Cabul, Jane Austen e Harry Potter

[…] Enquanto tentava devolver a Mamud o impossível em forma de duas pernas e um braço sem carne, Alberto descobriu Jane Austen. E se apaixonou perdidamente por ela, porque naquele mundo em que as pessoas falavam tão de perto, em que o inquiriam sem rodeios sobre tudo, em que não havia centímetros entre a pele do outro e a sua, em que o sangue, o suor e o cheiro de corpos arrebentados colavam no seu próprio, Jane Austen o carregava para uma Inglaterra onde o mal era consumado em frases cheias de voltas sem um único toque.

Depois de passar o dia lidando com feridos de uma guerra interminável, Alberto se refugiava na sutileza ao mesmo tempo precisa e asséptica de Jane Austen. E nem se importou quando sua casa foi assaltada, e um ladrão improvável levou dois dos sete volumes de Proust. Que ladrão seria este que roubou dois livros em outra língua, mas deixou outros cinco para que sua vítima não ficasse à deriva?

No dia em que um poderoso talibã o agarrou pelo braço com violência no centro ortopédico, Alberto achou que devia isso a Jane Austen. Com o braço livre, empunhou um dedo acusador e pronunciou com firmeza: “Que vergonha! Não vê meus cabelos brancos? Por acaso trataria assim o seu próprio pai? Vergonha!”. E viu o hirsuto talibã encolher-se diante dele, enquanto agradecia mentalmente a Jane Austen.

Eliane Brum, trechos de Cabul, Jane Austen e Harry Potter.
Para ler o (belíssimo) texto completo, aqui.

Os encantos de O PERFUME

O PerfumeO Perfume – Os encantos da história do Assassino

O Perfume é o tipo de livro que te envolve do começo ao fim, encanta. As páginas do livro chegam a exalar os odores retratados tamanha a perfeição com que são descritos.

Lançado em 1895, o romance do escritor alemão Patrick Süskind, com título original Das Parfum, die Geschichte eines Mörders (O Perfume, História de um Assassino), já foi  traduzido para mais de quarenta línguas. Não por menos, a obra foi considerada “o livro da da década de 1980″ na Alemanha.

Inspirado em teorias de Sigmund Freud, o livro conta a história de um homem que possui um olfato extraordinariamente apurado, mas não possui cheiro próprio. A história situa-se no século XVIII, em Paris, passando também pelas cidades de Auvergne, Montpellier, e Grasse. Seu protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, possui duas características excepcionais:

  • não tem cheiro nenhum, o que assusta sua ama e as crianças com quem ele vive no orfanato, mas que permite que ele passe totalmente despercebido. Durante a história, essa ausência de odor, de que ele se dá conta somente bem mais tarde, será compensada pela criação de perfumes mais ou menos atraentes, que Grenouille utiliza de acordo com as circunstâncias a fim de ser notado pelos outros.
  • tem um olfato extremamente desenvolvido, o que lhe permite reconhecer os odores mais imperceptíveis. Conseguia cheirá–los por mais longe que estivessem e armazenava–os todos em sua memória, também excepcional para relembrar aromas. Esse olfato é sua única fonte de alegria, que ele aproveita para confeccionar, sem a mínima experiência, perfumes de qualidade excepcional.

Durante a sua vida teve vários acidentes e doenças, trabalhou como aprendiz de curtidor de peles e depois como aprendiz de perfumista e, graças às suas características, enquanto foi aprendiz de perfumista aprendeu várias técnicas para a criação de um perfume, que posteriormente foi utilizada para a captura dos odores de suas vítimas.

A ação divide-se entre o mundo dos perfumes, traduzido pelo título “O Perfume”, que servem para encobrir o mundo dos fedores, dos crimes e da hipocrisia que caracterizam a cidade de Paris no século XVIII.

O livro, até pouco tempo considerado inadaptável para a linguagem cinematográfica, foi transformado em filme no ano de 2006 pelo diretor alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra). O filme contou com um elenco de celebridades, tais como Dustin Hoffman e Alan Rickman e a personagem central da história foi interpretada pelo jovem Ben Whishaw.

O orçamento da produção extrapolou o valor de 50 milhões de euros, segundo informações contidas no sítio da Deutsche Welle, e além do cinema, o livro foi inspiração para uma canção da banda Nirvana pois Kurt Cobain, vocalista e guitarrista, considerava “O Perfume” como sendo seu livro favorito.

A canção se chama Scentless Apprentice, faixa 02 do álbum In Utero gravado em 1993.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume

“Morreste-me”

Comecei a ouvir falar de José Luís Peixoto a partir de 2005 através da leitura de vários blogues que o citavam. Lia trechos e ouvia falar dos seus livros. Pensava que parecia ser um escritor interessante. A verdade é que os anos começaram a passar e eu adiava ler algo escrito por ele. Em 2009, estava a mudar de canal de televisão e parei num que me chamou a atenção porque era alguém a recitar algo de um escritor. Sim, eram trechos escritos por José Luís Peixoto. Era uma espécie de documentário/biografia e o trecho em causa era do livro “Morreste-me”. Lembro-me que desatei a chorar. Lembro-me que pensei “como é possível haver alguém que coloque por palavras estas sensações?”. Distanciada há 4 anos de uma perda familiar semelhante à relatada no livro e perto de uma possível nova perda não pude ficar indiferente àquelas palavras. Não pude.

Procurei por este livro. Li o “Morreste-me” de um fôlego só. Seguiu-se o “Nenhum Olhar”. Agora estamos com este livro nas mãos: “Cemitério de Pianos”. Ainda faltam mais para ler e o farei conforme a vida assim me permitir.

Devo dizer que, o “Morreste-me” marcou-me. Dele retirei uma frase que me tem acompanhado ao longo destes últimos anos. Adoptei-a. Carrego-a nas mãos e na alma: