude na vida adulta não era apenas por conta do Bonobo.

Laís: Às vezes segunda chance é só você conseguir seguir; não consertar o que está feito, mas não cometer as mesmas bobagens.

Cássia: Queridos, respeito a opinião de vocês, mas para mim segunda chance é outra coisa. Seguir adiante não é segunda chance, é seguir, apesar do que aconteceu.

Alex: Era o tal de não desperdiçar novamente a chance de ser “herói” como o trecho que a Laís destacou.

Cátia: Agora estou confusa.

Cássia: Para mim, a questão ali não era apenas ser herói, era salvar alguém da morte.

Laís: A gente pode até discordar do modo, dele chegando lá e detonando os adolescentes.

Cássia: O Bonobo era aquilo que ele queria ser.

Laís: Mas não se pode negar que foi uma mudança de atitude.

Cássia: Não acho que tenha sido, Laís. Sinceramente. Até porque, não vemos como foi a vida dele depois disso, ele parou na Naiara e fim. Ele continuou médico? Continuou casado? Continuou escalando? Continuou amigo do Renan? Continuou apático?

Cátia: Ppois, ficou em aberto.

Cássia: Continuou buscando coisas para sentir dor? Se continuou, não mudou a atitude, só expiou o passado. Tirou a culpa dos próprios ombros, só isso.

Cátia: Sim.

Laís: Aí cada leitor pensa o que quiser e o que couber.

Cássia: Ele não fez para salvar o garoto, ele fez para si mesmo.

Cátia: Eu concordo com isso. Mas não posso negar que ele tinha um lado que gostava de aparentar ser um herói, gostava de aparecer.

Laís: Tinha mesmo.

Cássia: Isso sim. E achei tão estranho ele ser “ooooo” cara aos 30 anos de idade.

Laís: Desde o ciclista urbano, rs.

Cátia: Se foi uma expiação, temos um personagem empenhado em melhorar.

Cássia: Ninguém é cirurgião plástico renomado aos 30 anos de idade.

Alex: Nisso concordo, a questão não era salvar ninguém sim uma segunda chance dele conseguir uma conexão com o mundo.

Cátia: Se foi para aparecer, temos um personagem mergulhado no seu próprio egoísmo.

Cássia: Mas ele era egoísta.

Laís: Acho que tinha um pouco das duas coisas.

Cássia: E vocês podem me bater, mas não acho que ele queria melhorar. Sabe o que pareceu? Desculpem o vocabulário, mas… Quando a gente já está até a tampa e dá um foda-se no mundo.

Cátia: Sim, concordo, Cássia.

Cássia: Foi o que ele fez com a mulher e o Renan: “Fodam-se vocês e me deixem em paz”.

Cátia: Sim. Eu tendo a romantizar.

Cássia: E foi uma das partes que mais gostei do livro.

Cátia: Mas foi isso.

Cássia: Ele falando na “cara” do amigo: “Você fala demais!”

Cátia: lol. Renan você é o mala. lol

Cássia: Exatamente.

Alex: Você dar um foda-se para o mundo é uma demonstração de que ele poderia estar saindo da letargia emocional.

Cássia: Não suporto mais você. Todo mundo tem seu momento que enche a tampa, mas nem sempre surta.

Laís: Concordo de novo, Alex.

Cássia: Ele estava no momento propício de surtar.

Cátia: Sabem, num contexto diferente isto me lembra o perfume. Será que ele era apático ou ele tão egoísta que não estava nem aí para ninguém?

Alex: Acho que você sair de alguém que o talento para se conectar com as pessoas era se machucar para alguém que expressa seus sentimentos e toma uma atitude mais proativa (ainda que não tenha grandes resultados) é uma mudança considerável.

Cássia: Boa, Cátia! Para pensar…

Alex: Acho que apático.

Laís: Concordo de novo, Alex.

Cátia: Porque em algumas situações impressionava-me a insensibilidade dele.

Cássia: Para mim, ele continua sendo um rapaz egoísta que teve um surto momentâneo e que, se o livro continuasse, teria a mesma vida de antes.

Laís: Não há como saber isso.

Cássia: Não há como saber o que, Laís?

Cátia: Ele roçava a indiferença.

Laís: Se ele continuaria sendo um egoísta ou se de fato mudou alguma coisa.

Cássia: Claro, né, Laís? Hehehe. O livro parou, sei que não é possível.

Alex: Bem, não sei o que pensar. A não ser que adotemos um parâmetro do que é ser apático e do que é ser egoísta, daí fica mais fácil saber em qual dos dois penso que ele se encaixa, rs.

Cássia: Estou falando o que, na minha visão, aconteceria. Acho que cada qual o enxergará com seus próprios olhos.

Laís: Sim, Cássia.

Cátia: Eu acho que ele voltaria, continuaria com a mulher e teria outro surto daqui uns tempos.

Cássia: Eu não consigo vê-lo como alguém que deu uma guinada na vida. Vocês, sim. E se batermos nessa tecla, ficaremos aqui até amanhã.

Laís: Sobre apatia e egoísmo, não estariam as duas coisas bem próximas?

Cátia: Nem sempre, Laís.

Cássia: Há pessoas apáticas que são altruístas e pessoas “vivas” que são absolutamente egoístas.

Alex: Não uma guinada, mas uma mudança. E ele tinha um dilema e isso não é o mesmo do que um problema porque para se resolver um dilema você tem que mudar de percepção. Acho que isso ele fez. Agora, se isso trará grandes consequências à sua vida no futuro não sei e acho que nem o autor também… rs.

Cátia: Em nenhum momento do livro eu pensei nele como alguém apático.

Cássia: Qual era o seu dilema? Eu via um grande trauma ali, não um dilema.

Cátia: Eu vi um remorso.

Alex: Como uma pessoa solitária e renegada pode se conectar com o mundo?

Cássia: Saindo para o mundo é um começo.

Cátia: Renegada? Em que sentido?

Alex: Bem, mas só sair não irá resolver a não ser que haja uma mudança de percepção em algum nível.

Cássia: Mais ou menos. É fácil ser solitário quem vive no próprio mundo. E muitos renegados, na verdade, renegam as pessoas.

Alex: Boa pergunta. Talvez renegado não seja um termo muito apropriado… rs.

Cássia: Tem muito solitário que “odeia a humanidade”.

Alex: Talvez renegante? Existe isso? rs

Cássia: Ah, neologismo, vai, hehehe.

Cátia: Talvez exista.

Laís: Mas não dá para entender.

Cátia: Mas não entendo, renegado.

Cássia: Renegante não existe, o Houaiss me contou.

Laís: Solitário ele sempre foi, desde a infância; mas a gente não sabe o motivo.

Cátia: Ele se sentiria colocado de lado?

Alex: Ou ele se colocava de lado? O renegante seria nesse sentido

Laís: Aí é que está.

Cátia: Renegante, então.

Cássia: Acho que ele se colocava de lado.

Cátia: Então.

Cássia: Ele se sentia deslocado ali.

Cátia: Concordo com o renegante.

Cássia: Porque a galera gostava dele.

Cátia: Sim.

Laís: Concordo com o renegante também.

Cátia: Sim, é verdade.

Cássia: Ele não era o Morsa.

Cátia: Verdade. lllloooollllll. Ai, o Morsa.

Alex: Tenho um nanoconto em que o título “O Renegante”cairia muito bem… rs.

Cátia: Eu gostei do Morsa, tadinho.

Cássia: Também gostei do Morsa. Aí, Alex, já tem o título! hehehe.

Cátia: Todo mundo interessado só no game dele.

Cássia: Coitado.

Laís: Esse era renegado.

Cátia: Esse era.

Cássia: E todo mundo doido para fugir dali. E ainda mostra que ele teve uma vida típica de “a revanche do nerd”.

Cátia: Gente, adorei isso do renegado/renegante.

Cássia: Renegante é quem renega, certo?

Cátia: Acho que o teu conto vai fazer sucesso com esse título, Alex.

Alex: E já tenho o nanoconto, rs. Desculpem eventuais erros de concordância, etc: O Renegante – Viveu vários momentos felizes, não se deixou contaminar por qualquer deles.

Cátia: Sim.

Cássia: A palavra “correta” é renegador, segundo o Houaiss.

Cátia: Ihhhhhh.

Cássia: Lembra regador.

Cátia: Não soa tão bem.

Alex: Ah, deixa eu ter meu momento Guimarães Rosa vai… rs.

Cátia: Gosto mais do renegante.

Laís: Renegante é mais legal. E gostei do nano, Alex.

Cátia: Lembra navegante.

Cássia: “Renegador. Datação. 1785 cf. Catec. Acepções. Adjetivo e substantivo masculino: que ou aquele que renega.” Ah, claro, Alex.

Cátia: Alguém que vagueia no mundo da sua própria maneira.

Cássia: Se joga no neologismo e vai! hehehe.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Mas o mal de revisora foi descobrir no dicionário se existe, se tem sinônimo, essas coisas, hehehe.

Cátia: Hahahahahahaha.

Alex: Eu faria a mesma coisa, Cássia, é que meu mouse pifou e não dá para ficar saindo da janela do MSN e ficar navegando na internet, rs.

Cássia: Ah, saquei! hehehe.

Cátia: E o que dizer dos escritores que inventam palavras, tipo Mia Couto?

Cássia: Sinceramente?

Alex: Nossa, esse é campeão também… rs.

Cássia: Quanto melhor o autor, mais propriedade ele tem para inventar palavras.

Cátia: Pois é…

Cássia: Tem de ter propriedade.

Cátia: Isso também é verdade, não é para qualquer um.

Alex: Concordo.

Cássia: Exatamente. Tem uns livros ruins, textos ruins, umas coisas nada a ver e o autor “Ah, mas Guimarães criou, Mia criou, Saramago criou”. Filho, depois que você escrever algo semelhante a “Grande sertão: veredas” volta aqui e a gente conversa.

Cátia: Saramago é mais a pontuação e construção frásica.

Cássia: Sim, mas tem quem queira imitá-lo. aliás, imitam muito mais isso que os neologismos.

Cátia: Simmmmmmmm e como tem.

Cássia: Ele pode fazer essas coisas…

Cátia: Diz, Laís.

Laís: Uma dica: se tiverem a oportunidade de ler “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, do Marçal Aquino, não percam. Fecha parênteses.

Cátia: Ouço falar muito bem dessa história.

Alex: Opa, dica anotada.

Cátia: Depois, eu fiquei sem saber. Vocês gostaram do livro?

Cássia: O título é incrível, mas nunca li. No fim das contas, eu gostei.

Alex: Eu também gostei.

Cássia: Do meio para o final, eu comecei a gostar do livro.

Laís: Gostei mais depois dessa discussão. Me fez ver coisas que eu não tinha visto e dar uma importância maior aos acontecimentos.

Cássia: E daí dei crédito ao autor.

Alex: E emendando com outra pergunta: Vocês leriam outras obras do autor?

Cássia: Não que ele precise do meu crédito, hehehe! Mas não botava fé.

Cátia: Eu leria.

Cássia: Leria.

Cátia: Eu não botava fé, or causa do título.

Cássia: Essa pergunta é boa daqui para frente em todos os livros, se a gente leria outro livro do autor.

Laís: Leria, mas sem aquela expectativa absurda. Mas não colocaria na frente da minha fila não, o livro teria de esperar a sua vez.

Cátia: Mas eu comecei a ler, e parecei difícil, muito pormenorizado.

Alex: Eu também e essa resposta vale para os anteriores. Com exceção do autor d’O Perfurme, mas daria uma nova chance a ele (talvez).

Cátia: Depois eu fiquei tão fascinada. Esse nããããããoooooo.

Cássia: O autor de o Perfume, eu passo a vez para sempre.

Laís: Também.

Cássia: Eu leria outro do (qual o nome dele mesmo?)

Cátia: Eu nunca mais leria nada do autor de o Perfume e não recomendo. Perdoe-me, Teeh.

Cássia: Ai, meu Deus, do Cemitério de pianos, fugiu o nome!

Cátia: José Luís Peixoto.

Cássia: Isso! Dele eu leria.

Laís: Desse eu leria tudo e mais um pouco.

Cássia: Do Daniel Galera eu leria.

Cátia: Eu também e vou procurar mais coisas dele, gostei. Acho que foi o primeiro livro que eu li que achei totalmente masculino.

Cássia: Procurar mesmo eu não sei se vou, hehehe.

Cátia: E achei isso muito interessante.

Cássia: Leia “Corpo presente”.

Alex: Não sei vocês, mas adoro descobrir novos autores e saber que ainda tem coisas dele para ler… rs.

Cátia: Sim!

Laís: Eu sei que vou procurar mais coisas do José.

Cátia: O que a Laís recomendou eu já tenho aqui e já tenho o outro no olho.

Cássia: Eu confesso: sou reticente com novos autores.

Alex: Eu esqueci qual é o próximo… rs.

Laís: Nem começa.

Cátia: A estrada.

Laís: Eu vou ser uma nova autora e você vai ter que me ler, hahahahaha.

Cátia: Hahahahahaha.

Cássia: A estrada, Cormac MCCarthy. Sou reticente mesmo, ué, hehehe.

Laís: Mãos de cavalo pode não ter sido o melhor livro que já li para o clube, mas acho que esta foi a melhor discussão que tivemos. Foi bem produtiva.

Cátia: É verdade, porque eu acho que foi o livro com o personagem mais complexo.

Alex: Eu também achei a discussão muito elucidativa.

Cátia: E foi o livro mais desafiante para mim.

Alex: Eu achei um livro que a construção do personagem durante a narrativa foi muito bem construída.

Laís: Lembram que a Naiara disse que homens cegos a excitavam? Achei aquilo muito engraçado.

Cássia: Hehehe.

Cátia: Sim! A questão do tacto, talvez, ou um lado dela maternal.

Alex: Eu pensei o mesmo… rs.

Cátia: Não sei, eu achei ela muito maternal.

Cássia: Eu só pensava que ela era uma garota muito precoce.

Laís: Não sei…

Cássia: Para se excitar com Spectromen aos quatro anos de idade.

Cátia: Maternal no sentido de guiar, de ser uma guia. lollololololololloololol

Cássia: Mas maternal e excitação não são opostos?

Cátia: Eu só pensei.

Laís: Interpretação interessante.

Cátia: “Quem é o Spectromen?”

Alex: Segundo Freud e seu Complexo de Édipo, não… rs.

Cássia: Mas em Complexo de Édipo é outra coisa, é a fixação pela mãe ao vê-la como mulher, não pelo lado maternal da mãe, hehehe.

Cátia: Laís, eu achava que ela guiava mas não manipulava, entendes?

Laís: Claro, não manipulava nunca.

Cátia: Sim.

Laís: Tanto que perdeu o que mais queria.

Cátia: Quando ela o levou para o quarto, ela o guiou em todo o momento e todas as vezes que ela estava presente ela tinha assim uma presença marcadamente de observação e de condução, eu não sei explicar bem…

Alex: Então se a história seguisse a jornada mítica do herói ela seria uma espécie de mentor? Ou um aliado?

Laís: Está mais pra aliado, acho.

Cátia: Ela seria talvez uma conselheira… será isso ser mentor?

Laís: Sim.

Alex: No sentido proposto por Campbell, sim o mentor é um conselheiro.

Cátia: Mas a verdade é que ela era também uma aliada dela.

Alex: Ou quem apresenta o desafio e impulsiona o herói a iniciar sua jornada.

Cátia: Eita livro complexo!

Laís: Muito mais do que eu poderia imaginar.

Cátia: É verdade!

Laís: Ganhou vários pontos comigo.

Cátia: Para mim, foi o livro até agora. Na dianteira com O amor nos tempos de cólera.

Alex: Nossa… superou o do Peixoto que você gostou tanto?

Cátia: [carinha sorridente]

Cássia: Gente, só eu não vejo tanta complexidade e grandeza nesse livro? Eu acho que sou o ponto anormal no Clube de Leitura, sério.

Cátia: LLLLLLLLLOOOOOOOOLLLLLL. Ora bem…

Cássia: Estou me sentindo o Hermano.

Cátia: o Peixoto está lá em cima elevado.

Cássia: Vou lá estudar para o vestibular de Medicina.

Cátia: Acima dos céus. Hahahahaha. lololololololol

Alex: Agora ficou complexo: nós nos identificamos com a obra e você com o protagonista? rs

Cássia: Eu não me identifiquei com ninguém…

Cátia: lololololololololol

Cássia: E, para mim, o Hermano é só um garoto que passou por experiências na vida. Está longe de ser complexo ou de o analisarmos sob o ponto de vista da jornada do herói. Maaaaas, é o meu ponto de vista.

Alex: Eu sei que não se identificou… Eu só brinquei porque você disse que se sentiu como o Hermano, rs.

Cássia: Vocês veem de outra forma e só estou aqui copiando e colando no arquivo [que depois é publicado no blog]. Ah, foi porque dissemos que ele era excluído, ou se sentia de lado, hehehe.

Cátia: Eu achei desafiante a escrita, a forma de construção do livro.

Alex: E eu a construção do personagem e narrativa… rs.

Cátia: E o protagonista meio que indecifrável porque no fundo é tudo muito complexo e isso parece-me muito real.

Laís: Mais indecifrável para as mulheres, talvez (????????????????).

Cátia: Hahahahaha.

Alex: Eu me abstenho de comentar nesse ponto… rs.

Cássia: Ele não foi indecifrável para mim. Ou porque eu sempre tive mais amigos na infância.

Cátia: Não desce a rua na Caloi, Cássia!

Laís: Por isso eu disse talvez.

Cássia: Digo, mais amigos que amigas, eu achava os meninos mais legais. Ainda acho, na verdade.

Cátia: Você não fez colecção de papel de carta? LOL

Cássia: Fiz… E o que que tem a ver? Hehehe. Eu não agia como menino, eu só era amiga dos meninos, hehehe.

Cátia: EU FIZ TAMBÉM. Ainda tenho. Gente, que vergonha, eu ainda tenho.

Laís: Não se envergonhe não.

Cátia: Eu não era muito. Na realidade, eu não tinha mais amigos de um lado ou de outro.

Cássia: As meninas me excluíam na escola, hehehe.

Cátia: Sempre me dei bem com todos mas sem ser aquele elemento popular. Ohhhhhhhhhhhhhhhh. Eu seria sua amiga

Cássia: Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Abraço coletivo, gente.

Cátia: Eu dividiria a minha merenda contigo! Weeeeeeeeeeeeeee.

Cássia: Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Cátia: Hehehehhe.

Cássia: Também vou dividir minha merenda com você, amiga.

Cátia: Bem, íamos concluir mesmo?

Cássia: Fechamos o ano com chave de ouro. Livro bacana, discussão bacana.

Cátia: É verdade.

[Depois de longas trocas de feliz Natal e Ano-Novo…]

Alex: Abraços e nos encontramos na estrada… rs.

Cássia: É mesmo, vamos começar 2012, ano em que dizem que o mundo vai acabar, com um livro apocalíptico.

Cátia: Wow!

Cássia: Ai, que Deus nos proteja, hahahaha.

Alex: Presságio?! Nos vemos na próxima temporada do Clube.

Livro 10: A trégua

O encontro aconteceu dia 23 de outubro com participação de Alex, Cássia, Cátia, Laís e Nina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Alex: Em homenagem ao livro acho que hoje vou chamá-las pelo sobrenome… rs

Cássia: hahahahaha.

Nina: hahahha.

Cássia: Poxa, mas “Pires” não tem poesia nenhuma.

Laís: Vou adorar.

Cássia: Mas o seu sobrenome é bonito, né, bem.

Laís: Modéstia à parte, acho meu sobrenome lindo, rs.

Alex: D’Andrea é estiloso mesmo… rs

Nina: Laís, eu também gosto do seu, hehehe.

Laís: O Marcelino Freire diz que eu tenho nome de quem vai ganhar muito dinheiro escrevendo, hahahaha.

Cássia: Tomara, hehehe. Quem começa?

Alex: Hum, posso começar perguntando?

Laís: Claro.

Cássia: Pode-e-e-e.

Alex: Por que vocês acham que ele chamava a esposa de Isabel e a Laura de Avellaneda?

Cássia: Hmmmm, já pegou na jugular.

Alex: Tem relação com as circunstâncias em que conheceu elas ou com a época? rs

Cássia: Acho que com as circunstâncias.

Laís: Eu ia falar da circunstância.

Nina: Eu também acho.

[Cátia chegou]

Cássia: Eu acho, mas vamos falar disso mais pra frente

Laís: Eba!

Cátia: Mil perdões a todos!

Cássia: Imagina, fofa.

[Voltando à discussão]

Alex: Por que vocês acham que ela chamava a esposa da Isabel e a Laura de Avellaneda? Tem relação com as circunstâncias em que conheceu elas ou com a época?

Cássia: Pode chegar chegando, Cátia. Eu acho que com as circunstâncias. Apesar de estranhar que ele não tenha mudado isso depois.

Nina: É, eu também acho que com as circunstâncias (Oi, Cátiaaaaa).

Laís: Sim, também estranhei. Aliás, não parece, no relato dele, que o sentimento por ela fosse tão grande. Para mim alguma coisa estava estranha.

Alex: Pois é… por que não mudou? Será que ele se apaixonou pela Avellaneda e a Laura seria como se fosse uma pessoa diferente?

Cássia: Hmmm, não penso em sentimento com medida. Na verdade, a gente se apaixona pela ideia que tem na cabeça, né?

Laís: Não sei se pelo fato de ser um homem (não que homens não tenham sentimentos, mas eles verbalizam menos), ou pela idade, ou pela época.

Cássia: Talvez ele tenha se apaixonado pelo o que ela representava.

Alex: A trégua do título? rs

Cássia: Exatamente.

Nina: Eu também acho.

Cássia: Apesar de que… eu acho que ele gostava dela sim, mas se ligou depois.

Nina: Acho que ele gostava dela, mas o que ela representou na vida (sem graça?) dele foi muito maior.

Laís: Boa, Nina!

Alex: Era um amor mais aventuresco namorar minha subordinada bem mais nova do que uma mulher bem mais nova?

Cássia: Não, não… ele não saía de casa, só podia conhecer alguém no trabalho mesmo.

Nina: Não acho que tem muito a ver com o fato dela ser a subordinada não.

Laís: Acho que ela ser subordinada deu margem pro relacionamento.

Alex: Eu sei, mas não seria uma espécie de síndrome de Romeu e Julieta? Era mais gostoso esse amor confidencial.

Cássia: Ah, mas o amor confidencial tem seu charme desde que o mundo é mundo.

Nina: Hehehe.

Cássia: Senão ninguém se metia em roubada, hehehehe.

Nina: Kkkkkkkkkkk, boa!

Alex: Por isso, era mais gostos o amor proibido com a Avellaneda do que com a Laura…rs

Laís: Se deixasse de ser confidencial, na cabeça dele, traria mais problema do que solução.

Cássia: Mas ele a chama de Laura em algum momento? Eu não lembro.

Alex: Não.

Cátia: Não.

Laís: Não posso afirmar.

Alex: Quer dizer… só quando apresenta os novos subordinados da seção.

Cássia: Acho que havia um toque de impessoalidade nesse relacionamento.

Alex: E engraçado que os outros todos a chamavam de Laura.

Laís: Era iiiiisso que eu queria dizer quando falei sobre o sentimento dele, Cássia. Você se expressou melhor que eu, obrigada.

Alex: Quando ela faleceu… eles falaram: a Laura faleceu.

Cássia: Talvez chamá-la de Avellaneda foi um muro que ele mesmo se impôs. Ah, Laís, agora entendi…

Laís: E eu fiquei o livro inteiro sem entender qual era a dela.

Cássia: A impressão que tive é que ela se abriu mais e tal, e ele continuava na zona de conforto.

Laís: Não sei se ela gostava dele, sei lá. Não acho que ela se abriu tanto não.

Alex: O Avellaneda seria uma margem de distância de segurança, já que ele estava bem inseguro sobre a diferença de idade.

Cássia: É, ele morria de medo de ser traído, trocado, deixado para trás.

Nina: Cátia?

Alex: Eu achei que ela estava sendo simplesmente uma garota de 24 anos

Cátia: Estou a ler as vossas opiniões…

Cássia: Eu acho que estamos tão acostumados a ler amores avassaladores que quando aparece um casal que só se dá bem, obrigada, não gera tamanha comoção.

Laís: Tem razão. Isso é interessante nesse livro.

Alex: Ao contrário, eu achei bem mais interessante porque é mais crível.

Cássia: Sim, eu achei interessante, mas não achei comovente…

Laís: Na vida do protagonista, avassalador foi o que houve entre ele e a Isabel. Viveu tudo o que tinha de viver naquela intensidade com ela.

Alex: Amores avassaladores só se encaixam em relacionamentos adolescentes com vampiros que brilham no sol… rs

Nina: Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Cássia: Você não participou do nosso ano Jane Austen.

Nina: Nem é, Alex.

Cássia: Dobre a língua para falar desses amores, hehehehe.

Cátia: lol

Laís: Não seja radical, vai, Alex.

Cássia: Olha o Alex causando revolta na mulherada. Se até a Laís tá falando isso, hehehe.

Alex: Mas o “avassalador” em Jane Austen está numa escala diferente… algo como o impudico ato de uma anágua esvoaçante… rs.

Nina: Mas eu não sei… para mim a questão é a personalidade dele mesmo. Vocês lembram que tudo antes girava em torno da aposentadoria dele?

Cássia: Ixi, você não manja nada, Alex.

Cátia: Hein?

Nina: Oi?

Cássia: Ele vai tomar uma surra hoje.

Cátia: Então, o que seria avassalador?

Alex: É um avassalador mais comportado e maduro que fica ruborizado quando o chama assim.

Laís: Eita, Alex precisa ler as cartinhas apaixonadas nos livros da Jane para sentir o espírito da paixão daquela galera.

Cássia: Comportado? É que ela não mostrava depois do the end. Aquela galera arfaaaaaava.

Laís: E vocês acham que o amor do Florentino pela Fermina não era avassalador? Era, siiiiim…

Cássia: Opa. O dia em que Florentino deu um chega mais eu na Fermina não sobrou anágua sobre anágua.

Cátia: lol

Cássia: E seu Alex vem me falar de Crepúsculo, mas faça-me o favor, viu.

Alex: Acho que vocês estão confundindo avassalador com tesão enrustido… rs. O pessoal daquela época era uma panela de pressão, mas dizer que cometiam arroubos adolescentes…

Cátia: uhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Cássia: Eu não vou entrar no mérito, Alex, senão vou discutir com você.

Nina: Ih, eu acho que o Alex tá só querendo irritar a gente, hihihihi.

Cássia: E hoje eu não tô a fim. Mesmo.

Cátia: Acho que sim. Falando sério, eu quando era adolescente…

Laís: Todo mundo comete arroubos adolescentes na vida; e não precisa ser adolescente para cometer, basta estar míope.

Cátia: Teria adorado um Crepúsculo.

Alex: Não tô não, mas vamos voltar para o livro senão sai briga e não discutimos o que importa.

Cássia: Agora, achar que a gente cresce e fica amargo…

Cátia: Hoje, com a minha idade, é bobinho.

Cássia: amorfo, sinto muito. Morro adolescente.

Nina: Gente, e na boa… toda forma de amor é válida, não é?

Cátia: Certo.

Cássia: Mas do mal do Santomé eu não morro.

Cátia: Na adolescência vale tudo. Li muito Barbara Cartland e não me envergonho disso.

Laís: Como assim, Cássia?

Cássia: Como assim o quê, Laís?

Laís: Como assim, desse mal você não morre?

Cássia: Desse mal de uma vida amorfa, sem se emocionar com nada, sem grandeza de sentimento… Isso que estou falando. E grandeza de amor nada tem a ver com adolescência. NADA.

Alex: Bem, tentando relacionar os temas… a Avellaneda e o Santomé não tinham exatamente essa visão sobre o relacionamento? Ela era uma jovem de 24 anos e ele bem mais maduro e calejado.

Laís: Acho que essa vida amorfa só aconteceu porque ele perdeu a Isabel. Perdeu o encanto pelas coisas. Aí, não teve Avelaneda que desse jeito.

Cátia: Certo, Cássia.

Alex: Por isso ela era mais ousada e ele tão reticente quanto ao relacionamento e seus próprios sentimentos. Será? Eu acho que o sentimento dele pela Avellaneda foi maior do que pela Isabel. E por isso acho tão interessante chamar a primeira pelo sobrenome e a segunda pelo nome.

Cássia: Eu acho o contrário. Ele amava a Isabel.

Laís: Foi diferente. Ele compara as duas em vários momentos.

Cássia: Ele mesmo deixava isso claro e mostrava que com a Avellaneda ele tinha uma calmaria e tal, um conforto na vida. Por isso ela foi sua trégua.

Laís: Uma pessoa não substituiu a outra.

Alex: Bem… e essa não é a diferença entre paixão e amor?

Laís: Prova disso foi quando ele encontrou uma carta que a Isabel escreveu havia muito tempo…

Alex: Paixão é tempestade e amor não é calmaria?

Laís: Ele sentiu o impacto.

Cássia: Amor é calmaria, mas não é somente amizade e há pessoas que confundem isso.

Alex: Bem, mas fiquei com a impressão de que se a Isabel estivesse viva ele estaria na mesmice em que começou a história.

Cássia: Não sei se estaria… ele sofria de solidão, os filhos não se importavam com ele, o trabalho era burocrático.

Alex: Fiquei com a nítida impressão de que seu sentimento por ela só perdurou porque não houve tempo do fogo esvanecer lentamente.

Laís: Ele mesmo questiona isso. Não saberia dizer nem se os dois estariam juntos ainda. Pode ser, Alex.

Cássia: Gente, mas é o questionamento normal, especialmente depois do surgimento da Avellaneda.

Alex: Acho que é sintomático o fato dele ter dificuldade de se lembrar do rosto dela.

Cássia: Eu não fiquei com essa impressão… Ah, mas isso acontece com qualquer pessoa. Quando outro alguém some da sua vida, a imagem some mesmo.

Laís: Verdade.

Alex: Mas ele só a descreve em termos mais carnais… não é um sorriso que ele se lembra mais ternamente, mas do sexo.

Cássia: Não, não… ele se lembra sim de outros detalhes da Isabel.

Alex: Ele mesmo diz que não tinham muito em comum, mas na cama se entendiam muito bem.

Laís: Aquela carta que ele encontra e transcreve também é cheia de sexo. Não explicitamente, mas fica algo no ar.

Cássia: Gente, e qual o problema de ter sexo na história? Então ele ama a Avellaneda porque não fala disso e não ama a Isabel por conta disso?

Alex: Nenhum.

Cássia: Ué, mas parece, há um desmerecimento da Isabel por conta disso.

Alex: Ele a ama porque não fala SÓ disso.

Laís: Nenhum problema, só estou observando.

Cássia: O que difere um amigo de um namorado é justamente o quê?

Nina: Eu não sei, Alex. Estou com a impressão de que você o viu de uma maneira muito mais complicada do que ele realmente era.

Cássia: Também acho.

Alex: Bem… eu sou homem e consigo me identificar com ele… rs.

Nina: Para mim, ele era um cara solitário, aborrecido, entediado e mais nada.

Cássia: Mas somos mulheres e podemos entender o lado dele. Acho que ele estava em momentos bem diferentes da vida.

Nina: Tipo, um cara que a única preocupação era o dia da aposentadoria.

Cássia: E na época da Isabel…

Alex: Achei que ficou muito bem retratado como um homem lida com um relacionamento quando se é jovem e mais maduro… rs.

Cássia: tinha a vida pela frente, parece que o mundo era dele. Ah, se ser mais maduro é ser assim, na boa… Quando ele conheceu a Avellaneda, ele realmente achava que era o fim da sua vida. E, detalhe, aos 50 anos de idade. Tudo bem que na década de 1960, a visão era outra, mas para ele, não havia o horizonte.

Nina: Isso.

Alex: Bem, 50 anos em 1959… rs. Mas ele era bem deprimente mesmo… rs.

Cássia: Por isso ele não viu futuro com a Avellaneda. Se ele não tem futuro, como dar isso a ela?

Nina: Agora… não consigo ver essa complicação toda em cima dele não. Exatamente.

Cássia: Ele é mais simples do que se imagina.

Alex: Acho que a grande questão era: devo me entregar para esse amor se daqui a pouco ela pode se cansar de mim? Ela é jovem e eu logo serei um velho que não poderá acompanhá-la.

Laís: Bom, ele era um solitário crônico, talvez pelo fato de ter perdido a Isabel, como já falei. Mas teve sentimentos pelas duas, não sei se mais por uma ou por outra, mas diferentes. Porque foram diferentes momentos da vida dele, cronológica e existencialmente. Minha opinião se resume assim.

Nina: Concordo.

Laís: Ele tinha uma autoimagem irritante.

Nina: E quem garante que a Avellaneda não estava com ele só para passar o tempo ou para tirar onda de que estava pegando o chefe? Kkkkkkkkkkkk.

Cátia: Concordo, Laís.

Cássia: Tadinha, hehehe.

Alex: Opa… agora você entrou na mente dele… rs.

Cássia: Eu acho que ela gostava dele…

Laís: Também acho que gostava.

Cássia: E foi gostando mais a cada dia.

Laís: Mas era meio enigmática, sim.

Nina: Eu também acho, gente! Estava brincando.

Cássia: Eu sei, Nina, hehehe.

Nina: Mas ela era meio confusa também.

Cássia: Ah, mas dá para entender a confusão. Seu chefe vem, se declara para você, depois você tem um apartamento com ele, ele não te assume, não te mostra nada além.

Alex: Não achei que ela fosse confusa… ela estava agindo como uma jovem de 24 anos.

Cássia: É complicado quando se tem 24 anos.

Alex: Que certeza alguém pode ter nessa idade… Bem, ou em qualquer outra, rs.

Cássia: Certeza nós nunca temos.

Laís: Quanto mais o tempo passa, menos delas eu tenho.

Alex: Mas com o tempo ficamos menos impulsivos.

Cássia: Mas a pessoa quer um futuro, algo que venha depois.

Nina: Pois é!

Cássia: É, mas também não dá para pensar demais, senão a pessoa fica pensando pensando pensando… Ele tanto pensou, que ela morreu e sem saber que ele queria casar com ela.

Alex: Nossa… foram meses apenas.

Laís: Pois é.

Alex: Não exagera… rs.

Cássia: E daí que foram meses? Não estou exagerando. Precisa esperar anos?

Alex: Vocês realmente acham que um relacionamento para dar o passo adiante não precisa de um pouco mais de maturação?

Cássia: Isso é tão relativo… Hoje, eu acho que não precisa não. A gente saca a coisa.

Alex: Não anos… mas vocês o estão condenando por não ter decidido em alguns meses.

Cássia: Não estou condenando, mas ele tratou a Avellaneda como amante.

Laís: Ele tinha inseguranças demais.

Nina: E o que mais ele tinha pra fazer? Ele não se arriscou.

Laís: Mas não foi por maldade.

Cássia: Claro, sei que não foi por maldade.

Nina: Também acho que não, mas ele não se arriscou.

Cássia: Ele tinha mesmo o jeito de quem não se arriscaria.

Alex: Acho que esse ponto do relacionamento foi de comum acordo… ambos tinham questões quanto a divulgar esse relacionamento.

Cássia: Ah, contasse logo.

Laís: Ele se arriscou sim, do jeito dele.

Cássia: Dane-se o que o vizinho vai achar.

Alex: Acho que foi o que mais se arriscou.

Laís: Contar para os filhos, na cabeça dele, foi um grande passo.

Cássia: E a filha adoraaaaaava a Avellaneda.

Cátia: É verdade, Laís.

Alex: O que é diferente de quem mais investiu no relacionamento, pois daí foi ela.

Nina: O Jaime descobriu, não foi ele.

Cássia: Ela investiu mesmo. Calma, Nina, não entendi.

Alex: Estamos falando de 1959 e, espero que não tomem mal o que vou escrever, mas ela entregou sua virgindade.

Nina: Ele não contou para os filhos. O Jaime descobriu… Aí ele contou para a Blanca e para o outro lá (esqueci o nome). Não foi se arriscar, nesse sentido.

Cássia: Entregou sua virgindade, ai senhor… Não é presente! Hehehe.

Nina: Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Alex: Para um homem bem mais velho e que não assumiu publicamente o relacionamento e não prometeu fazer isso algum dia.

Cássia: É, pelo ano, isso era sim uma grande questão.

Alex: Bem, eu não sei como poderia me referir ao tema, por isso optei pela expressão anterior… rs.

Cássia: É, Nina, tem razão… Se não tivessem descoberto, ele não teria contado.

Cátia: Nina, mas quando ele contou para o Esteban ele pensou que ele não sabia.

Laís: Sim, tudo bem que um filho descobriu e que o outro já sabia, mas ele não tinha conhecimento disso.

Cássia: Importante eram os filhos. Depois que eles souberam, a questão era a família dela

e a mãe já sabia.

Laís: Bobinho ele.

Cássia: Quem é bobinho?

Laís: Ele pensou que podia controlar a informação, mas que nada.

Nina: Gente, para mim, ele não pretendia contar para ninguém. Não por maldade.

Cátia: A sério, Nina?

Alex: O Santomé porque o pai da Avellaneda é bobão mesmo.

Nina: Mas ele gostava daquilo.

Cássia: Sabe o que parece?

Cátia: Eu acho que ele iria contar.

Laís: Tô falando do Santomé.

Cássia: A Avellaneda era o seu segredo.

Nina: Isso, para mim era isso

Cássia: Sabe quando a gente esconde algo megaprecioso? Era tipo isso.

Alex: Acho que talvez o graça da coisa era manter em segredo.

Laís: Acho que ele ia contar, mas precisava de tempo. Muuuuuito mais tempo do que tinha.

Cássia: “Ó, minha vida é patética e vocês nem sabem o que tá guardado no apartamentinho.”

Nina: A vida era mais excitante daquele jeito, sei lá! Era como se nada nem ninguém pudesse interferir naquilo ali.

Laís: Não poderia saber que não tinha, claro.

Cássia: É, tem isso… Não contar também implica em ninguém se meter.

Alex: Bem, ele não sabia que não tinha tempo.

Cássia: E ninguém se meter diminui as chances da coisa azedar.

Nina: Isso.

Alex: Ela morreu repentinamente.

Cássia: Aí que tá: a morte dela. Pensemos: você tem um relacionamento e não dá uma ligadinha para a pessoa? Mesmo estando de cama?

Nina: Nossa, achei uó!

Cássia: Eu ia ligar. Mesmo sem voz quase, ia falar “Fulano, tô morrendo!”.

Cátia: Outros tempos, Cássia.

Laís: Por isso que eu disse que ela parecia enigmática para mim.

Alex: Aqui eu vou dizer uma coisa: foi ridículo o autor não querer compartilhar o que ela disse no leito de morte sobre Santomé… porque aquilo foi uma opção “estética” do escritor  e não do personagem.

Cássia: Mas, Cátia, por que isso tem a ver com o tempo? Ela estava morrendo.

Cátia: Mas ele não sabia.

Cássia: É, também achei, Alex. Mas não digo ele.

Cátia: Sabia apenas que estava doente, uma gripe.

Cássia: Digo ela, ela poderia ter ligado. Mas ela foi piorando. Sério, ninguém aqui ligaria? Mais de uma semana de cama?

Laís: Pois é, Alex, aquela morte foi reticente; nada convincente aquilo, deu a impressão de que o autor queria acabar o livro logo

Cássia: É, a morte dela foi estranha. A situação toda foi estranha.

Alex: Caramba, várias vezes o personagem escreveu que aquele era um diário pessoal e que ninguém ia ler, então por que diabos diz que não vai escrever para não compartilhar aquilo e ficar só para ele?

Cássia: Eu faço diários desde os 12 anos. Ó, são 20 anos. E tem coisa que não escrevo no diário.

Cátia: Eu acho normal para a época, um homem mais velho a ligar para a casa de uma jovem…

Alex: Acho que o escritor não tinha ideia do que poderia escrever como a última mensagem dela para o personagem.

Cássia: Não quis parece piegas.

Cátia: eu acho que ele não pensou que tivesse gravidade.

Cássia: Sim, Cátia, eu entendi ele não ligar.

Nina: Cátia, estávamos falando da Avellaneda ligar para dar um oi.

Cássia: A minha questão foi ela não ligar para ele.

Nina: Estou morrendo e tals.

Cátia: E é nesse vácuo que ele constata o sentimento.

Cássia: É, o grande clichê do “percebi que te amo quando você não estava aqui”.

Cátia: Sim, mas a questão é que nós lemos somente o ponto de vista dele.

Cássia: Sim, sim, Cátia. Mas o nosso questionamento é sobre o comportamento dela mesmo.

Nina: Isso.

Cássia: Eu acho estranho, ainda mais que a mãe sabia.

Laís: Eu acho estranho desde o início.

Cássia: Nem um bilhetinho no trabalho.

Nina: Sei lá, bando de gente estranha!

Cátia: Há tantas coisas neste livro que não tem uma explicação.

Cássia: “seu Santomé, carta da avellaneda”. Se fosse hoje, ela mandaria SMS, hehehe.

Laís: Acho que ela só entrou nesse relacionamento porque não tava fazendo nada e porque tinha que esquecer o ex.

Alex: Seria menos estranho do que a reação dele quando foi informado no escritório.

Cátia: A Avelleneda saiu como entrou.

Cássia: Laís, bem lembrado, o ex.

Nina: Eu também acho.

Alex: Que chefe entra em colapso porque soube que um funcionário faleceu? Como os outros funcionários aceitaram essa conclusão? rs

Cátia: Quase como uma aparição.

Cássia: É, ela entrou sem alarde e saiu sem dar tchau.

Cátia: Se a filha dele não tivesse conhecido ela eu pensaria que ela seria uma aparição

Laís: Adoro ter nascido numa época em que posso usar SMS, rs.

Cássia: Hahaha, boa, Cátia.

Nina: Kkkkkkkkk.

Cátia: A sério.

Cássia: Ah, Laís, eu também gosto… mas ainda sou fã de carta.

Alex: Nossa, o diário perdido da Avellaneda teria o seguinte então: hoje meu amado ex quis retornar para mim, mas como me livrar do passatempo? Acho melhor pedirem para ligar no serviço e dizer que morri.

Cássia: Hauauhahua, tadinha. Eu acho assim: ela começou com o Santomé porque ele gostava dela, daí o sentimento por ele surgiu.

Nina: Acho que os funcionários não aceitaram, Alex. Mas como o diário era dele, não tinha como ele saber o que a galera falava dele pelas costas.

Alex: E daí teria uma entrada diferente no dia que ele foi visitar a casa dela: nossa fiquei escondida vendo ele se lamuriar… sorte que a mamãe se livrou dele e o papai acreditou que era meu chefe que tinha falado que me perseguia e por isso saí do trabalho.

Cássia: Uma pessoa de 24 anos não escreve papai e mamãe, tá?

Cátia: A sério…

Alex: Só eu achei que esse nome Santomé é bem revelador?

Laís: Não captei.

Alex: São Tomé aquele que só acreditava vendo.

Laís: Sim.

Alex: Será que o nome era uma indicação da personalidade dele dada pelo autor? Alguém descrente com a vida.

Laís: Hummm, é possível.

Alex: E o milagre do amor estava acontecendo diante de seus olhos.

Cássia: Até agora, nós não tratamos a história dos dois como uma história de amor, perceberam?

Laís: Tenho dificuldade para tratar essa história assim. Não estou invalidando nada do que aconteceu, mas não consigo chamar de história de amor.

Cátia: Para mim, foi.

Alex: A visão que ele tinha sobre o relacionamento era mais próxima do amor do que da paixão. A dela eu não sei porque o diário era dele. Porém, eu sempre encarei como uma história de amor.

Laís: Não sei como chamaria.

Cássia: Para mim, também foi.

Nina: Para mim também foi.

Alex: Eu chamaria de amor quando mais próximo da vida real… rs. O amor comum dos livros é bem diferente desse por isso o estranhamento… rs.

Laís: Concordo com a sua concepção do amor, Alex.

Cássia: Não sei, não sei… Definir amor é como engaiolar pássaro.

Cátia: Concordo, Cássia.

Laís: Talvez eu esteja relutante porque a Avelaneda foi uma personagem estranha. Em outras palavras, não engoli.

Alex: Acho que há um equívoco aqui. É plenamente possível definir o amor, mas a definição deve ser pessoal e válida somente para quem a proferiu.

Cássia: E o que isso difere do que acabei de falar, Alex? Foi a mesma coisa.

Alex: Eu posso definir o que é amor, só não posso impor que os outros sigam a minha definição.

Cássia: Cada pessoa enxerga e sente o amor do seu jeito, porque a definição do amor passa pelo que você sente. Aí a gente fica aqui encaixando uma coisa na outra quando, na verdade, depende sempre de quem diz.

Alex: Desculpe, mas tinha entendido que tinha dito que não se pode definir.

Cássia: Acho que a relação dos dois foi amor porque aquilo transformou os dois… Eles cresceram com aquilo. O Santomé passou a ver a vida com outros olhos, ele não era mais um morto-vivo. Ele ainda tinha uma vida pela frente, possivelmente ao lado dela.

Alex: Era sim, senão fica sem sentido o título do livro. Depois do que aconteceu ele tem que voltar a ser um morto-vivo senão perde o sentido.

Laís: E, ao que tudo indicava, voltou mesmo.

Cássia: Infelizmente, voltou.

Alex: Bem, mas perder as duas mulheres que ele gostou assim não podemos culpá-lo.

Laís: Foi triste quando ele disse que não escreveria mais no diário.  Ok, o livro tinha de terminar, mas foi triste.

Cássia: É, foi bem triste… e a cena dela dando tchau para ele? A última vez que eles se viram.

Laís: Claro que não podemos. Não me lembro.

Alex: Ele escrever no diário depois da morte dela foi meio inverossímil.

Nina: Quando ele a deixou em casa, né? Nossa, foi triste.

Cássia: Isso, quando a deixou em casa, ela deu um tchauzinho fofo.

Nina: Hehehe, inverossímil?

Cássia: Não foi inverossímil não.

Laís: Também não achei.

Alex: Ora, se ele não tinha mais condições ou interesse de escrever o diário porque aquelas linhas finais… por que não ter parado… aquilo foi um desfecho para os leitores .

Nina: Não é bem assim não.

Laís: Ele tinha de terminar aquilo; não o livro, mas tentar terminar aquele ciclo.

Cássia: Porque tinha mais a ver ele parar no dia da aposentadoria, hehehe.

Nina: Kkkkkkkkk.

Cássia: E diário funciona de outro jeito. Há 12 volumes aqui em casa com 20 anos da minha vida. Te garanto que rola de outro jeito, hehehe.

Alex: Se eu perdi o interesse pela vida com o que aconteceu eu jogaria tudo para o alto e nunca mais escreveria no diário se assim eu tivesse decidido.

Nina: Pois é, eu também tenho e não funciona assim.

Cássia: É diferente. Quando algo dói demais, não tem palavras que exprimam isso. A gente se cala.

Laís: Sim!

Cássia: E chora, hahahaha.

Nina: E vai ter um dia em que você precisa exprimir de uma forma e outro dia de outra.

Laís: Eu já não jogaria fora, porque o que foi escrito fica como memorial.

Nina: O diário pode fazer parte disso.

Cássia: Jogar fora o quê? Ah, jogar fora jamais. É tão legal ler depois.

Alex: Ou não tem palavra para exprimir ou tem. Não dá para ficar sem exprimir e depois sentir vontade de escrever… rs.

Laís: Claro que dá.

Cássia: Claro que dá, imagina. Alex, vamos te dar um diário, aí você aprende como funciona.

Alex: Eu não disse jogar fora, rs… Eu disse jogar tudo para o alto… deixar de fazer.

Laís: Pode não dar em um momento, mas chega o tempo em que a dor diminui, pelo menos um pouco, que você consegue se mexer.

Cássia: Exatamente, Laís.

Alex: Acho que isso é o primeiro princípio da lógica: uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo… rs.

Laís: Ao mesmo tempo não mesmo.

Cássia: Alex, não me faça eu te mandar para aquele lugar, hehehe.

Laís: Mas existe o tempo do não e o tempo do sim.

Alex: Ou você diz: existe palavra para descrever, mas não a encontrei ainda ou não existe palavra e, daí, nunca poderá existir.

Cássia: Ai, caracoles. Não existe NA HORA, existe DEPOIS, e mais ainda DEPOIS DO DEPOIS. Até chegar o dia em que você conta e, em vez de chorar, você ri. Sacou o processo?

Laís: Ou, se não ri, pelo menos não sente aquela dor insuportável.

Cássia: Um dia para de doer. Às vezes demora uma vida, mas para.

Laís: Seria inverossímil se num dia ela morresse e no outro ele escrevesse no diário; mas essa pausa foi bem apropriada.

Alex: Hum, eu sinto muito, mas acho que não me daria bem com um diário… não sou assim. Não tenho uma vida para ficar me lamentando e tentando descobrir uma palavra para descrever algo… Eu vivencio e depois parto para outra vivência… rs.

Cássia: Também achei apropriada. Ai, Alex José, na boa. Vá ver a beleza das palavras. Vá ler Jane Austen.

Laís: Você não precisa se lamentar no diário, ué.

Cássia: Vá lá, flor.

Alex: Eu vejo sim a beleza nas palavras… rs. Todos vemos senão não estaríamos aqui discutindo apaixonadamente sobre um livro… rs.

Cássia: Tô vendo que vê.

Nina: Queridos, eu preciso ir!!!

Cátia: Eu também vou.

Cássia: Beijos!

Laís: Beijo, meninas!

Alex: Tenham um ótimo resto de domingo

[Nina e Cátia saem da conversa.]

Cássia: Diário nada tem a ver com lamentação.

Laís: No caso dele, teve, mas isso foi no caso dele.

Cássia: Mas a vida dele era uma lamentação.

Alex: Eu não disse que diário tem a ver com lamentação, desculpe se pareceu isso. Escrever é complicado para se expressar plenamente… rs. Eu estava pensando na situação do protagonista quando estava argumentando e disse que não conseguiria ser como ele.

Cássia: Ele era sozinho, não tinha com quem conversar. Não há nada na vida para se expressar plenamente.

Alex: Ãn? Sério? Eu prefiro acreditar que sim… rs.

Cássia: Acredite no que quiser, hehehe, mas não existe.

Laís: Cada um tem um jeito de olhar as coisas; por isso, cada um tem sua forma de expressar o que quer que seja. Ele se lamentava, coitado. Ele e muita gente.

Alex: Mas a maravilha da vida é que para eu estar certo você não precisa estar errada… rs.

Cássia: Vamos fechar o livro?

Alex: Claro.

Laís: Eu acho que dá pra gente se expressar plenamente, sim; só que existem formas e formas de se fazer isso, você pode encontrar a sua ou não. Claro.

Cássia: Pelo menos, eu ainda acho que não. No fim das contas, essa trégua que ele teve, foi amor ou não?

Laís: Não sei.

Alex: Não tenho certeza, mas fiquei com a impressão que sim.

Cássia: Eu acho que sim. Do jeito contido do Santomé, aos poucos, e mais e mais da Avellaneda. Mas acho que foi… E uma coisa linda do livro que nós não comentamos é o quanto um grande amor muda a vida de uma pessoa.

Laís: Sem dúvida.

Alex: Nem acho que foi tão contido, porque quem tem dúvidas não fica se preocupando com o futuro do relacionamento como ele que pensava 10 anos à frente. Acho que ele foi um pouco reticente.

Cássia: Eu acho que foi contido, ele não demonstrou tudo aquilo que gostaria.

Laís: Ele foi inseguro.

Cássia: Isso que quis dizer, dá para entender a insegurança dele.

Alex: Mas a grande pergunta é: houve amor? Para isso não precisamos saber quanto ele demonstrou efetivamente, mas quanto ele sentia. Nesse ponto, acho que ele tinha um sentimento muito forte.

Cássia: Por isso que eu disse que, sim, acredito que ele a amou, do jeito contido dele.

Alex: Bem, finalizando: é um ótimo livro. Gostei bastante.

Cássia: Também gostei.

Alex: E da escrita também.

Cássia: Também.

Laís: Eu também gostei, apesar das coisas que não me convenceram, que já citei. Mas foi excelente.

Cássia: A leitura flui…

Alex: Qual é o próximo mesmo?

Cássia: Mãos de cavalo.

Livro 9: O perfume

O encontro aconteceu dia 11 de setembro com participação de Alex, Cássia, Cátia, Laís, Nina e Teeh. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: Quem aqui NÃO gostou?

Cátia: Quem aqui gostou?

Alex: Hum… não sei se diria que não gostei… minha opinião sobre o livro é como o protagonista: não fede e não cheira.

Cássia: Hahahaha. Eu não gostei. A pretensão do autor me incomodou mais que o livro em si.

Alex: Acho que se o livro tivesse sido escrito por um francês no século em que se passa a história daí seria um livro bom.

Cássia: Vamos lá, quem começa? A Teeh, que amou o livro?

Teeh: Deixem-me colocar La Marseillaise pra tocar aqui e entrar no clima de advogada de defesa.

Cátia: Mas você gostou, Teeh?

Cássia: Ela amou mesmo o negócio.

Teeh: Do livro? A D O R E I.

Cátia: Porque você pode defender sem ter gostado. Wow! (é, vai ser aceso.)

Cássia: Então, nos diga, por que você adorou?

Teeh: Inclusive, estou com ele a meu lado aqui para não falar nada sem fundamento. Antes de qualquer coisa: Aux armes, citoyens!

Cássia: Para de nos enrolar, Teeh, defenda logo o Jean! Hehehehe.

Cátia: Hahahaha.

Teeh: HAHAHAHA, então vamos lá!

Nina: (nina esperando…)

Teeh: Primeiramente, eu achei o livro MUITO claro quanto ao que se propõe através da imagem do pobre, desolado e injustiçado Jean-Baptiste. Sou sincera quando digo que em algumas páginas eu me envolvia tanto na história que juro que podia sentir os odores que ele desenvolvia e desmembrava. Claro, tudo é muito explícito e isso, muitas vezes, incomoda. O início do primeiro capítulo, a apresentação em que são citados os odores dos homens e mulheres, dos dejetos e derivados por Paris me deixaram parcialmente embrulhada.

Alex: Bem, se me permite, vou dizer o que acho sobre os pontos que mencionou, Teeh. Em primeiro lugar, tem muita desolação, pobreza e injustiça à volta do protagonista, mas nada disso o afeta, a não ser de forma circunstancial, porque ele não é o que é por causa disso. A natureza dele seria a mesma se fosse rico. Em segundo lugar, a história é mais uma crítica de costumes do que qualquer outra coisa e o autor não tem tanta credibilidade para isso porque ele escreveu a história no local e século errados. Se tivesse sido escrito na França do tempo da história seria uma história mais interessante.

Laís: Eu acabei de chegar, mas já digo que concordo com o Alex.

Nina: Eu também.

Cátia: Bem, eu não concordo.

Cássia: No caso dele narrar tudo com tamanha precisão, concordo, a gente entra na história… mas…

Alex: Daí fica só parecendo mau gosto um alemão escrever mal sobre uma França de um século que ele sequer conheceu.

Cássia: Mas a gente não precisa conhecer algo para falar sobre ele, no caso de um livro de ficção. O que me incomoda no livro é o quanto ele se aprofunda nos odores, parece que ele próprio está pirando nos odores todos e a gente é obrigado a acompanhar isso, sem qualquer margem para a minha imaginação funcionar.

Laís: Mas acho que a intenção é essa mesmo, não?

Cássia: Sim, a intenção é essa.

Alex: Acho que ele é meio pretensioso porque fica parecendo que quis escrever um Madame Bovary sem estar no local e época corretos e também ter o mesmo talento.

Cássia: Por isso mesmo, acho um dos pontos pretensiosos do livro ele querer transformar um livro em perfumaria.

Nina: O livro me incomoda porque tudo nele é demais. Está certo, a gente imagina, sente e isso é legal numa obra, mas tudo me pareceu exagerado, sabem como é?

Cássia: Também acho, Nina… ele se excede.

Nina: Tive a sensação de que o livro é só isso.

Teeh: Concordo com a Cássia no sentido de que o livro é uma ficção, não se propõe a retratar nada SÓ com a veracidade de época.

Cássia: Por mim, o cara pode falar o maior absurdo do mundo, mas tem de me fazer acreditar,

embarcar na história.

Nina: É verdade.

Alex: Ele escreve usando um discurso indireto sem ter a classe de um Flaubert e tenta ser engraçado sem fazer rir com as sutilezas de um Molière.

Laís: Voltando à questão dos odores, defendendo…

Teeh: É justamente aí que eu me envolvo, Ana: TUDO É EXCESSIVO. O ser humano é excessivo, deixou-se inebriar por seus prazeres.

Cássia: Ah, Teeh, mas daí vai de cada um. Nem todo ser humano se inebria pelos prazeres. E outra, você já tocou no ponto que MAIS me incomodou.

Nina: Concordo com a Cássia.

Cássia: O autor confundir fascinação, inebriar, amor e desejo.

Alex: Eu fiquei imaginando ele como o protagonista do último filme do Woody Allen, mas ao invés de sonhar com a França do início do séc. XX, ele sonhava com a do séc. XVII ou XVIII.

Laís: Será que vocês não acharam tudo demais porque ele enfatizou um sentido pouco explorado, o olfato? Tem gente que se excede descrevendo paisagens, cenários e mais cenários, mas ninguém reclama disso.

Teeh: Sim, há uma confusão de sentimentos, definições, da própria personagem.

Cássia: Não, do próprio AUTOR. Ninguém começou a transar loucamente por conta da confusão da personagem.

Teeh: Também! HAHAHA.

Cássia: Ou sentiu compaixão por ele por conta da confusão da personagem, ou ele foi comido vorazmente por conta da confusão da personagem. O autor misturou tudo: o fascínio pela beleza das meninas com amor, compaixão, desejo, tudo de uma vez, e fala como se fossem uma única coisa.

Teeh: O caso é esse: ele mistura tudo por que nada é tátil.

Cássia: Nanina, não me venha com churumelas.

Nina: Kkkkkkk.

Cássia: Ele usa o cheiro para falar dos três…

Teeh: Todas essas coisas são abstratas!

Cássia: e mistura os três no mesmo cheiro.

Cátia: Isso não é importante para ele, o lado tactil.

Teeh: E o odor é a ligação entre elas.

Cássia: Abstratas, mas tem características próprias. O meu desejo eu não pego, mas eu sinto e sei reconhecê-lo. O desejo, para você, pode ser outro, mas você o reconhece.

Teeh: Mas pela visão da personagem, confusa, sem noção do correto ou não, tendo por base somente seus instintos, tudo parece semelhante.

Cássia: Mas o livro não foi escrito em primeira pessoa.

Teeh: Alguém em tais condições não tem noção moral do correto e do errado.

Cássia: Não tem nada a ver com o Jean. Eu não estou falando de moral, nem estou tocando nesse ponto.

Teeh: Do limite de suas ações ou influência das mesmas.

Nina: Cátia?

Cássia: Estou falando das sensações que o perfume das meninas causou.

Teeh: Hahaha, entendo, mas TUDO isso envolve-se!

Cátia: Nina?

Cássia: Não tem nada do Jean nessas histórias. Falem vocês, queridas. Vocês também têm suas questões sobre o livro.

Cátia: Bem, não posso dizer que tenha adorado. Também não posso dizer que tenha detestado. Quando o comecei a ler, pensei que seria um livro muito interessante.

Alex: Posso perguntar algo? Toda história tem uma “moral”. Na opinião de vocês, qual seria esta no livro?

Cátia: A trajectória do nascimento, crescimento, até ele chegar ao Baldini até pareceu-me interessante mas…

Cássia: (Já comento, Alex.)

Teeh: (Já comento, Alex.) [2]

Cátia: A partir daí perdeu para mim o sentido. A descrição dos cheiros de Paris, do facto dele não ter cheiro próprio, até da falta de alma da mulher que o criou tudo me pareceu interessante. Mas o sentido perdeu-se. A ideia dele perseguir o aroma perfeito foi o que se destacou para mim mas, muitas vezes, tive dúvidas se esta seria a questão.

Alex: Eu pergunto isso porque penso que deve ser a primeira coisa a se pensar e a partir daí ver se as opções do autor quanto ao desenvolvimento do enredo e também estéticas realmente colaboraram para desenvolver sua mensagem.

Cássia: Hmmmm… Não acho que toda história tenha uma moral, tampouco acho que o autor se preocupou com isso… Ele estava mais preocupado em desenvolver uma obra-prima.

Cátia: Sempre ele dizia: “Estou mais próximo do meu objectivo.” E eu: “Qual?”.

Nina: Eu também tive essa dúvida.

Cássia: É, não teve um “ponto”, uma busca real.

Cátia: Trata-se de um livro sobre obsessão? Parece-me. Porque para ele tanto fazia cheirar um rato como um balde de chocolate.

Laís: Eu poderia dizer que reside no fato de que alguém guiado somente pelos instintos é incapaz de viver em sociedade. Mas tenho dúvidas quanto a esse negócio de instintos. É confuso.

Alex: Bem, para ficar melhor explicado, achei uma palavra mais apropriada (creio eu)… Qual a questão dramática?

Cássia: O Jean me lembra um cachorro.

Cátia: Então, como podia ele ter a ideia de que haveria um cheiro perfeito?

Cássia: O autor poderia ter usado aquele primeiro assassinato como o fio condutor, mas não fez isso.

Cátia: Não acho que seja um livro de alguém pobre e injustiçado – para ele tanto fazia ser quem era.

Teeh: Nisso eu concordo, eu acho que o livro apresenta muito desleixo desde a concepção à finalização da história, mas concordo com a Laís no fato de que uma das ideias é mostrar que “reside no fato de que alguém guiado somente pelos instintos é incapaz de viver em sociedade”, mesmo que a sociedade seja uma “selva”.

Cátia: Ele dormia numa gruta e fazia a vidinha dele e tudo bem. Mas, Teeh, que instintos? Quais eram os instintos dele?

Alex: Concordo que trate de uma obsessão, mas ficou crível a forma como o escritor mostrou isso? Para mim, ficou meio confuso… a história se desenvolve mal e há horas em que ele retira o foco do protagonista e daí qualquer tentativa de conseguir retratar essa obsessão se perde.

Cássia: Tanto é que, na gruta, foi o momento em que ele “estava pleno”.

Cátia: Ele só tinha um.

Cássia: Concordo plenamente, Alex. Ele só falava de cheiro, de odor, era só isso.

Cátia: Era uma obsessão, sem dúvida, mas faltou o deslindar do aroma.

Teeh: Os instintos provocados pela comunicação verbal e não verbal, pelo olfato, a transformação de uma personalidade psicopata, perversa, cometendo atos criminosos mesmo que realizados sem intenção em busca do que, como Alex falou, tornou-se uma obsessão.

Cássia: Acho que o autor pirava muito nas descrições e se perdia do foco da história.

Cátia: Descrever vários aromas não é o mesmo que qualificá-los.

Cássia: O principal, para mim, sempre é a história.

Cátia: Não tem de ser tudo visual.

Cássia: Mas aí que está, não houve clareza para delinear essa obsessão. Concordo com a Cátia.

Cátia: Exacto.

Laís: Discordo que tenha sido sem intenção, Teeh.

Cássia: E o autor não dá espaço para que o leitor preencha as lacunas.

Teeh: Eu acho que Grenouille tinha uma personalidade autista. Talvez devido ao seu isolamento social, alienação com o mundo e desconexão emocional com as outras pessoas…

Cássia: Parece que temos de seguir o que o autor quer que a gente siga, o tempo TODO.

Alex: Bem, seria assim Teeh se o livro fosse narrado em primeira pessoa, mas não por um terceiro informal que parecia estar contando uma anedota (pastiche) e que várias vezes deixava de acompanhar o protagonista.

Cássia: Falou tudo, Alex. Muitas vezes, o protagonista ficou de lado.

Cátia: Mas aí, Teeh, não concordo.

Alex: Deveríamos ouvir a voz do protagonista para falar de algo tão interno, senão vira piada.

Cássia: Se esse livro fosse em primeira pessoa seria um livraço!

Teeh: Eu acho que sim, Laís, por mais que ele planeje seus atos, acho que ele confunde-se com o que cabe e pode-se fazer e o que não.

Cássia: Porque, o primeiro grande erro, para mim, é que a gente não embarca no Jean. Sem isso, um abraço.

Cátia: O isolamento social dele é porque ele não estava nem aí. O mundo podia estar desconexado dele mas ele só estava por opção.

Teeh: Também acho que o livro deveria ter narração em primeira pessoa, isso sem sombra de dúvidas, pois deixaria tudo MUITO MAIS claro.

Alex: Pode parecer mentira, mas eu enxergava a história o tempo todo como um esquete do Monty Python.

Cássia: HAHAHAHAHAHAHAHA.

Nina: Hahahahahahahahahaha.

Laís: Se o livro fosse narrado em primeira pessoa, vocês acham que ele mereceria outro final?

Teeh: Não acho, Cátia, o isolamente dele surgiu como consequência do início da vida: desde a amamentação ele era renegado por não ter cheiro! HAUSHUAHSUAHSUHAUS.

Cássia: Mesmo em terceira merecia outro final. O final foi patético. Gente, se todo renegado se isolasse, o mundo estaria perdido da silva.

Nina: O final foi ridículo.

Cátia: Não concordo realmente.

Teeh: Hahaha, eu imaginei um monte de punks e góticos sentados no cemitério da Consolação esperando um mendigo.

Cássia: Comecei a rir na hora da orgia. Eu pensei: “Cara, ele tá me zoando”. Antes, aliás, no momento da compaixão. Eu pensei: “Meu, ele tá realmente me zoando”.

Laís: Nossa, o povo transando e o fim realmente foram o fim.

Cássia: E quando ele acorda na cama da menina? Com o pai dela chamando o outro de filho.

Cátia: Foi o único momento surpreendente para mim, o pai da menina abraçá-lo.

Cássia: Ah, aí eu vi que realmente ele estava tirando um barato com a nossa cara.

Teeh: Mas é ai que está Cássia: para mim o Jean é um caso isolado, ele se deixou levar por sua indiferença pelo mundo.

Cássia: Foi ridículo. Mas aí foi escolha dele… não acho que seja condicional.

Teeh: Eu achei um exemplo de alienação.

Cátia: Esta parte eu até achei interessante.

Cássia: “renegado = isolado = alienado”

Teeh: AUTISTA!

Laís: O pai da menina tratando-o bem foi algo que definitivamente não coube em lugar nenhum; nem a fascinação coletiva justificou aquilo.

Cátia: Porque ele provou a superficialidade da sociedade.

Cássia: Não, nada de autista.

Cátia: E um autista não está nem aí para isso.

Cássia: Para o autista, nem quem está do lado existe. Para o Jean, o mundo existia SIM. Ele que não estava nem aí pro mundo.

Cátia: Sim, totalmente.

Cássia: Concordo, Laís. Nada justificou.

Cátia: Concordo, Cássia.

Teeh: Porque era obsessivo.

Alex: Se era autista deveria viver num mundo próprio… mas não vemos esse mundo porque um narrador estranho conta a história.

Cátia: Se ele não se desse conta do mundo, ele não teria se isolado.

Teeh: É aí que está Alex, viu?!

Cássia: Nem todo obsessivo é assim, mas o Jean não vive num mundo próprio, os outros existem.

Cátia: Nem sequer teria se suicidado.

Teeh: Sei que não, Cássia, mas repito: acho que ele é um caso isolado.

Cássia: O mundo existe, as pessoas existem, a vida acontece. Ele que não quer fazer parte disso, gente. Concordo, Cátia.

Cátia: Ele não suportava o mundo.

Cássia: Pode ser um caso isolado, mas essas questões não justificam a sua conduta.

Laís: Ele era obsessivo, mas usava o mundo em favor de si; perguntava, observava, aprendia… Tudo para alcançar um objetivo, por mais inverossímil que possa parecer.

Nina: Não mesmo.

Cátia: E a busca dele do cheiro perfeito era para ver se algo fazia sentido.

Cássia: E esse devia ser o fio condutor do livro: a busca do cheiro perfeito.

Teeh: Concordo com seu ponto de vista, Cátia.

Cássia: Sem perder o foco.

Cátia: Mas quando ele conseguiu prender o cheiro perfeito, como em qualquer obsessão, ele não foi capaz de o suportar.

Alex: Acho que mais do que fazer sentido era buscar um propósito e a conclusão que chegou quando o atingiu foi que o levou para aquele final do livro.

Cássia: E foi justamente aí que o autor se perdeu total. Então, mas a conclusão era o ápice, deveria ser verossímil.

Laís: Concordo, Alex e Cátia.

Cássia: Quando as mortes começaram, daí sim eu vi um bom livro. Quando o pai o encontra lá no celeiro, carambola, aquilo que é tensão.

Cátia: Wow! É verdade.

Cássia: Até eu perdi a respiração.

Cátia: Essa parte foi boa.

Nina: Nossa, ali foi tensão.

Cássia: Pô, por que não escreveu o livro inteiro assim? Fica narrando cheiro?

Cátia: Eu: o cara é bom.

Alex: Pois é, outra falha grande do livro… a história dos assassinatos começa muito tarde.

Cátia: É verdade.

Teeh: Eu acho que ele utiliza os perfumes como uma busca de poder, uma forma de controlar aqueles que o tornaram dependente durante tanto tempo, uma inversão de papel entre animal e aquele que o domina.

Cássia: Foi muito boa essa parte.

Nina: Pois é, por isso eu volto a falar no exagero.

Cássia: Também achei, Alex.

Cátia: Concordo, Alex.

Cássia: Eu entendo como ele usa o cheiro.

Alex: E é bem corrida.

Teeh: Gosto bastante dos assassinatos também, rs.

Cátia: Eu pensei que todas as mortes, do Baldini e dos outros, tinha sido ele. Juro.

Cássia: Sério?

Cátia: Depois vi que o rapaz era pé frio mesmo.

Nina: Hahahaha.

Teeh: Eu acho que foram, de alguma forma, surreal.

Cássia: Hahahahahaha. Poxa, mas o autor é tão controlador…

Teeh: Acho que o autor tentou alguma coisa ali que não funcionou sabe?

Cássia: TÃO controlador…

Cátia: Não teria sido interessante se fosse ele?

Cássia: que ele mostra a morte de todos os personagens, não deixa a gente pensar, imaginar, nada.

Teeh: Isso é, Cássia, ele nos priva de qualquer imaginação, QUALQUER.

Cássia: Ele quem manda o tempo todo. Poxa, eu queria imaginar. Exatamente, Teeh.

Alex: Por isso que digo que é um pastiche… o narrador não estava preocupado em contar a história de um assassino temível, mas simplesmente destacar uma figura exótica.

Cássia: Não há NENHUM espaço para imaginação.

Nina: Ele só quer que a gente sinta o que ele descreve.

Cássia: Exatamente, Alex, mas acho que isso foi piração do autor em escrever o livro perfeito. Se a obsessão do Jean era o perfume, do autor era o livro.

Teeh: Mas voltando às mortes, acho que tem algo aí, pois vocês percebem que depois que o Jean sumia, partia ou derivados, acontecia exatamente o contrário do pretendido pelas personagens!!! 0_0 Concordo PLENAMENTE contigo Cássia – nesse ponto. HAHAHA.

Cássia: Mas a mãe adotiva dele, a primeira, morreu beeeeeem depois, aliás, o autor é meio Jean, vocês viram?

Alex: Ele quis fazer um livro do calibre de Madame Bovary, tentanto inclusive emular as melhores características desse, mas no final ficou meio patético… rs.

Cássia: Putz, preciso ler Madame Bovary, hehehe.

Laís: O exagero maior, pra mim, foi no ponto em que ele estava na gruta; e o narrador começou a viajar naquele mundo paralelo que o Jean criou, com garrafas de odores perfeitos, criados invisíveis, etc. Até então, o lance dos odores não havia me incomodado; mas ali foram páginas e páginas desnecessárias.

Teeh: Sim, Cássia, mas é ai que está: ela morreu BEEEEM depois de uma forma completamente diferente do planejado a vida toda. Eu acho que o Jean trazia um fardo de desgraça das costas.

Cássia: Ah, mas com a gente é assim também, né? Hehehe! É raro alguém ter a vida exatamente imaginada.

Nina: Nossa, coloca raro nisso! Hehehe.

Alex: Sabe uma coisa muito desnecessária: as mortes de todos que cruzaram seu caminho e de modos mais bestas.

Teeh: Sim, mas com o Jean era em TODOS os casos!

Cássia: Nessa parte da imaginação, até eu demorei para me tocar que era insanidade. É, todo mundo teve morte estúpida.

Teeh: Quando as coisas começavam a melhorar após a presença do ‘menino sem cheiro’, elas sucumbiam à desgraça maior.

Alex: Daí o autor se desviava do protagonista para mostrar outra figura estranha como o Baldini, etc.

Cássia: É, mas sabe o que parecia? A vida das pessoas melhorava com a chegada do Jean.

Cátia: Tipo maldição.

Cássia: E piorava com a sua partida. Tipo, o Jean é o cara, entende? Hehehe. “Fica pertim de mim que sua vida dá um salto!”

Cátia: Eu pensava que era ele.

Laís: Mas isso é algo que não se sustenta.

Teeh: Não acho, por que todas as pessoas sentiam-se ameaçadas e perturbadas por ele.

Cássia: Enquanto ele está presente, sim. É, mas o mantinham por perto.

Cátia: E estava esperando ate o fim que viesse a revelação.

Laís: Tipo, maldição/bênção, isso existe no livro, mas a gente não sabe o porquê.

Teeh: Por interesse.

Cátia: Teria sido muito mais interessante.

Cássia: Porque a pessoa ganhava dinheiro, posse, fama.

Teeh: E ai está outra crítica que acho que o autor poderia usar e se perdeu: a hipocrisia da sociedade.

Cássia: A revelação de que ele matou essa turma, Cátia?

Cátia: Sim.

Teeh: É aquela coisa: ok, você me amedronta mas eu tenho dinheiro. Beijos, mona!

Alex: No trecho da vida dele com o Baldini, inclusive, tem uma opção estética puramente gratuita quando aquele conversa com seu empregado e na versão que eu li um pequeno trecho aparece em formato de escrita teatral com os nomes em destaque antes das falas. E o teor do diálogo tem um quê de Molière.

Cássia: Exatamente, o fato das pessoas se usarem mutuamente, porque o Jean também usava.

Teeh: Para crescer na busca por sua obsessão, fato.

Cássia: É, Alex, a versão que li tem isso também. Achei descabido. Ah, mas nem precisa ter obsessão, as pessoas se usam o tempo todo.

Teeh: Sim sim, mas isso foi intensificado no livro.

Cátia: E ele não analisava neste sentido, ele era amoral.

Cássia: Mas o autor poderia analisar.

Teeh: Não analisava em que sentido, Cátia?

Cássia: Aí seria um contraponto bacana.

Cátia: Ele era totalmente imparcial.

Alex: Mas criticar a hipocrisia da sociedade da França daquele século não é algo interessante quando escrito por um alemão e no séc. XX, porque a hipocrisia daquela sociedade é bem diferente daquela de outro local e de outra época. Existem várias espécies de hipocrisia e ligadas ao contexto em que aparecem.

Cássia: Acho que entendi seu ponto, Alex.

Cátia: Ele não analisava as coisas mediante “eu uso este para obter isto”.

Teeh: Sim Alex, mas como ficção ele muitas vezes pode usar outra ‘realidade’ para criticar aquela na qual vive.

Cássia: Uma coisa é Jane Austen falar da sociedade no século 18, vivendo aquilo. Outra sou eu, brasileira, no século 21, falar da sociedade inglesa do século 18.

Cátia: Ele via numa situação uma possibilidade de alcançar o que ele queria mas…

Teeh: Depende do caso, Cátia! Com Baldini, por exemplo, ele pensou!

Cátia: Ele não via do ponto de vista moral.

Laís: Cátia, ele não analisava, só deixava subentendido.

Cátia: Ele usou, mas ele não encara o que fez como o usar alguém.

Alex: A ficção científica existe para isso… e veja que é bem diferente da opção dele que estava criticando não a sociedade em geral, mas os costumes e vícios daquela França a qual ele não tem envergadura moral para criticar… rs.

Cássia: Hahahaahahahahaha.

Alex: Ele poderia criticar a Alemanha.

Nina: Alex, foi fundo agora!!

Laís: Hahahaha.

Cátia: Isso é relativo, podemos criticar quem quer que seja, de qualquer época.

Alex: O que ele fez é o mesmo que ocorre hoje com todos, como por exemplo acharem que no Brasil todo mundo vive na selva.

Cátia: Lá porque exista rivalidade França-Alemanha. Não quer dizer nada.

Cássia: Cátia, acho que existe uma diferença entre achar e saber.

Cátia: Mas isso não é crítica.

Cássia: Eu posso achar tudo, mas saber muito pouco.

Cátia: É estupidez.

Cássia: Se quero fazer uma crítica consistente, é minha obrigação saber.

Alex: É crítica da sociedade quando alguém inserido nela a faz, os outros quando tentam só fica parecendo preconceito e estereótipos.

Cátia: É a mesma coisa que dizer que português não toma banho.

Cássia: Se eu quero criticar algo de outra época, que eu estude para isso.

Teeh: Ou ao menos ter uma base intelectual sobre o que se fala.

Cássia: Ué, e dizer que brasileiro ama carnaval.

Cátia: Isso.

Cássia: Eu odeio carnaval, não suporto praia…

Nina: Eu também.

Cássia: Tenho horror a calor.

Alex: Base intelectual não habilita para crítica de costumes… a vivência deles sim… rs.

Teeh: Cássia = minha irmã perdida.

Nina: Só o carnaval que eu odeio, tá? Hahaha.

Cátia: E americano só comer hambúrguer.

Laís: Não investiguei a vida do autor, mas será que ele não tinha essa base teórica, pelo menos?

Cássia: O autor é recluso.

Cátia: Nina, lolololol.

Cássia: Não dá entrevista, fica preso em casa.

Cátia: A sério?

Nina: Isso cheira a marketing pra mim.

Cássia: Sério. Nada, cheira a Jean mesmo.

Teeh: Acho que ele não suportaria ler as críticas negativas à ‘nosso’ amado Jean.

Nina: Não levo a sério!

Cássia: Hahahahaha.

Teeh: HAHAHAHA.

Cátia: Acredita, eu nem pesquisei.

Cássia: Nem eu, tá no meu livro.

Cátia: Bem, isso eu não critico.

Laís: Legal saber disso, Cássia.

Alex: Base teórica não habilita alguém a criticar a sociedade francesa do séc. XVII, só permite criar uma história consistente… rs.

Cássia: Ó, ele estudou história moderna e medieval.

Cátia: Há imensos escritores que são anônimos e nunca falam do que escrevem.

Alex: E imaginar como era.

Laís: Mas me cheira a marketing também, sei não.

Nina: Total gente, pensa!!

Cássia: E estudou história na França. Ou seja, o danado sabe alguma coisa, hein?!

Teeh: Alguma? Fiquei com medo dele agora.

Cátia: Mas tudo isso tendo como base que ele queria criticar a sociedade francesa, certo?

Cássia: Estamos nós falando mal dele.

Nina: Lembram da história da Bruxa de Blair? Então! Hahahaha.

Cátia: Para mim, ele queria criticar a humanidade em geral.

Cássia: Ele é uma das pessoas mais retraídas do cenário literário alemão.

Teeh: Concordo com a Cátia que ele só foi infeliz nas escolhas, mas queria criticar o todo.

Cássia: Não vai a lançamentos, nem gosta de vender seus livros para filmes, para não mudarem a história.

Cátia: Teve de ser a França, porque lá tem a tradição dos perfumistas. Penso eu.

Laís: Será que é a francesa mesmo que ele queria criticar, ou para ele sociedade hipócrita é sociedade hipócrita em qualquer época e lugar? Tuuudo bem, ele poderia ter feito isso de outra forma, mas escolheu a forma errada somente.

Alex: Daí concordo, se ele tivesse adotado uma abordagem diferente seria mais interessante.

Cássia: E ele morre de medo de plágio.

Teeh: Que será que ele achou do filme? O filme é bastante diferente.

Laís: Não estou defendendo, apenas botando lenha, ok?

Cátia: Eu não acho muito.

Teeh: Hahaha.

Cátia: Você acha, Teeh.

Cássia: Eu não vi o filme, mas agora queria saber a opinião dele [o autor].

Alex: Tomara, porque o livro do jeito que está é “infilmável”… rs.

Laís: Olha, escrevi depois da Cátia, rs .

Cátia: Eu acabei por ver, Cássia e Nina.

Teeh: Eu acho que ele realmente só foi infeliz nas escolhas, Alex, de fato. Acho, bastante!

Nina: Para mim… o fato é que ele pode ser letrado no que for… o livro é muito mais falação do que outra coisa… Achei uó e ponto. E não é pelo fato do Jean ser autista, psicopata ou sei lá mais… É pela narrativa mesmo, pelo claro interesse em chocar, em exagerar… A gente fica o tempo todo preso nisso… Aaaah vá!!!

Alex: A premissa é bem interessante, mas a execução foi bem equivocada.

Cássia: Ele tinha uma história supimpa em mãos.

Cátia: Tirando alguns detalhes, eu só acho que o diferente foi no filme ele demonstrar ter sentimentos pela primeira ruiva.

Cássia: Mas quis fazer tudo em um livro só. Não soube escolher e deu no que deu.

Teeh: O filme foca-se nos perfumes das meninas, não mostra toda esse doentio comportamento dele.

Cátia: Nina, certo! Eu adormeci varias vezes a ler. lol.

Cássia: Então o filme pegou a parte interessante do livro.

Teeh: No filme, ele deixa a gente até meio comovida por ele, Cátia, coisa que no livro não: ele é o COMPLETO anti-herói. Pois é!

Alex: Mas tem muita narração em off? Se tiver deve ter ficado bem besta.

Cássia: Aí que táááa, era isso o que o autor deveria ter feito.

Cátia: Gente, eu não fiquei comovida com ele, pelo contrário.

Cássia: A gente tem de se comover pelo Jean.

Teeh: Não tem tanta não, Alex.

Cátia: Tem alguma narração.

Teeh: O filme acho que pegou a parte mais humana (se é que existe) do Jean.

Cátia: Mas é um filme muito estilo cinema europeu.

Teeh: Da história toda.

Cátia: Muitas cenas, quase sem diálogo.

Alex: Não vi o filme, mas se fosse eu teria me concentrado mais na questão de sua história como serial killer.

Cássia: Eu também.

Cátia: Eu acho que está centrado nisto, Alex.

Nina: O filme é mais isso.

Teeh: E concentra Alex.

Alex: O passado dele e outras coisas iria revelando aos poucos para mencionar um pouco de suas motivações.

Cássia: E, ó, quis tanto que ele não tivesse matado a última menina. Nossa.

Cátia: Eu também, Cássia.

Alex: Bem, então já chamou minha atenção e tem sérias chances de ser muito melhor do que o livro.

Cátia: (é o nosso lado Jane)

Teeh: O filme mostra ele matando as meninas em busca da composição do perfume que será finalizado pelo da última menina.

Cássia: Foi a parte em que eu realmente fiquei arrasada.

Laís: Ah, eu também, Cássia! Torci para dar algo errado.

Nina: (hahaha)

Cássia: (hehehehe)

Teeh: Como se fossem notas musicais ele cita sabe? Precisa ser algo minucioso. Ele parece estudar as vítimas, não é um doido que pega pré-adolescentes como no livro. HUASHUASHUAHSAHUSHU.

Cátia: Eu queria que saltasse alguma humanidade nele.

Cássia: Então o filme é mais bacana que o livro?

Cátia: Algo, um vestígio.

Teeh: No filme, achei que salta Cátia, tu não achou?

Nina: Cátia caiu.

Teeh: Sim Cássia, MUITO. Bem quando falei com ela. HUASHUASHUASUA

Nina: Kkkkkkkkkkk.

Cássia: Acho que se o autor tivesse puxado um único traço de humanidade no Jean, e nos levasse a querer seguir sua história, e o livro fosse em primeira pessoa, seria outra coisa.

Laís: Concordo.

Alex: No livro, parece mais que o narrador tá contando uma historinha bobinha numa roda de boteco com uns tipos estranhos para impressionar seus companheiros de birita… não tem humanidade nenhuma… rs.

Nina: Quer ver? Me permitem uma comparação meio nada a ver?

Teeh: Assim, peguem aquele Jean do livro e imaginem-o como um ser simplesmente doentio mas injustiçado, que gera certa dó mas mostra ser astuto e muito perfeccionista. Não soa maldoso, indiferente, sem cheiro e desumano como no livro. Sim.

Cássia: O Alex realmente achou o livro uma bobagem! Hehehehe. Claro, Nina.

Teeh: O Alex foi o que mais detestou! HAHAHAHAHAHA.

Cássia: É, ele me superou.

Alex: Não detestei… eu só não levei a sério… rs.

Cássia: É, Teeh, se pegasse a questão da injustiça e nos fizesse acreditar que há motivo para seu surto, a gente embarcava.

Teeh: E eu pensei que isso fosse impossível, Cássia! Coisa que há no filme.

Cássia: Verei o filme.

Nina: Dexter. Alguém já leu o livro ou viu a série? Ele é um serial killer, psicopata e a gente torce por ele. Pode ser a narrativa…

Cássia: Mas o Dexter tem um mote fortíssimo.

Nina: Vale a pena ver o filme mesmo, Cássia.

Cássia: Ele mata quem mata.

Teeh: Sacaram? A direção e roteiro do filme pegaram todos os fracos que citamos e transformaram em algo bom.

Cássia: Só nisso a gente já vai na dele. Ele só mata quem “merece” morrer.

Alex: Já assistiram uns episódios do Pateta que tinha um narrador contando a história? Como aquele do Sr. Motorista que ele entrava no carro e virava um Mr. Hide? Então, o livro foi igualzinho para mim.

Nina: Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Teeh: O Dexter é um danado. *666* ADORO.

Cássia: Se ele matasse inocente, nem todo o sex appel de Michael C. Hall (ai ai…) daria jeito.

Nina: Não sei, flor.

Teeh: A Cássia é muito minha irmã perdida. AUSHUAHSAHUSHUASUA.

Cássia: Hauahuauhahuahuahua.

Nina: Depois de 4 temporadas… hahahaha.

Cássia: Eu amo o Michael C. Hall. Agora ele se separou, quem sabe…

Nina: Eu também. Mas ao que eu falei foi: a gente vê tudo pela perspectiva dele.

Teeh: Eu acho ele meio sacana sabe? Caiu no meu conceito após o divórcio com a Jennifer pela sacanagem que fez com ela…

Nina: Se o Jean fosse assim… Quem sabe?

Cássia: Que sacanagem ele fez?

Laís: E chegamos no momento tietagem, sempre tem.

Cássia: Conta tudo!

Alex: Taí! O Dexter é muito mais interessante do que ele, e se colocasse o lance do olfato apurado ficaria uma forma de contar uma história bem melhor do que aquela utilizada pelo autor.

Nina: Gente, eu não sabia que ele sacaneou a Jennifer…

Alex: Nossa, Baldini feelings aqui… rs.

Cássia: Pronto, virou o momento fofoca.

[E assim foi até o fim da nossa conversa… E não falamos mais sobre o Jean.]

Livro 8: Cemitério de pianos

O encontro aconteceu dia 31 de julho com participação de Alex, Cássia, Cátia e Laís. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Laís: Primeiro, gostaria de dizer que esse foi o grande livro do clube pra mim. Porque não gostava da Jane, e o García Márquez que lemos eu já havia lido.

Cátia: Wow.

Cássia: Então, comece você falando dele… porque percebi que sou a única que tem restrições.

Cátia: Eu sabia!!!!!!!!!

Alex: Caramba, já começamos com revelações… rs

Cássia: Sabia o quê? Alex, aqui é cheio de emoções

Cátia: Eu sabia que não tinhas gostado!

Cássia: Por quê?

Cátia: Hahaha, porque não disseste nada, quando gostas dizes sempre algo.

Cássia: Eu li 200 páginas de sexta para sábado, porque peguei birra do livro.

Alex: Eu tenho uma também… rs… mas pode ser só chatice minha porque o livro é muito bom.

Cássia: Alex, nada de se justificar, aqui é para falar mal mesmo, se quiser, hehehe.

Cátia: Mas vamos por partes.

Cássia: É, Cátia, não rolou amor.

Laís: Ué, eu vim participar de um clube da Jane Austen e sempre reclamava, toda vez, rsrs.

Cássia: Exatamente, hahahahahaha.

Cátia: Uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Isso mesmo, Laís.

Cássia: Mas, vai, Cátia, organize a bagunça.

Cátia: Bem, a gente cortou a palavra da Laís. Fala, Laís.

Cássia: É, fale, Laís.

Laís: É difícil começar, mas vamos lá: não sei o que me impressionou mais, se foi o esquema narrativo ou a história propriamente. Sei que nunca entramos em discussões estéticas, mas fiquei encantada com a construção do José Luis; isso de misturar narradores, tempos e tals.

Alex: Eu também gostei muito disso…

Laís: Em vários momentos eu achei que era um narrador falando, mas era outro.

Cássia: Chegou no ponto que me irritou profundamente.

Laís: Isso não me irritou, me estimulou.

Cássia: Comigo foi exatamente o contrário. Mas antes, uma coisa: como obra literária, é excepcional, isso eu nem discutirei.

Laís: Sem dúvida.

Cássia: Mas é um livro de história, não de personagens… porque você se emociona, mas não sabe por quem; nasce uma criança, e você não sabe de quem é; tem um casal, você não sabe qual é; some alguém, e até saber se é filho, irmão ou tio, demora uma vida.

Laís: Só uma personagem me emocionou de verdade: a Marta.

Cássia: Nenhuma me emocionou… porque eu demorei para saber quem era quem…

Alex: Nesse ponto, são três homens do clã Lázaro, mas afinal são quantos narradores, 3 ou 2?

Cássia: Três.

Laís: Três, creio.

Alex: Eu também acho que são, mas não entendi por que em alguns comentários na internet que vi mencionaram 3.

Cássia: Avô, filho e neto, se é que entendi bem, né, hehehe.

Alex: Tem o avô, pai (Francisco atleta) e filho.

Laís: Isso mesmo.

Cássia: É, e só aparece o nome de um dos três.

Laís: O nome dos três é o mesmo.

Cátia: Quando ele diz “a minha mulher” é o avô.

Cássia: Ah, tá zoando, sério?

Alex: E são duas Marta, Maria e Simão não?

Cátia: Sim.

Cássia: São duas Maria, uma Marta e um Simão.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Lá no final, ele fala o nome da galera. Tá vendo?

Laís: Duas Maria? Jura?

Cássia: Putz, como isso me irrita.

Alex: Acho que não porque o neto menciona que colocou o nome de Simão em seu filho por causa do tio.

Cátia: Hahahaha.

Cássia: Isso, Laís, duas. Eu chorava e não sabia por quem. Sério? Tem mais Simão? Olha aí.

Cátia: Ahaaaaaaaaaaaaaaaaaahahahahahahhahahahaha.

Cássia: Vamos dar um dicionário de nomes para o autor…

Alex: Aliás, foi o que mais me incomodou no livro… os filhos do Francisco-neto têm o mesmo nome dos tios dele e foram batizados assim na mesma sequência.

Cássia: para o bem dos leitores. Tem isso?

Cátia: Mas a ideia é essa.

Laís: Sim, é só ver a epígrafe.

Cássia: Eu li muitas páginas de uma vez.

Alex: E isso foi uma forçada do autor para nos confundir e não descobrirmos de cara que a narrativa do avô se confundia com a do neto… porque a do atleta estava bem distinta da do pai (avô).

Cássia: Então, provavelmente, tem coisa que não notei. Sim, foi altamente engenhoso, mas foca mesmo na história, porque os personagens, um abraço.

Cátia: Eu penso um pouco diferente de vocês.

Cássia: Então diga.

Cátia: Eu penso justamente o contrário.

Alex: Acho completamente inverossímil o neto colocar o nome dos filhos em homenagem aos tios e eles terem nascido na mesma ordem.

Cássia: Totalmente! Tão inverossímil que nem notei.

Alex: Por que ele homenageou as tias que nem sequer tinha contato?

Cássia: Hahahahahahaha.

Alex: Só se justifica como um artifício do autor para simplesmente para confundir os leitores.

Cátia: Ou para justificar uma ideia ou como uma metáfora de uma ideia.

Cássia: Sim, isso até que fica claro para nós, mas aí entra numa coisa do autor em relação à estética do livro, eu acho.

Alex: Pode até ser, Cátia, mas isso me tirou na hora da história e depois fiquei incomodado pensando nisso e não consegui mais submergir nela.

Cássia: Eu sou apegada… eu gosto de acompanhar o personagem.

Alex: Quanto à estética nem se fala… é linda… senti por várias [vezes] que o autor ao invés de se limitar a descrever as ações com palavras ele as utilizou para encená-las.

Cássia: Então… eu não achei tão linda.

Laís: Aliás, quando você começa a se envolver com uma parte da história, é interrompido por outra.

Cássia: Ele entrou numa viagem de mudar conforme a história, vira um “veja a minha habilidade”. Não é como Guimarães Rosa ou Saramago, que assumem isso e vão embora. Ele vai mudando. Na hora da corrida, toda vez que lia “quilômetro tal”, affeeeee, eu não quero correr com o Francisco, autor!

Laís: Sinceramente, se eu soubesse fazer isso, faria sem pensar. É para poucos.

Alex: Acho que tem ligação com o fato da narração partir de pessoas mortas… portanto, estão livres das amarras do tempo linear de nossa vida, confundindo passado, presente, futuro, atropelando fatos, etc.

Cássia: Mas, Laís, não discuto a capacidade dele em fazer isso; falo em mim, como leitora, que não quer isso.

Laís: Gostei, Alex!

Cássia: É, tanto que tem a coisa mais bizarra do mundo, a menina de 3 anos dando bronca no avô.

Laís: Bizarríssima.

Alex: Comigo foi o contrário, porque eu já sabia que o atleta morreria ao chegar no quilômetro 30… Daí fiquei ansioso à medida que progredia… rs.

Cássia: Hehehehe. Eu fiquei agoniada, aí eu lia rápido para isso passar. É sério.

Laís: Eu queria saber como seria a morte; e a descrição das reações da família em volta do rádio foi sensacional.

Cássia: Ah, aquela cena foi ótima. Duas coisas nele são ótimas: ser absolutamente visual e conseguir passar isso para as palavras; e ter umas frases que, aff, coisa linda.

Laís: Essa característica visual dele é especialmente boa pra mim, rs.

Alex: Essa característica da escrita dele foi o que mais me impressionou.

Cássia: Ele tinha de escrever roteiro, mesmo! Essa habilidade é para poucos.

Alex: Como, por exemplo, quando ele descreve o marido da Maria rasgando os romances dela e o autor vai rasgando o parágrafo na mesma intensidade… picotando tudo… rs.

Cátia: Eu amei o livro.

Cássia: Que cena foi aquela dos livros picados, doeu em mim!

Cátia: Bem… não sei o que dizer porque tudo o que vocês acharam péssimo eu achei o máximo.

Alex: Bem, eu gostaria de saber o que você quis dizer quando mencionou que a repetição de nomes foi para reforçar uma metáfora… fiquei interessado, ou melhor… uma ideia.

Cátia: Eu penso várias coisas sobre este livro. Primeiramente, eu acho que ele constrói uma série de personagens que transmitem uma ideia geral. Encaro o tema como sendo a dinâmica relacional da família e cada personagem é construído, tem personalidade própria, angústias, medos e desilusões; mas, no fundo, eles todos juntos formam um único personagem “A Família”. Não sei se me faço entender com isto.

Cássia: Sim, sim.

Laís: Por isso achei tão interessante a epígrafe, só eu reparei?

Cássia: Então, mas foi comentado lá no começo: a questão ali é a história.

Cátia: A construção da história, para mim, é maravilhosa. Ele é como um artesão.

Alex: Bem, eu entendi isso também… o protagonista é a família cuja história vai se revelando pelos narradores.

Cássia: Também acho, Cátia… a habilidade dele não se discute.

Cátia: Ele vai construindo, peça a peça, como um quebra-cabeças e a meio do livro, eu – enquanto leitora – penso que estou segura do rumo da história, ele vem e “bam” parte-me toda.

Laís: Agora, tem uma coisa que ficou muito clara pra mim durante toda a leitura: como as relações entre as pessoas mudam.

Cátia: Mas aí está Cássia, não é só uma questão de habilidade.

Cássia: Mudam mesmo, Laís.

Cátia: Porque aí estou a desprender a intencionalidade do autor.

Laís: Primeiro as pessoas se apaixonam, depois elas se agridem. Violência o tempo inteiro ali.

Cássia: Cátia, mas é necessário habilidade para desenvolver a sua intenção. Eu posso querer algo e não saber fazê-lo, o autor sabe o que quer e sabe como chegar a isso.

Alex: Eu gostei sim da estrutura que ele utilizou… só me incomodou mesmo a questão da coincidência conveniente dos nomes dos filhos… só porque de toda aquela obra que ele esculpiu, pareceu uma solução muito simplista, como uma tentativa de “enganar” os leitores… mas nem acho assim tão grave.

Cátia: Laís, são relações muito humanas, muito reais e muito terra-a-terra.

Cássia: A minha grande questão, quando critico, é que se trata de uma literatura que me emociona como obra literária, eu olho e vejo “nossa, o autor é incrível!”, mas não me emociona como leitora.

Cátia: Alex, eu entendo o que dizes mas acho que não é esta a intenção.

Cássia: É como um quadro incrível, que reconheço, mas nem por isso quero revê-lo.

Cátia: A mim me emocionou.

Cássia: A mim, não.

Cátia: Vocês não imaginam como eu entendi Simão.

Cássia: Laís, também achei que há muita violência ali, mas muita.

Alex: É o meu personagem preferido.

Laís: Simão é incrível. Não tem como não gostar; ele merecia mais ali.

Cátia: Eu acho que a coincidência dos nomes seria para reforçar a ideia de que podem passar as gerações mas que a família continua intacta, Alex.

Alex: Eu queria uma versão alternativa da história sob a ótica do Simão… rs.

Cássia: Então, ele bate na tecla de que as coisas não mudam, tampouco evoluem, o que não é verdade…

Cátia: Que a cada geração, a família é renovada, mas continua a ser na sua essência a mesma.

Cássia: Aí que tá… eu não concordo com isso, especialmente naquela família…

Cátia: Renovam-se mas tem essência.

Laís: Intacta não digo, porque ela era toda fragmentada. Mas estruturalmente continua a mesma, os mesmo problemas, as mesmas questões; ninguém supera os que já passaram.

Cátia: Uma constância.

Cássia: Não falo em superar, falo mesmo nas próprias relações.

Alex: Eu concordo contigo, Cátia, mas achei que isso foi desenvolvido tão bem na obra, tanto quanto ao enredo quanto em termos de estrutura que não precisava usar o artifício de repetir os nomes.

Cássia: De um marido autoritário e violento, como foram quase todos ali, para um homem que tem outra postura dentro da família, não consigo ver isso como essência.

Alex: Tem coisas um pouco improváveis que acontecem, meio fantasiosas, mas os nomes para mim foram as coisas mais inverossímeis… rs.

Laís: Mas há famílias que são assim. Nem todas o são, mas muitas sim.

Cássia: Claro que há… mas há aquelas que mudam depois, porque as pessoas também mudam e constroem novas famílias e novas histórias. Essência de família, para mim, é outra coisa… é uma ligação de amor que se perpetua, de reconhecimento.

Cátia: E isto ficou intacto.

Laís: Aí é que está.

Cássia: De eu olhar para a minha mãe, a minha avó, a minha bisavó (quando ela era viva) e dizer…

Laís: Se fosse você a autora, Cássia, o livro seria outro.

Cássia: “Eu sou diretamente ligada a essas mulheres”, e isso eu não vi.

Alex: A Cássia tocou num ponto que acho que reforça o que quero dizer, pois certas questões se repetem e replicam na história, como a violência doméstica… isso passa de forma mais intensa a ideia.

Cássia: Laís, não estou dizendo para ser do meu ponto de vista…

Cátia: A identidade de ser família apesar da violência, traição, problemas manteve-se.

Cássia: estamos apenas discutindo o livro, foco do nosso clube, certo? Já falei e repito: o livro é excepcional e em momento algum, quando falo algo, é desmerecendo isso. Mas eu vou cutucar mesmo, vocês já me conhecem.

Cátia: Sim, eu entendo o que dizes, Cássia.

Cássia: Aliás, eu leria outros livros dele.

Cátia: Mas a essência de ser família esteve sempre ali.

Cássia: Achei-o genial MESMO!

Laís: Uma coisa que exemplifica o que a Cátia está dizendo.

Alex: Acho que em relação à família cabe muito bem a metáfora com os pianos que envelhecem, mas suas peças servem para outro pianos (pais e filhos) que ainda são pianos, mas podem tocar outras melodias… rs.

Cátia: Ou as mesmas.

Cássia: Aliás, bom falar isso: achei que teria mais pianos na história, hehehe! Eu senti falta disso.

Alex: Isso, no caso daquela família parece que estavam um pouco presos a um determinado setlist… rs.

Laís: Lembram quando, durante um almoço de domingo, o avô (acho que era o avô, rs) bate na mulher porque ela derramou vinho na toalha? Marta e Maria, que não estavam se falando, “voltaram a ser irmãs”, segundo o próprio autor. Essência de família.

Cátia: Mas era o avô.

Laís: Apesar das tragédias.

Cátia: Sim.

Alex: Sim… a violência doméstica ali desagrega em alguns momentos e em outros une a família.

Cássia: Mas acho que ali elas voltaram a ser porque havia algo acontecendo ali exatamente, a união pela violência.

Laís: Exatamente.

Alex: E existe muito perdão nessa história.

Cássia: E ambas, aliás, sofreram com seus maridos depois.

Alex: Menos um: perdoar a si.

Cássia: O perdão mais importante, aliás.

Laís: Porque estavam acostumadas a sofrer em casa; a ver a mãe sofrer. Não conheciam outra realidade.

Alex: Os narradores se culpam… a Marta perdoa a traição da irmã, mas dali se autoflagela com a questão da obesidade.

Cássia: Como se não fosse digna de ser desejada pelo marido, ela age como se justificasse a traição.

Alex: Parece que a família tudo resolve, se acerta, supera, etc… mas os personagens isoladamente não tem essa força.

Laís: Outra coisa: não fica claro como a Maria morreu. Subentende-se que tenha sido morta pelo marido, mas isso não é explicado.

Cátia: Para mim, ela utiliza a comida para saciar a desilusão. Ela era feliz até então.

Cássia: Eu acho que na família eles “passam por cima” de certas coisas, não sei se é realmente perdão… mas é como um grande problema que a gente finge que não existe para não ter de encará-lo, porque se isso acontecesse, seria muito pior.

Laís: Concordo.

Alex: Vocês querem dizer que há uma certa inevitabilidade? Eles têm que se conformar ou aceitar esses problemas porque se a família estilhaçar não terão onde se amparar? Ainda que grande parte dos problemas seja decorrente da própria relação familiar?

Cássia: Não pensei exatamente isso, mas acho que você tocou no ponto.

Laís: Talvez seja isso mesmo.

Alex: Acho uma visão meio pessimista… rs… é aquilo que o Flávio Gikovate (escrevi certo?) fala sobre o amor e que acredito que cabe muito bem aqui: sem a família eles serão indivíduos incompletos… quando na verdade a família deveria ser uma união de vários inteiros e não metades que dificilmente se encaixariam para formar algo completo.

Cássia: Exaaaaaaatamente. Pessoas completas seguem melhor na vida… não necessariamente mais felizes, mas de uma maneira melhor. Ninguém ali tinha força suficiente para seguir um novo caminho. Na verdade, só o Simão, aquele que cansou de ouvir que não seria nada na vida.

Alex: Daí você tem uma relação baseada na necessidade porque se a família se partir voltarão a ser incompletos novamente… quando deveria se basear no respeito.

Cássia: E no amor. Família, para mim, é amor.

Alex: Pois é, acho que daí que veio minha simpatia em relação ao Simão… rs

Cássia: E reconhecimento.

Laís: Pensei nisso sobre o Simão, mas tenho minhas dúvidas.

Cássia: Quais, Laís?

Laís: Não estou bem certa. Ele sempre voltava para a família, para a oficina… É certo que tinha uma relação diferente dos outros; não sei, estou decidindo a posição dele, rs.

Cássia: Hehehehe. É, talvez ele não seja o mais forte, apenas o mais orgulhoso.

Alex: Acho que ele não era completo, mas tinha a coragem de tentar sair daquele ciclo… E a “incompletude” estaria marcada por suas “recaídas” e a falta de grandes conquistas na vida.

Laís: Será que ele não precisava provar, acima de tudo pra ele mesmo, que poderia ser diferente? Melhor.

Cássia: É, Laís, tem razão… Especialmente porque ele foi renegado demais.

Alex: Acho que sim, mesmo, talvez, pensando em seu íntimo que tinha as mesmas dificuldades que os outros.

Cássia: Ele foi muito humilhado, o que aconteceu foi uma fatalidade e ele era tratado como se fosse o verdadeiro culpado.

Alex: Não sei… acho que era mais uma questão de personalidades fortes e conflitantes… algo muito comum na relação entre pais e filhos ou entre irmãos.

Laís: O pai dele queria que ele se submetesse, como todos os outros faziam, mas ele não era disso. Por isso que tudo era mais difícil para ele.

Cássia: O árduo caminho da independência…

Laís: O Simão estava um degrau acima.

Cássia: Estava… eu gostava dele.

Alex: Eu ainda gosto… rs.

Cássia: Hahahaha. Boa!

Laís: Ele poderia ter culpado o irmão, mas não o fez; poderia ter se vitimizado, também não o fez e foi atrás de emprego; poderia ter aceitado tudo, mas defendeu a mãe, o que lhe custou a vida em casa.

Cássia: Nossa, é mesmo. A cena dele defendendo a mãe, nossa, ele realmente peitava o próprio pai.

Alex: Mas foi bem orgulhos também… rs.

Laís: Ele tava de saco cheio daqueles escândalos.

Cássia: Ah, isso foi.

Laís: Foi também.

Alex: Poderia ter ido ver o pai em seus últimos dias… não deu chance de redenção a nenhum dos dois.

Cássia: Orgulho seca uma pessoa por dentro.

Alex: Tocando num assunto um pouco mais complicado… o que acharam dos diálogos entre avô morto e sua neta eloquente de 3 anos?

Cássia: Uó, esse eu não engulo, hahaha.

Laís: Será que aquilo foi um diálogo mesmo?

Cátia: Serei eu a única que achei fantástico?

Laís: Não, eu também achei.

Cátia: Acho que sim…

Alex: Eu gostei também.

Cássia: É, só eu não gostei, hahaha.

Cátia: lol.

Cássia: Isso eu não gostei mesmo, achei desnecessário.

Alex: Por quê?

Cássia: Para mim, isso é semelhante à cena do mulher do avô com o cigano. Tipo… qual o propósito?

Laís: A cena com o cigano foi despropositada mesmo, mas esse diálogo não.

Cássia: Mas eu não achei o diálogo sem propósito, mas o fato de uma menina de 3 anos falar como uma adulta para o avô morto. Isso eu achei sem propósito.

Cátia: Gente, eu vou escrever ao JLP…

Cássia: Não, ele vai me odiar, hahahaha.

Cátia: Hahahahahaha. Olha que não.

Cássia: JLP, amei seu livro, tá?

Alex: Não sei se a cena do cigano foi sem propósito, talvez ele só não estivesse tão explícito, haja vista que na história da família outros fatos e precedentes foram omitidos.

Laís: Escreve lá.

Cássia: É que sou azeda mesmo, tá? Eu brigo mesmo, tá?

Cátia: É capaz dele achar interessante o facto de tu não teres gostado.

Laís: Continua, Alex.

Cássia: Ah, alex, do nada ela vai lá na tenda.

Cátia: A sério… ele tem Facebook, está adicionado.

Cássia: Ai meu Deus, nãããão.

Cátia: Por que não?

Cássia: Ele vai me odiar.

Cátia: Hahahahaha. Ele vai ler e dizer: ninguém neste clube entendeu nada de nada, hahahaha.

Cássia: Tipo, “gente, vocês leram mesmo livro que eu escrevi?”.

Cátia: LOL

Cássia: “Tem certeza?”

Cátia: lolololololololol.

Cássia: JLP, tamo junto!

Alex: Nós vemos a história através dos olhos de alguns narradores mortos e, portanto, que em seu relato transcendiam por vezes o tempo (misturando passado, futuro, presente) ou fatos, como se as memórias deles estivessem ali todas juntas e misturadas. Além disso, alguns fatos podem simplesmente representarem impressões, pensamentos deles e não lembranças ou fatos que ocorreram mesmo. Como o próprio diálogo entre avô e neta, pois nada impede que o avô estivesse na verdade confrontando uma própria consciência a qual materializou na neta.

Laís: Verdade.

Cássia: É verdade… tá bom, vai…

Cátia: Esta questão do diálogo entre avô e neta parece-me verossímil, é a questão do todo, da família como um todo.

Alex: Afinal, quem pode confiar em alguém morto que enxerga presente, passado e futuro sem qualquer amarra que temos em vida? rs.

Cássia: Tô muito chata hoje, vou dar um desconto.

Laís: É, vamos combinar que um morto escrever um livro não é nada normal, embora para nós até seja, porque Brás Cubas já existe há muito tempo.

Cássia: Gente, mas mesmo quando o narrador está vivo, o autor tem carta branca, faz o que quiser! Desde que a gente acredite, tá valendo.

Alex: Será que nesse livro temos um tipo novo de narrador: o narrador transcendente? Um meio termo entre o narrador personagem e o narrador onipresente? rs.

Cássia: Hahahahaha.

Laís: Foi exatamente por isso que eu perguntei se era um diálogo de fato: ele poderia estar dialogando com a consciência simplesmente.

Cássia: Mas ele não é onipresente… Vocês mesmos disseram que o que ele narra pode ter influência do que ele acha que foi.

Alex: Porque ele via além do que acontecia com ele, mas por vezes essa visão era limitada.

Cássia: Se ele acha que foi, então ele não sabe.

Cátia: Eu acho que há vários narradores e geralmente o avô só narra quando a mulher está na cena, ele sempre se refere “a minha mulher”. Não me lembro dele dizer muito “o meu filho”…

Alex: Mas ele narrou fatos do cotidiano após sua morte (no futuro), como no segundo capítulo.

Cátia: ou “a minha filha”.

Alex: Concordo, Cátia, eu conseguia distinguir exatamente quando ele fazia essa referência… rs.

Cátia: Ele diz o nome dos filhos, mas não os chama “filhos”.

Cássia: Pelo jeito, eu não entendi é nada, porque raras vezes eu entendia quem era quem. Uma hora, eu desencanei disso.

Laís: E será que o modo dele chamar cada um não evidencia o tipo de relação que ele tem?

Cátia: Mas essa é “cola” do livro. Como assim, Laís?

Laís: Quando ele fala “minha mulher”, isso não tem um valor de posse? É uma pessoa sem nome, sem identidade, algo que a caracterize; limita-se à mulher dele e acabou.

Cássia: É bem o “dono da família”, patriarca total.

Laís: Todos os outros têm nome, menos a mulher dele.

Cátia: Em parte, tens razão. Tem a ver com uma geração. Aqui em Portugal, na geração dos meus pais, é muito comum dizer-se “o meu homem” e “a minha mulher”, em vez de “o meu marido” e “a minha esposa”. Sim, nós não sabemos o nome dela.

Alex: Vocês tocaram num ponto importante… Eu fiquei com a impressão que no caso dos narradores mortos eles se concentraram em narrar os fatos que foram marcantes na vida deles, e que faziam isso atropeladamente à medida que iam lembrando deles. Daí eu acho que essa carga emocional das lembranças influenciava também na questão dos nomes.

Cátia: Repararam?

Laís: Sim sim sim sim.

Cássia: Eu não tinha reparado.

Laís: A mulher de nenhum deles tem nome.

Cátia: Sim.

Laís: É sempre “a minha mulher” ou “a mulher do Francisco”.

Cátia: Sim.

Laís: Assim como “o marido da Marta” e “o marido da Maria”.

Cátia: Sim!

Cássia: Minha, meu, minha, meu.

Cátia: Na família, há sempre a questão da posse: meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã. Será talvez a questão da pertença. Não há pertença sem posse?

Cássia: Não sei, hein?! Há uma diferença entre pertencer e nos pertencer.

Alex: É uma interpretação válida, mas fiquei com a impressão de que isso foi mais uma forma comum de narrar… acho que quando conversamos também nos referimos aos nossos parentes assim: ah, meu irmão está bem! A gente não costuma mencionar o nome… rs.

Cátia: Talvez.

Cássia: Só para quem já o conhece.

Cátia: Mas, por exemplo…

Alex: Quando você fala sobre sua mãe para alguém você fala o nome dela?

Cássia: Mãe e pai, não. Irmão, sim.

Cátia: Quando eu converso com o meu irmão eu geralmente digo “o meu pai” e raramente “o nosso pai”. Coisa que até tenho tentado lutar.

Alex: Esposa ou esposo também é comum não falarmos… rs.

Laís: Tem razão, Alex. O que me intrigou foi sempre o mesmo tratamento ao longo de todo o livro. Se não estou enganada, isso nunca muda.

Cássia: Eu falo “o pai” e “a mãe” quando é com o meu irmão. Nunca digo “meu” ou “nosso”.

Alex: Mas confesso que isso pode ser porque na vida real também temos essa questão de posse envolvida… rs.

Laís: Claro que temos.

Cássia: Sabe que evito usar? O “meu” e “minha”?

Cátia: Eu digo “o meu” e eu tenho lutado contra isso.

Cássia: A minha tia fala “minha mãe” para minha mãe e ela odeia isso.

Cátia: Pois.

Cássia: “A mãe é só dela? que mania!”

Cátia: Mas não é propositado.

Cássia: E olha a idade das duas, hahaha. Claro, sei que não é.

Alex: Dito isso, pode ser que não seja uma particularidade do personagem, mas simplesmente que estivesse reproduzindo um costume… sem que fosse deliberado… rs.

Cátia: É algo que sai tão natural, mas está errado. Sim, dizer “a minha mulher” é muito comum por aqui.

Cássia: Mas por aqui também.

Laís: Mas o que incomodou mesmo não foi a posse, rs.

Cátia: Em casais mais novos já começa a cair em desuso.

Laís: Foi mesmo o fato de as esposas não terem nome, só os filhos. Cultural ou não, natural ou não, fiquei pensando nisso, ainda mais aliado à violência de que já falamos.

Cássia: Então, possivelmente, é a questão da posse mesmo.

Alex: Quando li, eu imaginei que tinha sido uma opção do autor para destacar exatamente sobre quem o narrador estava se referindo e também um novo artifício porque se ele dissesse o nome das esposas (que certamente eram diferentes) saberíamos logo quem estava narrando naquele momento… rs.

Laís: Talvez, se houvesse “o meu filho”/”a minha filha” isso não tivesse me chamado a atenção.

Cássia: Pode ser isso também. Eu já nãos ei mais nada sobre o livro, hehehe.

Cátia: lol

Laís: Pode ser isso também, rs.

Alex: Dá para o narrador usar “minha mulher” ou o “marido da Marta”, mas como ele tem duas filhas e filhos não daria para usar “minha filha” ou “meu filho”… rs.

Cássia: Aí o meu filho, marido da fulana, sobrinha da siclana, que fugiu com o meu tio…

Cátia: José, por favor, não leia o nosso blogue.

Cássia: Hahahaha.

Cátia: LOL

Cássia: José, amigos, tá? Eu tô brincaaaaando.

Alex: Ele necessariamente teria que especificar: meu filho Simão… ou minha Marta… daí é melhor já mencionar diretamente o nome.

Laís: Ao contrário, eu gostaria que ele lesse pra nos ajudar a organizar tudo isso.

Cássia: Ele vai é colocar a mão na testa e desistir da literatura, hahahaha.

Cátia: Ele vai dizer: peloamordeDeusvósnaoentendeisnadicadenada.

Laís: Boa justificativa, Alex, defendeu bem.

Alex: Bem, uma das coisas que mais gosto da literatura é que o livro que eu leio não precisa ser o livro que o autor escreveu e ambas as visões estão corretas… rs.

Cássia: Muito bem, o Alex encerrou a questão.

Cátia: Mas eu acho que não convenci vocês.

Cássia: Do quê?

Cátia: Do livro.

Cássia: Quer a verdade? O livro é EXCELENTE.

Laís: Não preciso ser convencida, amei e pronto.

Cátia: Mas não apaixonou.

Cássia: Eu fiquei passada com a qualidade dele, mesmo! Mas, flor, eu sou difícil, hahaha. Para eu me apaixonar é raro, relaxa.

Cátia: Hahahahaha. Eu e a Laís temos mais em comum, tirando a Jane.

Laís: Isso não adianta, ninguém convence ninguém.

Alex: Eu também gostei muito e se no momento cabe uma confissão: fiquei com inveja da habilidade dele… rs.

Cássia: Ele tem “o dom” da escrita. Ele é muito bom, mas muito.

Laís: É a mesma coisa que vocês tentarem me fazer achar que Jane Austen é a melhor escritora do mundo. Acho um horror e não pretendo reler nunca mais.

Cássia: Tá vendo?

Cátia: Ouviu JLP???? Hein????

Cássia: A Laís ficou UM ANO discutindo Jane…

Alex: Será que fui meio ranzinza por causa disso? Tomara que não porque a obra é impecável.

Cássia: querendo acabar com todos os livros dela. JLP, queremos ser você quando a gente crescer.

Cátia: Gente, Laís você é uma mulher de fé, aguentou a Jane só para chegar a este momento

de ler outras coisas. Eu admiro isso, não sei se eu faria.

Laís: E me realizei, hahahaha.

Cátia: Se continuaria a ler livros de que não gostava.

Cássia: É mesmo… eu teria desistido.

Cátia: Com certeza.

Laís: Também fiquei com inveja, Alex. Vou ter de escrever muito ainda pra chegar lá, se é que um dia chegarei.

Cássia: Eu nunca chegarei, confesso.

Alex: Hum sei lá… acho que sou um pouco otimista nesse ponto porque mais do leitura ruim acho que pode existir momento ruim para uma dada leitura.

Cátia: Alex, você não está entendendo… A Laís DETESTOU todos os livros.

Alex: Porque talvez o momento dela ter lido Jane Austen tenha passado ou ainda não chegou.

Cássia: É, eu tenho essa teoria também, os livros têm tempo.

Laís: O único mais ou menos foi a Abadia de Northanger; que a Cássia espinafrou.

Cássia: É, eu espinafrei. Gente, estou com fama de azeda, tenho de parar com isso. Daqui em diante, só vou elogiar: “Nossa, demais o livro, AMEI!”.

Laís: Não, seja sincera.

Cátia: Quem vai escolher o próximo?

Livro 7: O amor nos tempos do cólera

O encontro aconteceu dia 29 de maio com participação de Cássia, Cátia, Laís e Nina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: E aí, quem começa? Já vou avisando que hoje vou ser do contra, só para movimentar.

Nina: Hahaha.

Laís: Então, você começa.

Cássia: Não, não. Pessoas do contra reagem, alguém precisa começar.

Cátia: Há alguém do contra?

Laís: Então, a Cátia, que falou que o livro estava sonhado. Quero saber por quê.

Cátia: Sonhado?

Laís: Você escreveu isso no Twitter, eu acho, foi algo assim.

Cátia: Ops… já não me lembro o que escrevi.

Cássia: Então, vai, eu começo e já vou pegando na jugular.

Cátia: Oooobbbbaaa.

Nina: Eita!

Cássia: Florentino Ariza realmente amou Fermina Daza todo esse tempo OU foi por que ele não a teve esse tempo todo?

Cátia: Já tinha saudades disto… uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, boa.

Cássia: Estou falando, estou má hoje.

Laís: Eu não diria que não.

Cássia: Desenvolve. Nada de meias palavras, vamos lá, gurias.

Laís: Seria possível um capricho de 50 anos? Não sei.

Cássia: Depois eu falo o que acho. Não falei em capricho, mas a paixão cresce na ausência e na ilusão.

Nina: Eu acho que ele ficou obcecado por ela.

Cátia: Eu tenho medo de dizer o que eu penso, porque eu senti-me extremamente dividida, extremamente.

Cássia: Ué, Cátia, conte os dois lados, não tem problema, eu tenho dois lados também.

Laís: Diga.

Cátia: Eu acho que ele se apaixonou por uma Fermina que não existe. Por uma idéia. Ele era um poeta e uma pessoa assim diviniza a paixão.

Laís: Estava pensando mais ou menos nisso agora.

Cátia: Por outro lado, ele tinha esse lado obsessivo que a Nina referiu, e aí o que poderia ser lindo, e é muitas vezes, torna-se um tanto doentio.

Cássia: Eu acho que toda paixão tem um ‘que’ de obsessão.

Cátia: Sim.

Laís: Claro.

Nina: Sim.

Cátia: Mas a paixão, ao contrário do amor, esgota-se.

Cássia: Exatamente. Por isso ela se alimenta na ausência. Aliás, nada tem mais força do que aquilo que não foi vivido.

Laís: Por isso que eu questionei os 50 anos; não há paixão que dure isso.

Cátia: Exacto!

Cássia: Nenhuma realidade pode disputar com a imaginação. Claro que dura, gente. Ele amava uma ideia…

Nina: Exatamente.

Cássia: e uma ideia dura uma vida.

Cátia: Isso. Essa é minha visão, ele criou uma musa.

Nina: Ele tinha uma ideia formada e passou a perseguir aquilo.

Cátia: A deusa coroada.

Cássia: Exatamente, uma musa, a colocou num pedestal.

Cátia: E isso era o motor da vida dele.

Cássia: E acho muito bacana o Gabriel (a íntima!) contrapor essa paixão do Florentino com o amor do Juvenal.

Laís: O cúmulo disso foi quando ele resolveu comprar o espelho do restaurante só porque ela se refletiu nele por duas horas.

Cátia: Convenhamos, se ele amasse mesmo Fermina, mesmo sendo homem, não andava atrás de tudo o que era rabo de saia. Sim, Laís, também achei.

Cássia: É, ele não era um W. [de Persuasão]. Então, ele tinha “duas vidas”…

Cátia: Não…

Cássia: a paixão dele por Fermina, de um lado, e as outras mulheres reais, do outro. Aí, dá para viver com essa musa a vida inteiraaaaa.

Nina: Ô!

Laís: Não consigo conceber como alguém consegue viver com tantas reservas.

Cátia: lol.

Cássia: Reservas?

Laís: Ter duas vidas paralelas.

Cássia: Não são vidas paralelas. A gente vive isso o tempo todo, a realizada e a imaginada, a vida vivida e a vida sonhada.

Cátia: Eu achei mais impressionante o segredo que eles mantiveram.

Cássia: Uns mais outros menos.

Cátia: Do género, além do pai, da tia e da mãe dele ninguém nunca mais soube e isso num meio pequeno…

Cássia: O segredo aumenta ainda mais a força da história, eu acho.

Cátia: Sim.

Laís: É do segredo que eu falo, não da imaginação. O Florentino tinha uma vida pública, mas saía com meio mundo e ninguém sabia. Eu sei que isso é para lá de comum, mas não entra na minha cabeça.

Cátia: Clandestinidade.

Cássia: Laís, a gente não conta tudo o que faz, hehehe.

Cátia: Mas eu acho que até os casos dele não eram muito divulgados.

Cássia: Aliás, é assim que deveria ser.

Nina: Pensando assim, é bem questionável a ideia de que ele esperou por ela 50 e tantos anos, não?

Cátia: Porque convenhamos até pedofilia ele arriscou.

Nina: Isso.

Cássia: É mesmo, a menina do começo.

Cátia: A menina do fim, a protegida.

Cássia: Não é do começo? Uma que morreu, não foi?

Cátia: Não, no fim. Sim.

Laís: No fim.

Cássia: De onde tirei que ela aparece no começo? Dã! hehehe.

Laís: Concordo, Nina.

Cátia: Eu vou vos dizer, eu amei a sequência em que Fermina volta para casa e o Florentino a vê na rua e a persegue. Acho esta descrição fabulosa, uma das sequências mais extraordinárias que eu já li.

Cássia: Nina, eu acho que o Gabriel teve uma grande sacada para a gente acreditar no amor do Florentino. Quando eles ainda são novos, né, Cátia?

Cátia: Sim, antes dela casar, quando ela diz-lhe que se precipitou.

Cássia: Quando a gente está lendo o livro, parece que vivemos aquele tempo… Parece que  a gente acompanha toda a espera do Florentino.

Cátia: Sim.

Cássia: Daí, a gente praticamente vive aquele amor.

Cátia: Sim, totalmente.

Cássia: Por isso que o filme é uma meleca, hehehe, não tem força.

Nina: E quando ele tomou o fora? A gente sente junto!

Cássia: Exaaaaaaaaaaaatamente.

Cátia: Sim…

Cássia: Dói demais.

Cátia: Aí está o contraponto, com a Fermina eu não senti nada.

Laís: Ô se dói.

Nina: E no livro a gente se encanta pelo Dr. Juvenal, no filme, não.

Cátia: Simmmmmmmmmmm, adorei o Juvenal.

Cássia: Sinceramente? Eu casaria com o Juvenal.

Cátia: Simmmmmmmmmmmmm.

Nina: No filme, ficou como se um fosse bonzinho e o outro o que roubou a Fermina. Eu também.

Cássia: É mesmo! Até o ator tinha cara de canastrão.

Cátia: O filme não tem nada a ver.

Cássia: A Fermina parece viver duas das grandes fantasias de uma mulher: um casamento sólido e duradouro e uma paixão fulgás e fulminante.

Cátia: Tirando o Javier Bardem que apesar de não ser um Florentino fez um papel digno.

Nina: Qualquer um que fica contra o Javier Bardem sai como vilão, hahahahaha.

Cátia: – Ai, Javier… *suspiros… –

Cássia: Javier, vem-ni-mim.

Nina: Mas eu preciso confessar uma coisa:

Cátia: Hahahahahahaha.

Cássia: Confesse, Nina.

Cátia: Casa-comida-roupalavada.

Nina: A Fermina é a personagem que me desperta alguma antipatia.

Cássia: Por quê?

Nina: Não sei. É como se eu não confiasse nela, sabe? hahahaha.

Cássia: Taí, tem razão, tem um ponto falho: em momento algum a gente entende por que raios ela deixou o Florentino.

Laís: Será que a altivez dela é que incomoda?

Nina: Pode ser, Laís, não sei. No filme, fica claro que ela deixa ele porque ele é feio pra caramba! Mas no livro, não.

Cátia: lol. Eu entendi a Fermina.

Cássia: No livro, a gente não tem a menor ideia. Então nos explique, Cátia.

Laís: Acho que ela deixou o Florentino porque ela percebeu a tempo que estava se correspondendo com uma ideia, e não com uma pessoa.

Cátia: Em parte, tem a ver com o que a Laís disse.

Cássia: Ah, não sei, Laís.

Nina: Só de olhar para ele? Sem conversar nem nada?

Cássia: Quando a gente está no meio da coisa, nem sempre percebe isso.

Cátia: A Fermina olhou para ele e viu que era tudo uma ilusão.

Cássia: Gente, num plim? Eles estavam juntos.

Nina: Foi porque o bichinho era feio de dar dó!

Cássia: Aí você acorda e pensa: “Ah, o cara está apaixonado por uma ideia…

Nina: Hahahahaha.

Cássia: tchau, fofo.”

Cátia: Gente, isso já aconteceu comigo.

Laís: Ela tinha mudado durante a viagem; tinha conhecido outras realidades.

Cátia: Isso.

Cássia: Ah, Cátia, então você está acima dos seres normais, sério. Estou falando realmente sério.

Cátia: LOLOLOLOLOL. Estou a me sentir um alien.

Cássia: Ainda mais que existe uma fascinação quando alguém nos ama perdidamente.

Laís: Existe mesmo.

Cátia: Reparem: ela vivia praticamente trancafiada em casa, com uma tia puritana e um pai controlador, era adolescente, foi o primeiro amor…

Laís: Ah, gente, vai que vocês nunca se perguntaram: “Meu pai, como é que eu fui gostar dessa coisinha?”

Cátia: e o primeiro amor tanto tem a força desesperadora como puff um dia a gente “olha só, foi lindo enquanto durou”.

Nina: Eu já me perguntei sim.

Cássia: Mas esse puff rola mais tarde.

Nina: Mas ela tinha acabado de chegar, Laís. Ela nem tinha visto ele.

Cássia: Eu já me perguntei várias vezes, mas depois. Isso mesmo, Nina.

Cátia: E ela nem se interessou por vê-lo, repararam nisso?

Laís: Ela o viu por cinco segundos, no portal dos escrivães; e só, finish.

Cássia: Eu entendo o que vocês dizem, mas mesmo assim acho muito pluft.

Cátia: Eu acho que a Fermina queria era não ter que casar com ninguém.

Cássia: Era uma Jane Austen.

Nina: Pode ser.

Cátia: Para mim, ela não amou nenhum dos dois.

Nina: Exatamente!

Laís: Pode ser.

Cátia: Ela se acostumou com uma lembrança…

Cássia: É mesmo, a gente não sente o amor dela nessa história.

Cátia: e se acostumou com um marido que era um querido.

Laís: Há uma pista disso quando, em certo momento, ela conclui que, casada, era uma criada de luxo.

Cátia: Sim.

Cássia: Porque a gente tem de pensar que, naquela época, casamento não era escolha…

Cátia: Ela sabia que precisava se casar para viver bem naquela sociedade e escolheu aquele que era o melhor partido.

Cássia: era destino certo.

Cátia: Gente, a Jane Austen nos persegue em Gabriel García Márquez, nossa!

Cássia: Hauaahuahuahua.

Laís: Tem uma hora em que o narrador comenta que a idade de casar era até os 22 anos.

Cátia: “A nossa vida é uma aldeia inglesa”, não é o que dizia no Clube de Leitura Jane Austen? Acho que sim, Laís, e tinha a pressão do pai.

Cássia: É? Eu não lembro, mas é genial.

Laís: Eu gosto muito como o narrador é realista em alguns momentos, principalmente quando fala sobre as viúvas.

Cátia: Sim, eu gosto muito, mas muito. Acho que é o melhor do livro, a forma como trata a velhice, a complexidade de envelhecer.

Laís: Ele fala do medo dos homens, eram as mulheres que seguravam a onda deles, para que eles conseguissem lidar com a realidade todo dia.

Nina: Concordo, Cátia.

Cássia: No fim das contas, ainda é assim, né?

Laís: Claro.

Nina: Essa narração realista é bem do autor, né?

Laís: E termina falando sobre as mulheres, que, quando os homens saíam para trabalhar, temiam que eles não voltassem nunca.

Cátia: Sim.

Laís: Acho isso genial.

Cátia: A mulher como ser frágil e ao mesmo tempo como fortaleza.

Laís: Acho que isso não muda.

Cátia: Acho que sim, Laís, tens razão.

Nina: O que me encanta no livro é que a gente vai lendo as fases da vida da Fermina e vai se encantando pelas duas. A Fermina novinha com o amor adolescente, depois o marido médico e conceituado.

Cássia: Não sei vocês, mas em tantos momentos eu me identifiquei com ela.

Nina: Com a Fermina?

Cátia: Por quê?

Laís: Desenvolve, rs.

Cátia: lol

Nina: Hahaha.

Cássia: É, com a Fermina. Não sei claramente o motivo, só com muitas sessões de terapia.

Cátia: lol

Cássia: Não sei se porque, numa fase da minha vida adolescente, havia um Florentino, ou porque eu era passional demais quando li e queria aquela calmaria com um homem bacana e generoso. Sabe essas coisas?

Nina: Eu já fui um Florentino (em menores proporções, é claro!).

Cátia: Sabe que isso nunca acaba, não é? Por muito que se case, que se tenha outros amores, este tipo de amor nunca acaba…

Cássia: Nunca acaba?

Cátia: Sim.

Cássia: Gente, tem de acabar.

Cátia: Acho que sim.

Cássia: Pre-ci-sa acabar, hehehe.

Cátia: O ter não é o mesmo que o ser.

Nina: Por isso, quando eu li o livro… quase morri! Eu não queria ser um Florentino.

Laís: Pelamor, Cátia, diz isso não.

Cátia: HAHAHAHAHAHA.

Cássia: Cátia deixando todas nós arrasadas, todo mundo chorando de noite hoje.

Nina: Hahahahaha.

Cátia: Gente, alguma vez a gente esquece um grande amor?

Cássia: Eu acho que esquece.

Cátia: Eu acho que não.

Cássia: Sério, não estou falando para posar de resolvida.

Cátia: Há algo em nós que ama para sempre.

Cássia: Ama o amor ou a pessoa? São coisas diferentes. Ama a pessoa ou uma ideia?

Cátia: Nenhum dos dois. Ama a ideia, ama a lembrança.

Cássia: Eu acho que ama a lembrança, que sempre é melhor do que quando a gente viveu.

Cátia: Sim, mas não deixa de ser uma forma de amor.

Cássia: Não sei, querida Cátia…

Cátia: Laís, agora lembrei, aquilo do sonhado tem a ver com isso, o livro me fez lembrar outras histórias. EU SOU UM FLORENTINO TAMBÉM!

Nina: Hahahahahaha.

Cássia: Não acredito! Estamos cercadas de Florentinos, hehehe.

Laís: Acho que todo mundo foi, um dia.

Cássia: Eu já fui, quero ser Fermina, eu estou quase Fermina, na verdade.

Cátia: Não sei, Cássia…

Cássia: Acho que me identifiquei porque estava vendo o meu futuro, hehehe.

Cátia: Eu não gostei muito da Fermina e eu gosto de ti.

Cássia: Aeeeeeee! Mas entenda o lado Fermina.

Laís: Como assim, Cássia? Tem um Juvenal e a gente nem sabe?

Nina: Eu também!

Cássia: O Juvenal logo vem, calma, hehehe.

Nina: Opa, um Juvenal!!

Cássia: Logo terei, só precisava deixar o Florentino de lado, né? A gente tem de deixar para lá, senão não segue.

Nina: Isso.

Cássia: Mas, Cátia, pode continuar gostando de mim, pelamor! A Fermina é só no sentido de ter um Juvenal, um homem bacana que cuide de mim. Serei legal, prometo, hehehe.

Cátia: Sim, entendam. Eu gostava do lado resolvido dela. A Fermina é resolvida.

Cássia: Isso, é esse lado resolvido dela! Ela é mesmo.

Cátia: Ela não tem preâmbulos, ela é o que é. Agora, o que me chocava um pouco nela e daí alguma antipatia também.

Cássia: Mas sabe que eu acho isso ótimo?

Cátia: É que ela é um tanto fria. Sim, esse lado é bom, mas o lado dela não sentir, eu acho que ela não sentiu nada até o fim, ela não amou.

Cássia: Eu acho que ela sentiu.

Nina: EXATAMENTE, disse tudo!

Cássia: Mas do jeito dela, sabe.

Cátia: Não quero julgá-la.

Laís: Ela não se apaixonou; mas amou, sim, na minha opinião.

Cátia: Mas o amor se reduzir ao hábito é algo que me incomoda.

Cássia: Não sei se foi bem por aí… Porque, ó, pensemos: adolescente, ela sofreu pelo Florentino, a vida dela virou um inferno por conta dele. Até que ponto esse sofrimento no amor não a tornou mais fria, como uma maneira de evitar essa dor novamente?

Cátia: Ela adorou esse inferno, acho que foi a única parte em que ela sentiu algo.

Cássia: Ninguém adora o inferno, hehehe.

Cátia: Depende… O Florentino adorou, a vida dele era de certa forma um inferno.

Cássia: Mas na nossa visão.

Nina: Não sei, acho a Fermina fria. Não sei se ela sofreu assim por ele. Acho que ela ficou encantada com o namoro adolescente sim, mas ela não gostava de ser contrariada, e foi contrariada pelo pai.

Cátia: Sim, concordo, Nina.

Cássia: Vamos pensar por um outro lado?

Cátia: E tinha o sabor do mistério de algo que ela nunca tinha vivido.

Nina: Isso.

Cátia: Porque tudo lhe era um tanto proibido.

Cássia: E é só um questionamento, tá?

Cátia: Sim.

Cássia: Por que temos sempre a ideia que o “sentir” tem de ser “extravasar”? Não sei em Portugal, mas no Brasil é muito assim, tudo é sofrido, chorado, gritado; a gente tem de mostrar passionalmente o que foi sentido.

Cátia: Eu entendo o que queres dizer.

Cássia: Há quem o viva “para dentro”, por exemplo, como os japoneses. Cansei de ouvir depois da tragédia de lá…

Cátia: Mas no livro nós lhe conhecemos o pensamento.

Cássia: “Nossa, japonês é frio, não sente.” Como, eles perderam TUDO. Eles sentem…

Laís: Por isso eu falei que ela pode ter amado, sim; não o Florentino, mas o marido.

Cássia: só não demonstram.

Cátia: Eu entendo, Laís, e concordo em parte.

Cássia: Eu acho que ela amou o marido sim.

Cátia: Acho apenas que ela se acostumou a ver o marido como o seu companheiro.

Cássia: E também acho que ela amou o Florentino. Mas, Cátia, isso é normal em muitos casamentos.

Cátia: Não sei se ela amou-o.

Cássia: Foram mais de 50 anos juntos.

Cátia: Sim, é normal.

Cássia: Mas por que não o amou? Só porque ela não suspirava todo dia?

Cátia: Não estou a dizer que não é.

Cássia: Ou porque não foi arrebatador? Construir uma vida ao lado de alguém também não é amor?

Cátia: O que estou a dizer que ela tinha pequenos gestos do quotidiano de frieza.

Laís: Para mim, é.

Cássia: Mas era o jeito dela.

Cátia: E o amor não se vê em grandes gestos mas nos pequenos, e no quotidiano.

Cássia: Sim, claro, mas cada um tem o seu jeito de demonstrar amor.

Nina: Eu acredito que ela amou o marido, mas não acho que ela amou o Florentino. Para mim, o Florentino foi só aquela coisa da descoberta, de trocar cartas porque era proibido.

Cátia: Concordo mais com a Nina.

Cássia: É, Nina, talvez eu tenha usado a palavra errada. Pode ter sido, sei lá, a paixão adolescente.

Cátia: Mas entendo o que vocês dizem.

Laís: Se ela não tivesse amado o marido, não teria voltado com ele quando ele foi buscá-la na fazenda da prima, depois da traição dele.

Cátia: Não sou radical, apenas digo que ela me passou muito de frieza.

Cássia: É mesmo, ela sofreu com essa traição. Sim, Cátia, eu entendi.

Cátia: Sim, talvez, Laís.

Cássia: O meu questionamento é só pelo fato da gente ter uma ideia do que é demonstrar amor e nem sempre isso é igual para as outras pessoas. Ser frio não significa não sentir, porque tem gente gelada por dentro que demonstra o que não sente.

Laís: É difícil para mim conviver com gente fria, mas fazer o quê?

Cássia: A frieza eu entendo…

Cátia: Sim.

Cássia: eu não entendo é a maldade.

Laís: Perfeito.

Nina: Eu acredito que ela amou o marido sim, mas isso não tira dela a característica de ser fria. Acho que ela aprendeu a amar o marido, no cotidiano mesmo, mas ela mais foi amada do que amou. Acho que ela só percebeu (ou entendeu) o que era amor quando o doutor se foi.

Cátia: Bem, eu entendo o teu raciocínio. Sim, acho que explicaste bem, Nina.

Cássia: Aí vem outra questão: há algum problema em ser mais amada do que amar? Eu já amei mais do que fui amada e, falo sério, NUNCA MAIS.

Nina: Nenhum. Eu não disse que era.

Cátia: Eu entendo o raciocínio da Cássia e da Laís, mas eu inclino mais para o que diz a Nina.

Cássia: Se eu tiver de escolher, escolho ser amada, mas sem nem piscar meus olhos.

Nina: Eu disse que ela não sabia amar (ou não sabia que o que sentia era amor).

Cássia: Será, Nina? O que significa “saber amar”?

Cátia: Amar é doar.

Cássia: E ela não se doou?

Cátia: Não.

Cássia: Foi uma vida de dedicação.

Nina: Não.

Cátia: Não acho.

Cássia: Ai, gente, como não?

Cátia: Ela cumpriu o papel dela como esposa, o papel social, o papel de dona de casa.

Cássia: E o que difere isso da doação?

Nina: Uma vida de dedicação num casamento de antigamente era mais obrigação que amor.

Cássia: Como a gente qualifica o que uma pessoa faz? Gente, calma, não confundam. Se for assim, nenhuma mulher amou no passado, só cumpriu obrigação.

Nina: Não, flor, estamos nos referindo à Fermina.

Laís: Não que ela fosse vítima, longe disso. Mas vocês não acham que em alguns momentos ela se sentia oprimida pela vida do marido? Pelo prestígio, pela posição social, pela paz que eles não tinham porque todo mundo ficava na sombra deles?

Cássia: Ninguém, em momento algum, pode afirmar isso.

Cátia: Não concordo.

Cássia: Gente, mas isso pode acontecer em qualquer casamento em que um tem mais “poder social” que o outro.

Nina: Eu estou afirmando o que Fermina Daza representou para mim, entende? Pode não ser a personagem para você, ou para a Cátia, mas é o que ela passou para mim.

Cátia: Laís, eu acho que isso advinha do facto dela, no fundo, não ter vocação para ser casada.

Cássia: Claro, Nina, eu entendi. Só estou questionando e afirmando que, para mim, foi diferente disso.

Cátia: Nossa, Fermina nos faz ferver e isto é uma rima fraca.

Cássia: Faz porque nos coloca como protagonistas, porque somos mulheres, porque não somos mais meninas…

Laís: Talvez, Cátia; mas não sei se o que ela desejava era não ser casada, tenho dúvidas.

Cássia: Porque todas nós já nos apaixonamos e tivemos relacionamentos, e quando questionamos a Fermina, a gente se questiona ao mesmo tempo, é um “o que eu faria no lugar dela”.

Cátia: Laís, eu acho que ela não queria ser casada mas tinha de ser, para sobreviver em sociedade.

Laís: É uma possibilidade.

Cátia: Bem, mas, Cássia, você acha que ela amou e que ela se doou?

Cássia: Acho… Dentro do que ela podia, dentro do que isso significava para ela, ela foi uma boa mãe e uma boa esposa, e poderia não ter sido.

Laís: Concordo com a Cássia.

Cátia: Sim, isso é verdade. Mas é curioso, que até com os filhos eu acho-a fria.

Laís: Falando em filhos, devo dizer que eu achei a nora dela uma graça; a única que no fim das contas não a recriminou por causa do Florentino.

Cátia: Sim, o que é fora do normal. Geralmente, este é um relacionamento que nem sempre dá certo. Foi, no fundo, a sua única aliada. Deixem-me partilhar uma ideia que me veio à cabeça durante a leitura. Enquanto a história evoluía, eu pensava em como achava o Florentino feminino e a Fermina masculina…

Laís: Nossa, isso não me passou pela cabeça, rs.

Cássia: Boa! Tem razão.

Cátia: Florentino tinha uma forma de sentir muito de mulher, tirando a promiscuidade, e a Fermina era muito impessoal, muito prática, muito pés no chão, uma forma um tanto masculina de ser.

Nina: Verdade.

Cátia: E foi uma inversão de papéis que achei interessante.

Nina: E isso mexe muito com quem lê.

Cássia: Muito bom, é bacana pensar nisso. E é legal a gente perceber que muito da nossa percepção tem a ver com a ideia que temos do que é ser homem e do que é ser mulher.

Cátia: O que faz com que os dois estivessem deslocados no seu tempo, espaço e vidas e, portanto, ambos frustrados.

Laís: Gostei da reflexão.

Nina: Isso.

Cátia: Sim.

Cássia: Se fosse homem, Fermina não seria vista como uma pessoa fria…

Cátia: E talvez isso faça com que seja difícil definir Fermina. Sim.

Cássia: E se fosse mulher, Florentino não seria visto como uma pessoa passional.

Cátia: Nem obcecado.

Cássia: Exatamente. É normal uma mulher “esperar pelo amor”, como a gente falou aqui, todas nós fomos Florentino.

Laís: Como obcecado, seria visto sim.

Cátia: Sim, totalmente.

Cássia: Não sei, Laís, a gente aceita a mulher apaixonada.

Laís: Mas reconhece quando passa da conta.

Nina: Mas a gente percebe a mulher obcecada, né? hehehe.

Cássia: Só se ela deixa muitas pistas.

Nina: Ixi! hahahaha.

Laís: Falo isso por causa da minha autocrítica.

Cássia: Mas você tem autocrítica, hehehehe.

Cátia: Um homem obcecado é um homem obcecado, uma mulher obcecada é uma mulher histérica.

Cássia: É mesmo, hehehehe.

Nina: É verdade.

Cássia: E mulher histérica é quase pleonasmo.

Cátia: lol

Laís: Credo.

Cássia: Laís, estamos falando do senso comum, hehehe. Não disse que concordo, não estou aqui defendendo a Fermina?

Cátia: Vamos combinar…

Laís: Eu sei, Cássia; relaxa, foi só uma observação.

Cássia: Claro, claro, mas pensei que você tivesse entendido errado.

Cátia: o Florentino era um promíscuo, pedófilo, adorava uma festa privada, mas a forma apaixonada dele ser, a sua poesia e a sua entrega a um sentido faz com que nós esqueçamos as suas falhas e nos identifiquemos com o seu sofrimento. Além dele ter sido um excelente filho.

Cássia: Cátia, nós temos fascinação pelos apaixonados. Pessoas que seguem seus impulsos são mais adoradas que aquelas que se impõe regras e afins.

Nina: Veja Marianne Dashwood, por exemplo.

Cássia: É mesmo.

Cátia: Sim.

Cássia: É mais fácil gostar dela que da Elinor.

Laís: Meninas, eu ficaria aqui durante horas conversando com vocês, mas preciso ir.

Cátia: Bem, eu sempre gostei mais de Elinor.

Cássia: Mas você tem outra visão da vida, Cátia! hehehe. Estamos falando do senso comum.

Cátia: Beijoca, Laís!

Nina: Beijos.

Cássia: Beijos!

Laís: Beijos, tchau.

Cátia: Sim, concedo.

Cássia: A Marianne é vista como uma pessoa que amava, a Elinor, não. A gente percebe o amor da Elinor, mas a maioria vai dizer outra coisa.

Cátia: Cara, Elinor era um vulcão.

Cássia: Por dentro. Já a Marianne era um maremoto, hehehe.

Nina: Engraçado, quando eu li o livro, eu queria ser como a Elinor.

Cátia: Marianne era um maremoto que enfraquecia ao chegar na costa. Eu também.

Cássia: Porque você estava cansada de ser Marianne, Nina.

Nina: Mas só me via como Marianne.

Cátia: Sempre quis ser como Elinor, eu nunca quis ser como Marianne.

Nina: Nem eu, mas eu era.

Cássia: Eu sempre fui Marianne, não sou mais. Agora estou até me achando fria, depois do que vocês falaram da Fermina, hehehe.

Nina: Acho que ainda tenho um pouco dela.

Cássia: Eu já não tenho mais.

Cátia: lololololol

Cássia: Afetivamente, não mais. É triste, eu sei. Meu lado Marianne foi para coisas.

Cátia: Há que ter o equilíbrio dos dois lados.

Nina: Isso.

Cássia: Sim, sim, por isso acho triste.

Cátia: Hoje em dia eu procuro buscar esta chama da Marianne, menos racional, menos Elinor.

Cássia: Na vida, eu sou uma Elinor agora. A chama da Marianne foi para coisas, não pessoas, sabe?

Cátia: Isso, por vezes, são fases. Eu já tive todas as fases Jane Austen.

Nina: Hahahahaha.

Cássia: Hehehehehe.

Cátia: Elinor, Emma, Fanny, Anne.

Cássia: Eu não, fui Marianne até os 30, já está ótimo. Ah, foi Emma, né, danada.

Cátia: Acho que todas temos de tudo um pouco, menos a Nina que de Emma nem pensar.

Nina: De jeito nenhum! hahahahaha.

Cátia: lol. Eu de Emma tenho o cuidado com o pai.

Cássia: Emma e Nina, nem um vestígio de amor.

Cátia: Olha, Nina, que um Mr. K. é tudo!

Cássia: Eu desencanei do K.

Cátia: Eu de Emma tenho também um Mr. K.

Nina: Pois é, mas eu aceito o capitão, hahahaha.

Cátia: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, aí tudo bem, o capitão é tudo de bom, tirando a tentativa de ciúmes.

Cássia: Agora, só o W.

Cátia: Mas a carta, aquela carta, uiiiiiiii, “you pierce my soul”, *suspirossssssssss.

Cássia: Não quero um homem que me espera por 50 anos, mas pega todas as mulheres do condado, hehehe.

Cátia: Homem de acção, por favor! LOLOLOLOLOLOL

Cássia: Prefiro o que me espera fielmente por oito.

Cátia: Florentino safado.

Cássia: Safado master.

Cátia: E ainda disse que ainda era virgem para a Fermina.

Nina: Gente, analisando friamente… Florentino Ariza era patético.

Cátia: E ela tipo, “é ruim, hein, fofo”.

Cássia: Hahahaha, essa foi ótima, Nina.

Cátia: Nossa, Nina, você destruiu o Florentino, lol.

Cássia: Gente, mas pensando friamente mesmo, ela tem razão, o cara não cresceu. Foi pegador a vida toda…

Nina: Eu gosto dele, sério, mas é verdade.

Cássia: alimentou uma paixão adolescente, mesmo sendo um idoso…

Cátia: Nesse aspecto, se pegarmos a tua ideia, Nina, o Bardem foi excelente, porque muitas vezes ele passava esta ideia.

Cássia: ele nunca cresceu.

Cátia: E agora, qual livro vamos ler? Eis a questão…

Livro 6: Persuasão

O encontro do sexto livro aconteceu dia 3 de abril com participação de Cássia, Cátia, Laís, Marina e Nina. A nossa discussão, editada, vem a seguir.

Cássia: Cátia, estava contando para a Nina que farei uma coisa bem feia: serei infiel.

Cátia: Hahahahahahaha, ai o captain.

Cássia: O K. dançou.

Cátia: Captain, hahahahaha. Pois, eu também me inclino muito entre os dois.

Cássia: Ah, meu coração se decidiu.

Cátia: Oh, captain, my captain!

Cássia: Um homem que se mantém fiel por OITO anos. Eu quero AGORA.

Nina: Ele é um fofo!!!

Cátia: Hahahahaha.

Nina: Hahahahaha.

Cássia: Ele é demais.

Cátia: E a carta??????

Cássia: Ai, a carta.

Cátia: Eu AMO aquela carta.

Nina: Me explica a carta.

Cátia: Eu acho A CARTA.

Nina: Nossa, eu também.

Cássia: Que homem escreve aquilo, senhor jesus.

Nina: Pois é!

Cátia: É.

Cássia: Depois da carta, eu derreti.

Cátia: Aquela carta me emociona sempre.

Cássia: Chorei absurdos.

Cátia: You pierce my soul. É assim uma frase fenomenal. Acho que não há tradução em português que alcance a dimensão desta frase.

Cássia: É verdade…

Nina: Imagine a emoção de receber A CARTA, gente! Eu morria!

Cássia: Eu tremi só de imaginar receber uma dessas, sério.

Cátia: É, Nina, eu também

Cássia: Imagina, aquela angústia, abrir e ler isso?

Cátia: É tão poderoso este livro.

Cássia: W., eu tô aqui!

Cátia: Hahahahahaha.

Nina: Hahahahaahaha.

Cássia: Vamos combinar: Jane dá cada nome para os caras.

Cátia: Mas ele foi cruel…

Cássia: Eu não consigo soletrar, gente.

Cátia: Tadinha da Anne, hahahaha.

Cássia: A angústia dela, ô dó.

Cátia: Eu gosto muito da Anne, acho que já disse isso. É a personagem com a qual mais me identifico.

Cássia: Duas!

Nina: Eu também.

Cássia: E não dá para ser imparcial nesse livro.

Cátia: Não dá.

Cássia: Analisar com calma, com sei lá o quê.

Cátia: Eu entendo tudo na Anne.

Cássia: É passional a coisa.

Nina: Exatamente!

Cátia: É e tem muito de abnegação.

Cássia: Tem partes da história que nem lembro, sério. Parece que passa como um tufão pela gente.

Cátia: Eu olho para Anne e sei que ela não se deixou unicamente persuadir.

Cássia: Não mesmo. E quando ela fala do dever? Vou até pegar o livro, para copiar umas partes.

Cátia: Ela se negou a ela própria pelo bem de todos.

Nina: Eu também.

Cátia: Eu me emociono com isso.

Nina: E o tanto que ela sofreu?

Cátia: Nossa, Nina, foi demais.

Nina: Gente, eu sentia a dor dela.

Marina: Eu também. E dele também.

Nina: Muito sofrimento para uma pessoa só.

Laís: Curiosamente, eu me identifiquei mais com a dor dele do que com a dela; não que não entenda a dela, longe disso.

Cássia: Sofrimento demais. Então, vamos organizar? Vai, Laís, fale sobre a sua identificação. Depois a gente fala da nossa, o time Anne.

Cátia: OK.

Marina: Eu entendi a dor dos dois, mas me identifiquei mais com a dela.

Cátia: Hoje vai ser bom!

Cássia: Hoje vai ser uma coisa, já estou tendo palpitações.

Nina: (hahahaha)

Laís: Então… Entendo muito a dor dele porque é muito complicado amar uma pessoa que não tem a mesma força que você. Ela não era forte, pelo menos não foi naquele momento, porque se deixou levar por muita gente; a dor dele ainda foi maior porque ele não conheceu de fato os motivos dela.

Cássia: Hmmm… não concordo, mas prossiga.

Laís: Por isso compreendi quando ele demonstrou certo ressentimento quando os dois se reencontraram. Claro que fiquei triste com isso, tá gente? Não quero condenar a Anne de jeito nenhum.

Cássia: Nem vejo como condenação, mas não acho que a decisão dela tenha a ver com força.

Cátia: Sim, concordo.

Cássia: Ela até fala, naquela parte linda, vou digitar.

Marina: Eu concordo com a Laís, ela não teve força naquele momento.

Cássia: “[…] lembre-se que era uma persuasão exercida em nome da segurança, não do risco. Quando cedi, achava que cedia ao dever…”

Cátia: Sim.

Cássia: Meninas, é lindo a gente falar em força quando não se tem grana nem para pagar as contas.

Marina: Mas acho que o que a Laís quer dizer, é a força do amor dela por ele, que não foi forte o bastante (É isso, Laís?).

Cátia: Sim, ceder não por fraqueza mas por capacidade de resistência.

Cássia: Exatamente, Cátia. Mas ela o amava imensamente… por isso sofreu tanto.

Laís: É mais ou menos isso, Marina.

Cátia: Bem, eu penso um pouco diferente.

Marina: Eu sei que sofreu, e morri de dó, todo o tempo, meu coração pulava junto cada vez que eles estavam na mesma sala, hehehehe.

Laís: Puts, o meu também. Afinal de contas, ela se sentia desconfortável também, né… Tinha consciência.

Marina: Sim, e ele no começo foi bem malvado, hehehe (eu entendi ele também), mas mesmo assim dava dó dela.

Laís: Se eu fosse ele, talvez agisse da mesma forma no início.

Cátia: Eu penso que Anne Elliot não foi contra a família e contra a opinião de Lady Russell não por ser fraca ou demasiado frágil.

Laís: Porque a gente sabe o que acontecia no coração dela, mas ele não tinha como saber.

Marina: Laís também acho que ia agir daquela forma. Sim.

Cátia: Eu penso que ela agiu em conformidade com a consciência de que unir-se naquele momento ao W. implicaria principalmente prejudicar a ele, e isso é o que eu acho fantástico.

Cássia: É mesmo, não tinha pensado sob esse aspecto. Pronto, meu amor por ela acabou de crescer.

Cátia: Jane revela isso numa frase: “(…) se não se houvesse detido a imaginar o bem dele, mais ainda do que o seu próprio, por certo não teria renunciado a Wentworth”.

Laís: Interessante.

Cássia: A Anne chega a ser mais madura que a Elinor.

Cátia: “A convicção de estar a ser prudente e abnegada acima de tudo para bem dele foi o seu principal consolo no tormento da separação.” Gente, isto é lindo. Totalmente.

Nina: Eu concordo com a Cátia. E para falar a verdade, eu nunca pensei em fraqueza, mas no que ela sofria. Eu sofri a cada momento junto com ela porque ela o amava perdidamente. Muito lindo.

Cátia: Ou seja, ela renunciou ele para o bem dele. Sim…

Cássia: Também nunca pensei em fraqueza, nem em falta de amor.

Cátia: É muito lindo, sofrer calada e incompreendida.

Marina: Mas ele, com certeza, viu como uma fraqueza dela.

Cássia: No começo, pensei mesmo que ela se deixou levar pelas circunstâncias, depois entendi que era amor mesmo assim… É lindo a gente achar que o “amor pode tudo” quando a realidade é diferente.

Cátia: E sem esperar sequer voltar a vê-lo.

Cássia: Mas ele foi renegado, Marina. Ninguém que toma um pé na bunda verá grandeza nisso, hehehehe.

Marina: Isso que eu falei.

Laís: É isso que eu penso também. Para ele, dane-se a grandeza.

Cássia: Eu sei que “pé na bunda” é feio, mas não me veio outro termo, hehehe. Não só para ele, para todos nós. Se eu levo um fora porque o cara quer o meu bem, não vou achar isso lindo.

Cátia: Mas aí sabem de uma coisa, eu acho que o problema não foi o fora que ele levou.

Cássia: Posso entender isso mais tarde, não naquele instante.

Cátia: O problema eu até acho que foi ele ser esnobado pela família dela, isso irritava ele.

Laís: Sim.

Cássia: É mesmo?

Cátia: Eu acho.

Cássia: Porque eu não o vejo como um Darcy, um poço de orgulho.

Nina: Sim.

Cátia: Ele ficava meio que engasgado com isso.

Marina: O ser humano é orgulhoso e todo pé na bunda fere o nosso orgulho, por isso ele tratou ela daquele jeito no começo.

Cátia: Não, não é isso.

Laís: Aí ele soma o fato de ser esnobado com o fora e pensa: pronto, ela acha a família mais importante do que eu, essa família que nem gosta dela.

Marina: Hehehehehe.

Cátia: Ele levou um fora muito grande da família dela.

Nina: Nossa.

Cátia: Porque ele entendeu que o fora da Anne foi por causa da família dela.

Cássia: Gente, tem de ler muito conto de fada para ter a certeza, ainda mais naquela época, que a princesa abandona a família por amor.

Laís: Exato.

Cátia: A família não achava que ele estivesse à altura – não da Anne – mas de um Elliot, pelo menos, eu interpreto assim.

Laís: Sim, a Anne, na verdade, pouco importava.

Cátia: Não importava nada (só me apetecia esbofetear a família dela toda).

Laís: Somos duas.

Nina: Gente, não foi a Lady Russell quem a convenceu a largar o capitão?

Marina: Eu também.

Cássia: Foi sim.

Laís: Foi. Fiquei com uma raiva… Mas uma raiva…

Cássia: E a (quase) casar com o Sr. Elliot canastrão.

Cátia: A Lady Russell lembra uma Emma madura, não achas Nina?

Nina: Muito, hahaha.

Cássia: Ahá, sabia que vocês iam falar isso.

Cátia: Hahaha.

Cássia: E até pensei na defesa, huhuhuhuhu.

Cátia: Deves ter adorado!!!

Cássia: Conheço vocês, gurias! Não, porque elas são diferentes. A Emma era mimada, a Lady Russell é mulher feita, a Emma fazia o que fazia por infatilidade…

Laís: A Emma consegue ser pior que a Lady Russell.

Cátia: E não é tão divertida.

Cássia: Não, a Lady Russell é pior, porque ela manipula.

Cátia: Eu não concordo.

Cássia: A Emma não tem tamanha inteligência.

Nina: Mas a Lady fez o que fez porque achou que ele não merecia a Anne. Claro, toda aquela baboseira de não ser a altura da família e tals. Acho que por isso a Anne considerou. Se fosse a tonta da irmã dela… duvido! Hehehe.

Cátia: Não acho que Lady R. seja manipuladora.

Marina: Verdade (verdade para a Ana).

Cássia: Gente, a Emma fez a mesma coisa com a amiga, achou que fulano não estava a altura, agora uma é legal e a outra não?

Laís: Para mim é difícil defender a Emma.

Cássia: Eu amo a Emma, então nem adianta, hehehe.

Marina: Eu acho que as duas agiram errado e da mesma forma.

Cássia: Mas eu gosto da Lady Russell também.

Cátia: Lady Russel tinha um sentimento de mãe, queria proteger a Anne.

Nina: Eu acho que a Lady Russell protegia a Anne. Tipo, ela era uma mãe para ela.

Cássia: Mas eu não acho que agiram certo. Eu só ENTENDO o que fizeram.

Nina: Também não acho.

Cássia: É, ela fez o que uma mãe faria.

Cátia: Eu também entendo.

Cássia: Porque naquela época, a coisa era diferente.

Cátia: Eu acho que Lady Russell agiu a pensar no bem.

Cássia: A gente não pode olhar com nossos olhos de hoje.

Cátia: Sim.

Nina: Isso.

Cássia: “Ah, que absurdo, não casou por conta do nome.” Naquela época, isso era importantíssimo!

Nina: Exatamente.

Cássia: A palavra, a honra e o nome valiam mais do que qualquer coisa.

Cátia: Na realidade, o W. não podia naquela altura oferecer nada para Anne.

Cássia: Exatamente.

Laís: Meninas, o que mais me incomoda não é o fato de não casar por causa do nome.

Cátia: E Lady Russell sabia disso.

Cássia: Exato. E sabia que, se Anne se casasse, poderia ser uma desgraça.

Cátia: E Anne também.

Cássia: Mesmo com tanto amor.

Cátia: E aí está o grande cerne da questão.

Laís: O que mais me incomoda é o fato de a família nem gostar da Anne. Isso me enraivece.

Cátia: Eu insisto nisso.

Marina: Verdade, isso é o uó, eles tratam ela como empregada e ainda se metem na vida amorosa da menina.

Cátia: O que Anne acatou de Lady R. é o argumento de que se eles se casassem isso provavelmente prejudicaria a ele. Foi isso que a fez ser “persuadida”.

Laís: Por causa daquela família odiosa.

Cátia: Esta é a minha teoria da conspiração versão “persuasão”.

Cássia: Nem toda família é um berço de amor.

Marina: Mudando de assunto, aquela Louisa me irritou com o “me pega”, hehehe.

Cátia: Hahahahahahahahaha.

Laís: Peraí…

Cátia: Aliás, as duas irmãs.

Laís: Antes de falar da Louisa, eu tenho que dizer que a Mary merecia uns tapas bem dados.

Cássia: A Jane sempre coloca as cocotas nos livros.

Laís: Eita mulher chata.

Marina: Verdade.

Nina: Nossa, eu xinguei demaaaaaaais! Hahahaha.

Cássia: Ela devia a-do-rar esses seres.

Laís: Agora prossigamos, rs.

Marina: Nossa senhora, quando ela falava “me pega” eu sentia a dor da Anne, dava uma vontade de dar um peteleco na menina.

Cátia: Sabes o que mais me irritou na Mary? Quando ela disse que o W. tinha falado nela como se ela estivesse acabada.

Marina: Nossaaaaaaaaaa, verdade.

Cátia: Que ódddddiiiiiioooooooooo.

Nina: Noooooooooooooosssaaaaaaaaa.

Marina: Tinha me esquecido disso, nossaaaaaaa.

Cátia: Tipo “ele nem te reconhecia”.

Marina: Tapa na cara.

Cátia: Arrrrggggghhhhhhhhhhhhhh.

Marina: Hehehehehehe.

Cássia: Hahahaha, gente, eu achei graça. Naquela época, 27 anos era tiazona.

Cátia: Eu achei muito sebosa.

Nina: Eu fiquei com ódio.

Cássia: Eu nem liguei.

Marina: Muito ódio.

Laís: Pois é. Eu fiquei me imaginando uma tia, eu tenho exatamente 27 anos.

Cátia: Nossa, dava para uns catiripapos!!

Laís: Foi muito estranho, rsrs.

Marina: Eu também, hehehehehehe.

Cássia: Meninas, peeeeeeeeensem na época, hehehe.

Cátia: Sim, eu sei.

Cássia: Eu tenho 31, se pensar nisso, me jogo da ponte… Hello, século 21!

Cátia: Mas eu acho que foi naquela de espizinhar.

Laís: Eu penso, por isso fiquei imaginando a diferença entre as culturas.

Cássia: A Mary era tão tonta, coitada.

Laís: E como é louco tudo isso.

Cássia: Que, se falava, nem pensava muito nisso.

Cátia: As irmãs dela tinham sempre aquela coisa de tratá-la como um ser inferior.

Nina: Pois é, eu fiquei me imaginando naquela época e com a personalidade de hoje. Acho que eu ia ser presa e enforcada como bruxa. Hahahaahahaha, eu ia xingar todo mundo!

Cátia: A irmã mais velha também era titia e ninguém lhe dizia essas coisas.

Cássia: Naquela época, eu acho que teria sido uma Jane… “Ah, é? Sou obrigada a casar? Pois vou ficar SOZINHA!”

Marina: Num tem nada a ver com o tempo não, só achei que não foi legal da menina e me coloquei no lugar da Anne e fiquei com raiva da outra por ela.

Cátia: Eu não. Eu ia ficar “K” ou “W”?????? Hahahaha.

Nina: Hahahahaha.

Cátia: Ou Henry???

Nina: Boa!

Cátia: Nossssssssssssa…

Cássia: Ué, mas Jane ficou…

Cátia: Ia ser complicado.

Cássia: Ela criou TODOS! Hehehehehehe.

Cátia: Ah, não vale… Ela se os criou é porque não existiam…

Cássia: Por isso morreu só, porque o homem que ela almejava não existia.

Cátia: Ela era muito à frente.

Cássia: Ainda bem, né? Senão a gente não estava aqui falando dela.

Nina: Gente, podemos falar da carta? (ansiosa)

Cátia: Vaaaaaaaaaaaaaammmmmmmoooooooos.

Laís: Ser crítica às vezes é um problema…

Cátia: QUE CARTA LINNNNNNDDDAA!

Laís: observar muito

Marina: Lindaaaaaaaaaa.

Cássia: Não criticar às vezes também é.

Laís: Você começa a conhecer traços de caráter muito bem.

Cássia: O que te livra de MUITA coisa.

Cátia: You pierce my soul……………… “suspiro”.

Marina: Hehehehe.

Cássia: Mil suspiros. W., me liga.

Laís: Hahahahahaha.

Cássia: Calma, vou aprender a escrever meu futuro sobrenome.

Cátia: I am half agony, half hope… I have loved none but you. A sério…

Marina: Chuchuzinho.

Cátia: Vou buscar o meu marido e obrigar ele a me dizer isso!!!! Hahahaha.

Cássia: Wentworth!

Marina: Hehehehehehehe.

Nina: Eu também.

Marina: Eu nem tenho esperança que o meu escreva algo assim, hehehehehe.

Cátia: Gente, que frase que angústia que sofrimento que tudo. Eu imagino ele a escrever isto com as mãos a suar de ansiedade.

Cássia: O que acho bacana é que aí a Jane inverteu as coisas.

Cátia: O coração acelerado.

Laís: Tem hora que não dá para segurar sentimentos, aiai.

Cássia: O homem esperou tantos anos.

Cátia: Sim…

Cássia: Ele se angustiou para o reencontro. Claro, a Anne amou e tal e coisa, mas ela não esperou, porque ela não tinha mais esperança (como ela mesma falou uma hora).

Marina: Mas ela achou que tinha acabado, né,

Nina: E na hora que ele a entregou para a Anne? Tipo, com um olhar de súplica? Meu deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeus!

Marina: Sim.

Cássia: Sim, ela achou que não rolaria mais nada.

Cátia: Sim.

Marina: Estava conformada já.

Cátia: E depois tem outra coisa…

Marina: E que dó quando ela acha que ele vai casar, nossa mãe de deus.

Cátia: Ao longo do livro ela não nos revela muito do que ele pensa.

Laís: Eu também acharia que não rolaria mais nada.

Nina: Nossa, e a dor?

Cátia: Nesta carta é que transborda tudo dele.

Cássia: Ainda mais que eles iam praticamente conviver, né? Se ele casasse com a Louisa.

Marina: Mas pelo jeito que ela fica quando acha que ele vai casar, dá para ver que um pouquinho de esperança ela ainda tinha.

Laís: Ele é, de longe, o homem mais incrível que a Jane criou.

Marina: Verdade.

Nina: A carta vem para selar de uma vez. Tipo, CHEGA!

Marina: Já pensou o inferno.

Cátia: Eu gostaria de falar, não sei o que vocês pensam, mas eu acho que ele só realmente constatou que ela o amava ainda depois de Lyme, quando a Louise teve a queda. Ele muda muito a partir daí.

Laís: Concordo.

Cássia: Mas ele não diz que, naquele momento, viu que o caráter dela continuava o mesmo?

Cátia:Mas não tinha a certeza e por isso, por insegurança, para não sofrer de novo se segurava.

Marina: Num sei.

Cátia: Em Lyme?

Laís: Ele precisava se certificar.

Marina: Eu amei quando ela corre atrás dele no concerto.

Cássia: Quando a gente ama, a angústia só acaba se o outro fala na lata que também ama.

Laís: Falando em concerto.

Cássia: Dar dica não ajuda.

Cátia: Sim, ele estava na defensiva.

Nina: Dar dica só piora, na verdade.

Marina: Eu achei que ali ela ia falar alguma coisa.

Laís: Aquele primo chato pedindo para ela traduzir uma música, enquanto ela conversava com o W.

Marina: Verdade.

Cássia: Ele só ia se acalmar quando a Anne dissesse: “Sim, quero também.” É mesmo, Nina, piora.

Cátia: E, gradualmente, ele foi constando que apesar do que ele pensa ela continuou constante, coisa que ele não pensava.

Marina: Aquele primo era mó sem sal e sem açúcar.

Cássia: Porque ele a achava inconstante.

Cátia: Sim, e era o contrário. Mas ele até ali não tinha entendido que ela abdicou dele por ele – ai, é lindo –

Laís: Tem coisa que não dá para entender sozinho.

Cátia: Ele só entende isso mais para o fim.

Nina: Quer prova de amor maior do que essa, né?

Cássia: Por quê? Porque ela guardou tudinho num cantinho do coraçãooooo, hehehehe.

Cátia: Nossa, a sério.

Cássia: Se fosse hoje em dia, uma cabeçuda qualquer escreveria isso no Facebook ou no Twitter, hahaha.

Marina: Principalmente quando tem tanta emoção envolvida, é difícil entender as coisas usando a cabeça.

Cátia: Eu sou muito parcial com esse livro, imaginem se Jane o tivesse revisado????

Nina: Hahahaha.

Cássia: Mas ela mudou umas coisas, a carta não existia.

Nina: Nossa.

Cássia: A declaração tinha sido diferente.

Cátia: Sim, mas ele não estava ainda revisado.

Nina: A carta é tudo!

Cátia: Ela também revisou muitas vezes o S&S e o O&P.

Cássia: Não tem na versão de vocês? O capítulo excluído?

Marina: Um livro da Jane não podia faltar uma carta, hehehehe.

Cátia: Qual? Acho que não.

Nina: Não.

Cássia: Você viu o filme? No de 2007, eles deram um jeito de colocar. Querem que eu conte o capítulo?

Cátia: Sim, eu vi. Qual foi?

Nina: Qual é a sua edição?

Marina: Eu vi também.

Cássia: No filme de 2007, tem a cena do capítulo excluído.

Cátia: Qual capítulo?

Cássia: O 23.

Marina: Qual cena? Hehehe.

Cássia: Não tem a carta?

Cátia: Nossa, eu não sabia!

Cássia: Não era a carta, era ele chegando para falar com ela, que o cunhado dele disse que por conta dos boatos do casamento dela com o Elliot…

Cátia: Mas ela recebeu a carta nessa versão.

Cássia: Ele não alugaria mais a casa. Caaaalma! No filme, sim.

Cátia: Sim, mas isso tem no livro.

Cássia: No livro não era assim.

Cátia: Sorry.

Cássia: Magina. Então, aí ela diz que não vai casar com o fulano, ele se declara e vira mó novela. Aí tem quase o mesmo papo de quando ela vai falar com ele depois da carta, mas não tem o mesmo impacto. Aí a Jane não gostou e trocou o capítulo, e manteve o 24 como tinha escrito.

Cátia: Péra, não entendi.

Cássia: O que você não entendeu?

Cátia: Não.

Cássia: O capítulo 23 é a carta, não é?

Cátia: Ela eliminou ou trocou capitulo? Sim.

Cássia: Trocou. Trocou o novo pelo antigo. Calma, a gente está saindo da discussão, hehehe! Eu mando o capítulo por email.

Nina: Você tem qual edição, flor?

Cássia: Tenho da Martin Claret.

Cátia: Eu estou um pouco confusa porque minha numeração de capítulos não está como a sua.

Cássia: Quando o livro acaba, tem o capítulo excluído. Não se confunda, apague o que falei.

Cátia: O meu livro tem a história dividida em dois volumes e a carta corresponde ao capítulo 11, do volume 2.

Cássia: Então, o capítulo 11 não era esse, era outro. Ela jogou fora e reescreveu. Meninas, cadê vocês?

Cátia: Foram ver o livro.

Marina: Oi, estava lendo a explicação dos capítulos, hehehe.

Laís: Estou aqui.

Nina: Oie, estava vendo aqui, hehehehe.

Cássia: Hehehehe. Eu mando para vocês, relaaaaxem! Eu digito depois.

Cátia: Eu achava que essa coisa da versão 2007 seria uma liberdade ficcional da produção. Nossa, como me escapou uma informação dessas, bolas! Clube de Leitura é Cultura!

Cássia: Mas no seu livro não tem o capítulo excluído, por isso você não sabia.

Marina: Hehehehehe.

Cátia: Pois, mas eu leio tanta coisa desta temática e nunca tinha ouvido falar nisso. Sei que ela não teve tempo de revisar como gostaria de ter feito. Gente, e o pai dela? Eu tenho uma sensação de asco daquele pai, tão e completamente indiferente em relação à filha.

Nina: Pai da Anne ou da Jane?

Laís: Tenho a mesma sensação com as irmãs, para mim eles não diferem não.

Cátia: Da Anne.

Marina: Sim.

Nina: Nossa, ele é nojento!

Marina: Também achei o pai dela um nojento.

Cátia: Como é possível, não é?

Laís: Às vezes, eu acho que não é possível, pelo menos não desse jeito. Detesto dizer isso pra vocês, que são fãs, mas tem horas que eu acho que a Jane força um pouco.

Cássia: Laís, é absolutamente possível uma pessoa ser assim.

Marina: Eu não sei não, viu, eu acho que é possível ter pai assim, sim.

Cátia: Eu acho que é possível, mas eu sempre me pergunto como é possível.

Marina: Hehehe.

Cássia: Ótimo, Cátia, hehehe. Aliás, há muitos assim por aí.

Marina: É triste, mas é possível.

Cátia: Sim, claro que há. Daí a minha pergunta em forma de indignação: como é possível?

Marina: Hehehe.

Cátia: A sério… só muda a época.

Cássia: Certas coisas continuam exatamente iguais.

Cátia: Sim, totalmente.

Marina: É possível porque tem gente que tem os valores meio distorcidos.

Cátia: Só muda o foco de interesse. Mas, Laís, o que você acha que Jane força?

Laís: Sei lá, às vezes eu acho alguns personagens muito caricatos. Tudo bem que o ser humano pode não ter os sentimentos mais nobres do mundo, não pensem que eu vivo num mundo rosa, mas, enquanto a Jane sabe construir personagens muito complexos, como o W., também constrói outros muito simplórios, como esse pai e essas irmãs.

Cássia: Eu acho que Jane se atém a aprofundar os personagens principais e os outros podem ser vistos como arquétipos. São feitos para Jane mostrar aquilo que critica.

Marina: É, acho que é bem por aí.

Cátia: Eu penso que Jane é profunda com os simplórios.

Laís: Eu entendo, mas isso não me agrada.

Cátia: Ou com os personagens secundários.

Marina: Não me incomoda.

Cássia: Sério? Eu já acho que não… ou preciso reler de maneira mais atenta para perceber isso.

Nina: Nem a mim.

Cátia: Eu tenho muitas dúvidas quanto a ser uma forma de crítica. Muita gente diz isso que ela satiriza e isso é uma forma de crítica social, meio como o Eça, mas eu não concordo.

Cássia: Eu acho que ela critica sim… e muito.

Cátia: Eu não acho.

Marina: Eu acho que critica.

Laís: Eu acho que ela crítica, sim.

Cássia: Só agora eu entendo por que Jane estava muito a frente, mas muuuuito.

Laís: Ainda que de um jeito que me incomode; mas não nego.

Cátia: Eu acho que ela concorda com quase tudo da época dela, só que ela satiriza para se divertir.

Cássia: Quando a Anne conversa com o Benwick…

Marina: Provavelmente, era o tipo de gente que ela odiava ficar perto, hehehehe.

Cátia: Acho que ela devia ter um humor excelente.

Cássia: dizendo que a literatura mostra as mulheres como seres inconstantes, porque a literatura sempre esteve na mão dos homens. Tabefe feminista na lata!

Cátia: Sim…

Marina: Mas você pode criticar com humor.

Nina: Acho que ela aprofunda os principais  e os secundários também. Tipo, ela foi uma escritora que criticava a sociedade da época, e essa coisa de deixar os personagens secundários bem expostos em suas características (odiosas na maior parte do tempo) pode ser fruto disso.

Cátia: Mas eu acho que ela aceita a condição da mulher.

Cássia: É, Nina, tem razão… deixar tudo mais claro. Não sei se aceita tanto não… no fim do livro, aliás, ela fala dessa dualidade, do fato da “profissão” de Anne ser algo recluso ao íntimo.

Marina: Também, não acho que ela aceitava.

Laís: Posso continuar sendo a crítica chatinha da Jane? Tenho que compartilhar mais uma coisa, rsrsrs.

Marina: Tanto que se você olhar bem, todas as personagens de todos os livros são revolucionárias no seu próprio modo.

Cássia: É, acho que todas as heroínas foram de alguma maneira.

Marina: Compartilha, bem, hehehe. Sim, quis dizer as heroínas.

Cássia: Sim, sim, eu concordei, hehehe.

Marina: (Cássia, sim eu que li e depois percebi que ficou parecendo que estava falando de todos os personagens e eu quis dizer as heroínas, hehehe.)

Cássia: (Aaaah, entendi! Desculpa, fofa.)

Laís: Achei muito estranha aquela paixão do Benwick pela Louisa. Ainda que isso tenha sido explicado no livro, achei que foi uma forma de encaixar as coisas; uma desculpa para deixar o W. livre… Vocês não vão concordar, mas achei um tanto artificial.

Marina: Eu também não entendi muito não.

Cátia: Eu concordo, Laís.

Cássia: Não sei, não sei… Anne já tinha dado a deixa de que ele poderia ter outra mulher.

Cátia: Nesse aspecto, eu concordo. Mas há pequenas soluções assim.

Laís: Eba!!!!

Marina: Hehehehehe.

Cátia: Eu acho que foi para destacar o facto de que o sentimento de Benwick não era muito profundo. O próprio W. diz isso, que um homem não esquece um grande amor facilmente (palmas para o W.).

Marina: Clap clap clap.

Cássia: Gente, mas o B. era viúvo. Ele ia ficar chorando a morte da esposa a vida toda?

Cátia: Não, ele não tinha casado…

Cássia: Mas era o amor dele, uai.

Cátia: Eles iam casar.

Cássia: Então, mas amava a moça, ela morreu.

Cátia: Sim, isso era.

Laís: Não, mas sei lá, essa paixão foi repentina demais.

Cássia: Ele ficou sofrendo.

Cátia: E esqueceu o amor dele num espirro.

Cássia: Aaaaaaah, gente, não concordo.

Nina: Também não concordo.

Marina: Também não concordo, não dá para ficar chorando para o resto da vida.

Cássia: Pelamor, tudo tem limite.

Nina: A pessoa não pode se apaixonar não?

Cássia: Guardar um amor que pode acontecer, é mesmo lindo…

Cátia: Sim, mas uma coisa é chorar a vida toda.

Cássia: Agora, o cara sofreu horrores, foi lá para a guerra para dar uma boa vida para a moça…

Cátia: Mas ele já estava esticando os bracinhos para a Anne.

Cássia: a coitada morre…

Cátia: Aí, a Anne vai embora…

Cássia: e ele se afunda de sofrimento. O amor tem de nascer em algum momento.

Cátia: E ele vem e diz: “Ah, Louise, tás aqui e és jeitosinha e tal…”

Cássia: Não precisa demorar anos e anos para ele [o amor] nascer.

Laís: Esse é o ponto, Cátia.

Marina: Hehehehe, é jeitosinha, adorei, hehehe.

Nina: Hahahaha, jeitosinha foi ótimo!

Laís: Era aí que eu queria chegar.

Cássia: Uai, deixa ele pegar a jeitosinha.

Cátia: O Benwick era meio “o que vier a rede cai”, não fosse ele um homem do mar.

Marina: Hehehehehe.

Laís: Hahahahahaha.

Cátia: Não não não.

Cássia: Ah, eu defendo o coitado. Sofreu demais.

Laís: Ótimo, Cátia.

Cássia: Pega mesmo, B.

Cátia: A Jane gostava de colocar uns caras assim meio…

Marina: Caiu na rede é peixe.

Cássia: Vai ser feliz, amigo. Pega a Louisa…

Nina: Eu também acho que tem que pegar.

Cássia: a encha de amor…

Nina: Pega a biscate!

Cássia: leia poesia para ela de noite…

Marina: Assim ela deixa o W. em paz.

Cátia: Tipo, cria um W. genial e um Ben meio chulé.

Marina: E para de falar “me pega”.

Cássia: O mundo é feito só de homens incríveis? Nããããão.

Marina: Nããããããoooooooo.

Cássia: O mundo é feito só de amores verdadeiros? Nããããão. Pega mesmo!

Cátia: Claro que não, mas não precisava ser tão chulé.

Laís: Gente, só para constar, a minha observação era mais do ponto de vista literário.

Cássia: Só por que ele quis pegar a moça? Ele CASOU com ela.

Marina: Pega, casa, tenha cinco filhos e vai ser feliz, hehehehe.

Cátia: Os nossos também, hahahahaha.

Cássia: C-A-S-O-U. Não pegou e deixou de lado. Colocou aliança, deu o sobrenome, casa e roupa lavada, caminha gostosa.

Cátia: Isso era mais o pai da Anne que queria pegar lá a outra oferecida.

Cássia: E o cara é chulé?

Cátia: É chulé… é chulé, sim…

Marina: Mas também devo dizer que essa coisa que do nada vamos casar fica meio chulé, isso é verdade, que nem a Marianne com o outro que eu esqueci o nome.

Cássia: Não é chulé coisa nenhuma.

Nina: Chulé, para mim, era o Willoughby.

Laís: Ai, mas a Louisa também era facinho, facinho.

Cátia: O fulano falar poesia para uma e depois faz curativo na outra.

Cássia: Gente do céu, naquela época era assim.

Cátia: Nossa, Nina, esse não é chulé.

Marina: Verdade, a Louisa era facinha.

Cátia: Esse é a escória.

Cássia: O Will? Chulé mesmo.

Marina: Como diz meu namorado, era uma free free.

Nina: Então.

Cássia: Gente, vocês ficam lendo Jane, se acostumam com Darcy, Knightley e Wentworth e depois os homens viram chulé.

Cátia: Pois.

Nina: Hahahaha.

Cátia: A fasquia aumenta.

Nina: Coitados dos maridos!

Cátia: É, minha filha.

Cássia: Exatamente.

Cátia: Jane nos torna exigentes.

Cássia: Daqui a pouco os maridos de vocês tão perdidos, tendo de escrever carta…

Cátia: Hahahahahaha.

Nina: Hahahahahaha.

Cássia: pedir em casamento (de novo) no bosque.

Marina: Hahahahaha.

Cátia: Hahahahahahaha.

Cássia: Pô, relax!

Cátia: No mínimo.

Cássia: Exatamente.

Laís: Ele foi esquisitinho, não vou negar. Imagina se a Anne estivesse interessada de fato nele. Tanto que todo mundo, sem exceção, ficou surpreso com essa paixonite repentina.

Cátia: Agora sem brincadeira…

Cássia: Porque todo mundo cuidava da vida alheia.

Cátia: Eu entendo o que a Laís…

Cássia: E você saía para passear e estava noivo.

Marina: Eu também entendo.

Cátia: Mas eu acho que essa coisa do Benwick foi para contrastar com o tema da constância.

Cássia: Entendo, mas não compreendo. Mas o W. dizia que a Louisa era constante e continuou afirmando isso quando pediu Anne em casamento. Ele não falou mal dela em momento algum, nem a colocou como alguém que deu um piti e casou com outro.

Marina: Mas também entendo o que a Cássia está falando, eu acho que naquela época devia ter muito casamento que era anunciado do nada, porque provavelmente as pessoas faziam as coisas sem que os outros vissem para que não ficassem falando muito.

Cátia: Sim, mas ela não foi constante.

Cássia: Exatamente, Marina, saiu com o siclano duas vezes, o povo falava.

Nina: Eu entendo o que ela diz, mas não acho que seja uma característica negativa da Jane. Se a gente parar para analisar outros autores… a maioria escreve assim. Até em novela tem isso (péssima comparação, eu sei!).

Cátia: Ela mostrava total interesse nele.

Cássia: Porque pode ser que estivesse a fim dele mesmo, ou ele demonstrou, o que ele próprio deixou claro para Anne.

Cátia: Aquela coisa do “vou me jogar, me pega”, não seria feito por uma mocinha se ela não estivesse interessada.

Cássia: Que estava meio xonadinho pela Louisa. Mas como não se interessar pelo W., me fala?

Cátia: Eu acho que ele quis fazer ciúmes.

Cássia: Me ensina coooooooooomo?

Marina: Hehehehehe.

Cássia: Até eu me jogava.

Laís: Nossa, essa do “eu vou me jogar” definitivamente foi o fim da Louisa, afe.

Marina: Afe.

Nina: Foi feio.

Cátia: Hahahahaha.

Marina: Põe afe nisso.

Nina: Eu fiquei com vergonha.

Cássia: Era uma menina, tadinha.

Cátia: Laís, você não [gosta] da Jane pois não?

Laís: Olha, eu não sou muito fã não, mas essa da Louisa eu gostei; gostei no sentido de que a Jane soube mostrar uma autêntica periguete.

Nina: Hahahahaha.

Cátia: HAHAHAHAHAHAHAHAHA.

Marina: Hehehehehehehehe.

Cássia: A Louisa não era periguete.

Cátia: A Isabela é que foi a periguete.

Cássia: Gente, eu tenho medo de vocês depois desses encontros todos, hehehe. Nossa, a mulherada critica meeeeeeesmo, hehehe.

Cátia: Essa sim.

Cássia: A Isabela foi.

Cátia: E a Maria Bertram também.

Nina: A Isabela foi uma legítima biscate!!! Peloamor… que vergonha alheia!

Cátia: Hahahahahaha.

Laís: Foi mesmo.

Marina: Foi.

Cátia: Uma questão, e isto porque eu não participei desde o início, vocês tinham lido algum livro da Jane antes do clube?

Laís: Eu não.

Nina: Eu já tinha lido todos.

Cássia: Eu tinha lido só Razão e sensibilidade.

Cátia: Hummm.

Cássia: A Nina é a mais fã, junto com você [a Cátia].

Cátia: Porque eu notava a cada encontro que a Laís meio que decepcionava, daí eu ter a curiosidade de saber se vocês conheciam.

Laís: Verdade.

Marina: Eu não conhecia.

Cássia: É, a Laís não é chegada não, hehehe.

Laís: Os livros de que eu mais gostei foram esses dois últimos.

Marina: Mas não me decepcionei.

Laís: Com ressalvas, sim; mas não posso falar que não gostei.

Cátia: Eu só li A Abadia e Mansfield ano passado porque eu não encontrava os livros.

Laís: Vou explicar por que eu não gosto muito.

Cátia: Mas eu já a lia desde os 15 anos mais ou menos. Diz.

Laís: O estilo da Jane me cansa um pouco. Aqueles diálogos intermináveis, aquele dom de contar em 40 páginas o que pode ser contado em beeeeem menos… Isso me deixa meio impaciente.

Marina: Ah, isso eu também acho.

Cátia: É o estilo de época, digamos assim.

Laís: Aí fico desmotivada.

Marina: Mas isso é a época que foi escrito, mas em relação as histórias, eu sempre achei muito bem elaboradas.

Cássia: Eu já gosto da maneira como ela escreve, mas preciso estar com disposição para ler…

Cátia: Eu não preciso dizer que amo.

Marina: Claro que sempre tem uma coisa ou outra, tipo os casamentos surpresa que faz você fazer humpft, mas a gente deixa isso para lá, hehehe.

Cátia: Mas é preciso gostar do estilo de época.

Laís: Eu começo com disposição, mas depois já penso em mil coisas que não têm nada a ver com aquilo.

Marina: Hehehe, isso aconteceu comigo em Orgulho e preconceito.

Cássia: Ah, você fica analisando, não pode, hehehe. Tem de abrir a cabeça e o coração e pluft!

Marina: Hehehehe.

Laís: Eu abro.

Cássia: Você analisa.

Laís: Mas aquela enrolação toda fecha eles de novo.

Cátia: Temos que arranjar um livro para a Laís gostar, gente.

Nina: Pois é, como vai ser a partir de agora?

[A partir de agora, o Clube de Leitura continuará com outros autores e livros. Obrigada, Jane Austen, por ser nossa companheira por um ano. E nos unir, em nome da amizade e da literatura.]